quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O REI-SACERDOTE [Salmo 110]

 

O SENHOR jurou e não vai mudar [esse juramento]: “Você é sacerdote em todo o tempo, [segundo a ordem sacerdotal] de Melquisedeque”.

Oh soberano SENHOR, à tua direita, ele esmagará os reis no dia de sua ira. (Salmo 110:4-5)[1]


Melquisedeque, rei de Salém, 1876 (vitral)

Esse é um dos salmos messiânicos mais intrigantes da Bíblia, tanto por conter diversas profecias a respeito da segunda vinda do Messias, como também por conter uma das metáforas sacerdotais mais enigmáticas das Escrituras, Melquisedeque. Os Salmos messiânicos são Salmos que foram usados nas cerimônias de coroação dos reis de Israel, canções e orações que acompanharam o povo de Deus durante o exílio e os diversos períodos que Israel foi oprimido por outros povos. São Salmos que carregam as profecias de um Messias que viria para salvar o povo de Deus e governar as nações. Muitos deles, apareceram na boca de Jesus, durante momentos específicos de seu ministério. Foram cantados por seus discípulos e obviamente, foram fundamento para os escritos do Novo Testamento.

O Salmo 110 em especial, é o mais citado pelos autores neotestamentários. É citado 7 vezes dos Evangelhos sinóticos (Mateus 22:44; 26:64; Marcos 12:36; 14:62; Lucas 20:42-43; 22:69), duas vezes no livro de Atos (2:34-35) e 5 vezes no livro de Hebreus (1:13; 5:6,10; 7:17, 21). Um total de 14 versículos.

 

Sentar-se à direita de Deus

O Salmo começa com um diálogo divino, entre Yahweh e seu Ungido. É feito um convite de parceria e proteção. O conceito de sentar-se à direita de um soberano era comum no imaginário do Antigo Oriente Próximo, o lado direito era visto como um lugar de privilégio e distinção[1]. Os reis e autoridades estavam sempre associados aos deuses e à vontade dos deuses para a comunidade, não é em vão que muitos governantes, como o Faraó, no Egito, se intitulavam a reencarnação das divindades. Portanto, o Rei-Messias estaria em parceria com Yahweh, e consequentemente, sentado à Sua direita. John Walton traz esse contexto de forma mais clara:

Um guerreiro totalmente armado segurava sua arma na mão direita e seu escudo na esquerda. A pessoa à direita de um rei tinha o privilégio de defendê-lo. Para um rei, colocar alguém nessa posição era uma afirmação de confiança e, portanto, uma honra. Em contraste, quando o Senhor assume sua posição à direita de alguém, como no Salmo 109:31, ele está em posição de oferecer defesa com seu escudo. Uma estátua do Faraó Horemhab (século XIV a.C.) o retrata sentado à direita do deus Hórus[2].

É válido, ainda ressaltar que, o termo Messias (Ungido) na Bíblia deve ser entendido e interpretado considerando os limites da revelação que o povo de Deus, de cada período da narrativa bíblica, tinha a respeito dele. A princípio o entendimento de messias, era apenas em relação a um homem, oriundo de uma das doze tribos de Israel, que havia sido escolhido para ser rei. O entendimento de que esse ungido seria o mesmo profeta, anunciado por Moisés, vem a partir da profecia que Davi recebe em II Samuel 6, e fica ainda mais clara com os oráculos de Daniel, Zacarias, Miqueias, Isaías e outras vozes proféticas que acompanharam o povo de Deus durante o período do Exílio.

 

Quem foi Melquisedeque?

Por causa de Melquisedeque, o rei que está sendo coroado (nesse Salmo) terá uma ordem diferente de função, ele será não somente rei, mas também sacerdote. Mas afinal de contas, quem foi Melquisedeque? Em Gênesis 14:18-20[3], Melquisedeque é descrito como o rei de Salém, e também sacerdote do Deus Altíssimo. O autor de Gênesis descreve o momento em que Abraão retorna vitorioso do combate contra os reis canaanitas, e Melquisedeque o abençoa. É nesse momento, após a benção recebida que Abraão oferece o dízimo à esse rei-sacerdote.

Salém é a mesma Jerusalém, que fazia parte do território dos Jebuseus, foi conquistada por Davi durante o período que governou todo o Israel (II Samuel 5:6-9). Podemos assim afirmar que, Melquisedeque foi um tipo de Cristo, ele prefigurou aquilo que o Messias esperado viria a ser, um rei-sacerdote. Essa dupla função, rei e sacerdote, não era algo novo. Esse era o plano de Deus desde o começo para Adão e a humanidade. Esse era o plano de Deus para seu povo escolhido, Israel (Êxodo 19:5-6). E esse continua sendo o plano de Deus para a Igreja e os discípulos de Jesus (I Pedro 2:9-10).

 

O Sumo-sacerdote de todos os povos

Jesus é o Sumo-sacerdote perfeito, o único capaz de fazer expiação por toda a humanidade. Ao mesmo tempo que é rei, digno de governar todos os reinos da terra. O autor da carta aos Hebreus faz questão de usar o Salmo 110, para lançar mão da figura de Melquisedeque.

Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei. Como também diz, noutro lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem; Chamado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque. (Hebreus 5:5-10)

O Sumo-sacerdote que não precisa de fazer expiação por si mesmo, pois nunca pecou! O único capaz de ser o sacrificador (Sumo-sacerdote) e o cordeiro, a oferenda no altar como pagamento pelo pecado.

 

Um reino de Sacerdotes

Desde o momento da criação, vemos o propósito eterno de Deus sendo impresso na humanidade, imagem e domínio. Deus criou a humanidade para que pudessem expressá-lo em caráter e santidade, filhos que reinariam sob toda a criação, habitando a presença do Eterno todos os dias.

Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro especial entre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. (Êxodo 19:5-6).

Vocês, porém, são geração eleita, reino de sacerdotes, nação santa, povo que pertence a Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Antes, vocês não eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam. (I Pedro 2:9-10)

O propósito de Deus, desde o princípio era ter filhos e filhas que o representassem, reis-adoradores. Não é em vão que C.S Lewis em “As crônicas de Nárnia”, coloca os “filhos de Adão e as filhas de Eva” como reis e rainhas de Nárnia. Os seres humanos foram criados para serem corregentes de toda a criação, ministros dos cultos (da vida) ao Senhor.

 

Conclusão

O Rei-Sacerdote, planejado por Deus em Adão, foi cumprido e reestabelecido na humanidade através do segundo Adão, Jesus. Melquisedeque, foi o um tipo de Cristo em Gênesis, um prelúdio do que o Messias e os filhos de Deus, os crentes de todas as nações. Ele é nosso Sumo Sacerdote para sempre, e seu reinado jamais terá fim!



[1] Nancy deClaissé-Walford, “Book Five of the Psalter: Psalms 107–150”, in The Book of Psalms, org. E. J. Young, R. K. Harrison, e Robert L. Hubbard Jr., The New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 2014), 835.

[2] Victor Harold Matthews, Mark W. Chavalas e John H. Walton, The IVP Bible background commentary: Old Testament, edição eletrônica (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), Sl 110.1.

[3] Também Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, trouxe vinho e pão e 19 abençoou Abrão dizendo: — Abrão, que o Deus Altíssimo, Criador do céu e da terra, abençoe você. 20 E louvado seja o Deus Altíssimo, que lhe deu esta vitória sobre os seus inimigos. E Abrão deu a Melquisedeque a décima parte de tudo o que tinha obtido na batalha. [ERV: Portuguese Bible, ERV (Bible League International, 2021), Gn 14.18–20].



[1] Detalhes importantes que só é possível ver bem no Original: No verso 4, a palavra “SENHOR”, traduzida em caixa alta por muitas versões no português, faz referência ao nome impronunciável de Deus (Yahweh/Javé). No verso 5, temos a palavra “adonai”, que significa senhor/dono. Essa palavra é usada em muitos casos no AT para se referir a Deus. Todavia, aqui ela não aparece de forma completa, isso deixa mais de uma possibilidade para os tradutores: 1) Refere-se ao rei, que à direita de Deus, esmagará seus inimigos; 2) Refere-se a Deus, que contemplará seu rei/ungido esmagar seus inimigos. Essa ambiguidade não prejudica a compreensão do texto, mas o enriquece. O duplo sentido e a possibilidade de entender a mesma palavra/expressão é uma característica importante nos salmos davídicos. Outra curiosidade: Os judeus pronunciam tanto o nome de Deus (Yahweh) quanto a palavra “senhor” da mesma forma, Adonai.

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