No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele
estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele,
e, seele, nada do que foi feito existiria. A vida estava nele e era a luz dos
homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. (João 1:1-5)
Semana passada estive em
um encontro global sobre Tradução Oral da Bíblia e uma irmã etíope, durante um
dos devocionais, compartilhou conosco essa pequena reflexão. Vou usar um pouco
de suas palavras, todavia, misturadas às minhas próprias. Se você me acompanha
há algum tempo, sabe que tenho me dedicado à essa tarefa, contribuir com a
tradução da Bíblia para povos que ainda não tem a Bíblia em sua primeira
língua.
“Por que traduzir a
Bíblia?” é uma pergunta muito boa, pois além de nos fazer pensar no óbvio,
respostas que já estamos acostumados a dar e ouvir, também nos conduz a perspectivas
bíblicas, ainda pouco exploradas.
Para que todos tenham a
Palavra de Deus em sua língua materna
Essa é a resposta mais óbvia.
Todos os povos precisam conhecer Deus de forma plena e profunda e isso só é
possível por meio da língua do coração de cada povo. A língua materna de uma
pessoa carrega afeto, ancestralidade e pertencimento. Deus sempre soube disso,
ao se fazer carne falou a língua dos homens e mulheres de sua época, falou na
língua do coração do povo hebreu, egípcio, romano e grego. Outro ponto
interessante, da encarnação do Verbo, é que ele também tinha uma língua materna
(talvez mais de uma), que foram usadas em momentos de dor (Mateus 27:46, Marcos
15:34), milagres extraordinários (Marcos 5:41-42, Marcos 7:33-35) e com
certeza, sermões, conversas privadas e no dia a dia com seus amigos galileus.
A pergunta que foi feita
no início do século XX, por um nativo da região da Guatemala à William Cameron
Townsend[1]: “O seu Deus não é
poderoso o suficiente para falar a minha língua?”, tornou-se um despertar do
povo de Deus para os milhares de povos da terra que ainda não conheciam Jesus,
o Deus encarnado, de forma pessoal. Povos que tinham acesso à Bíblia na língua
do colonizador, e quando a receberam em sua própria língua foram profundamente
tocados.
Roberty Dooley viveu após
traduzir a Bíblia para o Guarani. Certo dia ele estava conversando com um dos
nativos que o auxiliou no processo de tradução da Bíblia para o Guarani, e
perguntou: “Você gosta de ler a Bíblia na sua própria língua?”, e o nativo
respondeu: “Não, prefiro lê-la no português!”, e o missionário triste, pensando
que seu trabalho havia sido em vão, decidiu fazer mais uma pergunta “Porque
você prefere lê-la no português?”, o nativo respondeu: “Por que a Bíblia no
português parece uma poesia, é muito bonita. Mas, no Guarani, ela me confronta!”.
Podemos imaginar o alívio do missionário, ao ouvir essa resposta.
Esse entendimento a
respeito do impacto da Palavra de Deus na língua materna de cada povo da terra,
é pacífico. Isso tem ficado cada vez mais claro para a Igreja e para os
missionários de forma geral. É necessário comunicar bem a mensagem do
evangelho. É importante falar, traduzir e encarnar Jesus para todos os povos da
terra.
Para que a Igreja tenha a
compreensão completa da Glória de Deus
Essa é uma perspectiva
que exploramos pouco. Normalmente a Igreja ouve o seguinte: “Os povos precisam
de nós!”, mas o que ela não entendeu ainda, é que o Povo de Deus, a Igreja de
Jesus, precisa dos povos. Vejamos com mais vagar o versículo cinco do primeiro
capítulo do evangelho segundo a João: A vida estava nele e era a luz dos
homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.
Quando olhamos para a luz
refletida em um prisma/espelho, podemos ver como essa luz fica colorida,
diversa e muito bonita. Jesus é a luz dos homens, a luz que resplandece nas
trevas. Cada língua/cultura pode expressar uma parte da glória de Deus aqui na
terra. Nenhuma língua consegue expressar sozinha o significado do que está
expresso nos idiomas originais que a Bíblia foi escrita, como também, muitas das
emoções expressas no texto bíblico são melhores expressas quando traduzidas.
Não estou afirmar aqui
que o texto original está incompleto, de forma alguma, todavia, ele pode ser
melhor expresso por meio dos sentimentos e significados que as línguas dos
povos da terra carregam. Por exemplo, a palavra “Saudades” no português, não
tem tradução em outros idiomas. Normalmente você vai precisar usar muitas
outras palavras juntas para conseguir expressar o que ela significa. Isso
acontece em todas as línguas. Cada povo
reflete de forma única e bonita a glória de Deus, através de suas diversidades
culturais e linguísticas, e assim, fazem a luz de Deus brilhar nas trevas.
Toda
língua e cultura é digna de portar a verdade do Cristianismo! Alguém pode morar
numa parte deste planeta onde parece que Deus só consegue se comunicar numa
certa língua ou em outras línguas, menos na sua! Mas a missão do Deus Triúno
abarca todos os povos, em todos os lugares. [...] As
Escrituras chegaram até nós “respiradas por Deus" (II Tim 3:16), nos
idiomas dos autores. Nós também usamos nossos idiomas – em sinais, na fala, e
na escrita – para "declarar a Sua glória entre as nações" (Salmo
96:3) à medida que participamos todos da missão de Deus que está reconciliando
o mundo consigo mesmo.
(Bryan
Harmelink)
Portanto, precisamos de
mais traduções, pois a Igreja precisa conhecer de forma mais profunda a Glória
de Deus! Por isso, a tradução da Bíblia não é uma opção, mas, uma necessidade.
Para que a Glória de Deus seja refletida de forma completa e bonita, precisamos
de todos os povos da terra juntos. Precisamos de muitas vozes, para expressar
uma única história.
Para que todos os povos O
adorem!
João viu uma grande
multidão de todas tribos, povos e nações, diante do trono de Deus adorando o
Cordeiro. Apocalipse 7:9-10 é uma realidade! João viu! O banquete está
preparado, a mesa está posta, mas ainda há lugares vazios. Deus está em missão,
desde o momento em que o homem caiu. E objetivo dessa missão é que todos os
povos possam adorá-Lo, com suas diferentes línguas, culturas e cores. A terra
será cheia da Glória de Deus, assim como as águas cobrem o mar!
Portanto, o terceiro
motivo pelo qual devemos traduzir a Bíblia é para que os povos conheçam a Deus
e O adorem! Trazer os seres humanos de volta a seu propósito original, amizade e
parceria com o Deus trino.
Porque Ele traduziu
primeiro
O quarto e último motivo,
que acrescentaria aqui, para que a Igreja de Jesus se envolva com a Tradução da
Bíblia, é porque Deus se traduziu para a humanidade, através de Jesus. O Deus Criador
dos céus e da terra é o Deus que se revela, como bem afirmou Francis Schaeffer.
Ele fez questão de ser conhecido! Ele se deixou ser conhecido por suas
criaturas. Diferente dos deuses criados por mãos humanas, dos espíritos
malignos que fundam religiões de mistério e do culto ao oculto, o único e
verdadeiro Deus se traduziu em forma humana. Fez questão de andar no meio de
nós, fazer parte de uma cultura específica, em uma época específica. O Deus Criador
de todo o universo falou a língua dos homens, se limitou a um tempo e espaço.
É exatamente por isso,
que a o povo de Deus, precisa traduzir a Bíblia para os povos. A Igreja de
Jesus precisa traduzir Deus para os povos que não O conhecem. Uma tradução que
não é feita somente com palavras, mas sons, símbolos e ritos. Uma tradução
multimodal, encarnacional, como o próprio Cristo o fez. Nós traduzimos, porque
Ele traduziu primeiro.
Conclusão
Creio que essas sejam
razões suficientes para começarmos a pensar e valorizar a Tradução da Bíblia. Não
apenas pelos motivos popularmente conhecidos e divulgados, mas principalmente
para que toda a terra seja cheia da Glória de Deus! Para que a Igreja do Senhor
Jesus seja enriquecida com toda a diversidade que os povos da terra podem
oferecer, juntos na adoração coletiva ao Cordeiro.
[1] Um dos fundadores da Wycliffe Bible
Translators e do Summer Institute of Linguistics (agora a agencia Internacional
SIL). Ambas, com foco em tradução da Bíblia e alfabetização bilíngue para
línguas minoritárias.


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