O SENHOR jurou e não vai mudar [esse
juramento]: “Você é sacerdote em todo o tempo, [segundo a ordem sacerdotal] de
Melquisedeque”.
Oh soberano SENHOR, à tua direita,
ele esmagará os reis no dia de sua ira. (Salmo 110:4-5)[1]
Esse é um dos salmos
messiânicos mais intrigantes da Bíblia, tanto por conter diversas profecias a
respeito da segunda vinda do Messias, como também por conter uma das metáforas
sacerdotais mais enigmáticas das Escrituras, Melquisedeque. Os Salmos
messiânicos são Salmos que foram usados nas cerimônias de coroação dos reis de
Israel, canções e orações que acompanharam o povo de Deus durante o exílio e os
diversos períodos que Israel foi oprimido por outros povos. São Salmos que
carregam as profecias de um Messias que viria para salvar o povo de Deus e
governar as nações. Muitos deles, apareceram na boca de Jesus, durante momentos
específicos de seu ministério. Foram cantados por seus discípulos e obviamente,
foram fundamento para os escritos do Novo Testamento.
O Salmo 110 em especial,
é o mais citado pelos autores neotestamentários. É citado 7 vezes dos
Evangelhos sinóticos (Mateus 22:44; 26:64; Marcos 12:36; 14:62; Lucas 20:42-43;
22:69), duas vezes no livro de Atos (2:34-35) e 5 vezes no livro de Hebreus (1:13;
5:6,10; 7:17, 21). Um total de 14 versículos.
Sentar-se
à direita de Deus
O Salmo começa com um
diálogo divino, entre Yahweh e seu Ungido. É feito um convite de parceria e
proteção. O conceito de sentar-se à direita de um soberano era comum no
imaginário do Antigo Oriente Próximo, o lado direito era visto como um lugar de
privilégio e distinção[1]. Os reis e autoridades
estavam sempre associados aos deuses e à vontade dos deuses para a comunidade,
não é em vão que muitos governantes, como o Faraó, no Egito, se intitulavam a
reencarnação das divindades. Portanto, o Rei-Messias estaria em parceria com Yahweh,
e consequentemente, sentado à Sua direita. John Walton traz esse contexto de
forma mais clara:
Um
guerreiro totalmente armado segurava sua arma na mão direita e seu escudo na
esquerda. A pessoa à direita de um rei tinha o privilégio de defendê-lo. Para
um rei, colocar alguém nessa posição era uma afirmação de confiança e,
portanto, uma honra. Em contraste, quando o Senhor assume sua posição à direita
de alguém, como no Salmo 109:31, ele está em posição de oferecer defesa com seu
escudo. Uma estátua do Faraó Horemhab (século XIV a.C.) o retrata sentado à
direita do deus Hórus[2].
É válido, ainda ressaltar
que, o termo Messias (Ungido) na Bíblia deve ser entendido e interpretado
considerando os limites da revelação que o povo de Deus, de cada período da
narrativa bíblica, tinha a respeito dele. A princípio o entendimento de
messias, era apenas em relação a um homem, oriundo de uma das doze tribos de
Israel, que havia sido escolhido para ser rei. O entendimento de que esse
ungido seria o mesmo profeta, anunciado por Moisés, vem a partir da profecia
que Davi recebe em II Samuel 6, e fica ainda mais clara com os oráculos de
Daniel, Zacarias, Miqueias, Isaías e outras vozes proféticas que acompanharam o
povo de Deus durante o período do Exílio.
Quem
foi Melquisedeque?
Por causa de
Melquisedeque, o rei que está sendo coroado (nesse Salmo) terá uma ordem
diferente de função, ele será não somente rei, mas também sacerdote. Mas afinal
de contas, quem foi Melquisedeque? Em Gênesis 14:18-20[3], Melquisedeque é descrito
como o rei de Salém, e também sacerdote do Deus Altíssimo. O autor de Gênesis
descreve o momento em que Abraão retorna vitorioso do combate contra os reis
canaanitas, e Melquisedeque o abençoa. É nesse momento, após a benção recebida
que Abraão oferece o dízimo à esse rei-sacerdote.
Salém é a mesma
Jerusalém, que fazia parte do território dos Jebuseus, foi conquistada por Davi
durante o período que governou todo o Israel (II Samuel 5:6-9). Podemos assim
afirmar que, Melquisedeque foi um tipo de Cristo, ele prefigurou aquilo que o
Messias esperado viria a ser, um rei-sacerdote. Essa dupla função, rei e
sacerdote, não era algo novo. Esse era o plano de Deus desde o começo para Adão
e a humanidade. Esse era o plano de Deus para seu povo escolhido, Israel (Êxodo
19:5-6). E esse continua sendo o plano de Deus para a Igreja e os discípulos de
Jesus (I Pedro 2:9-10).
O
Sumo-sacerdote de todos os povos
Jesus é o Sumo-sacerdote perfeito,
o único capaz de fazer expiação por toda a humanidade. Ao mesmo tempo que é
rei, digno de governar todos os reinos da terra. O autor da carta aos Hebreus
faz questão de usar o Salmo 110, para lançar mão da figura de Melquisedeque.
Assim
também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas
aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei. Como também diz, noutro
lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. O qual,
nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e
súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda
que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele
consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe
obedecem; Chamado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque.
(Hebreus 5:5-10)
O Sumo-sacerdote que não
precisa de fazer expiação por si mesmo, pois nunca pecou! O único capaz de ser
o sacrificador (Sumo-sacerdote) e o cordeiro, a oferenda no altar como
pagamento pelo pecado.
Um
reino de Sacerdotes
Desde o momento da
criação, vemos o propósito eterno de Deus sendo impresso na humanidade, imagem
e domínio. Deus criou a humanidade para que pudessem expressá-lo em caráter e santidade,
filhos que reinariam sob toda a criação, habitando a presença do Eterno todos
os dias.
Agora,
se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu
tesouro especial entre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês
serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”.
(Êxodo 19:5-6).
Vocês,
porém, são geração eleita, reino de sacerdotes, nação santa, povo que pertence
a Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz. Antes, vocês não eram povo, mas agora são povo de Deus; não
haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam.
(I Pedro 2:9-10)
O propósito de Deus, desde
o princípio era ter filhos e filhas que o representassem, reis-adoradores. Não
é em vão que C.S Lewis em “As crônicas de Nárnia”, coloca os “filhos de Adão e
as filhas de Eva” como reis e rainhas de Nárnia. Os seres humanos foram criados
para serem corregentes de toda a criação, ministros dos cultos (da vida) ao
Senhor.
Conclusão
O Rei-Sacerdote,
planejado por Deus em Adão, foi cumprido e reestabelecido na humanidade através
do segundo Adão, Jesus. Melquisedeque, foi o um tipo de Cristo em Gênesis, um
prelúdio do que o Messias e os filhos de Deus, os crentes de todas as nações. Ele
é nosso Sumo Sacerdote para sempre, e seu reinado jamais terá fim!
[1] Nancy deClaissé-Walford, “Book Five
of the Psalter: Psalms 107–150”, in The Book of Psalms, org. E. J. Young, R. K.
Harrison, e Robert L. Hubbard Jr., The New International Commentary on the Old
Testament (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing
Company, 2014), 835.
[2] Victor Harold Matthews, Mark W.
Chavalas e John H. Walton, The IVP Bible background commentary: Old Testament,
edição eletrônica (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), Sl 110.1.
[3] Também Melquisedeque, rei de Salém e
sacerdote do Deus Altíssimo, trouxe vinho e pão e 19 abençoou Abrão
dizendo: — Abrão, que o Deus Altíssimo, Criador do céu e da terra, abençoe
você. 20 E louvado seja o Deus Altíssimo, que lhe deu esta vitória sobre
os seus inimigos. E Abrão deu a Melquisedeque a décima parte de tudo o que
tinha obtido na batalha. [ERV: Portuguese Bible, ERV (Bible League International,
2021), Gn 14.18–20].
[1] Detalhes
importantes que só é possível ver bem no Original: No verso 4, a palavra
“SENHOR”, traduzida em caixa alta por muitas versões no português, faz
referência ao nome impronunciável de Deus (Yahweh/Javé). No verso 5, temos a
palavra “adonai”, que significa senhor/dono. Essa palavra é usada em muitos
casos no AT para se referir a Deus. Todavia, aqui ela não aparece de forma
completa, isso deixa mais de uma possibilidade para os tradutores: 1) Refere-se
ao rei, que à direita de Deus, esmagará seus inimigos; 2) Refere-se a Deus, que
contemplará seu rei/ungido esmagar seus inimigos. Essa ambiguidade não
prejudica a compreensão do texto, mas o enriquece. O duplo sentido e a
possibilidade de entender a mesma palavra/expressão é uma característica
importante nos salmos davídicos. Outra curiosidade: Os judeus pronunciam tanto
o nome de Deus (Yahweh) quanto a palavra “senhor” da mesma forma, Adonai.
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