sábado, 30 de maio de 2026

POR QUE TRADUZIR A BÍBLIA?

 

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, seele, nada do que foi feito existiria. A vida estava nele e era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. (João 1:1-5)


Acervo Pessoal



Semana passada estive em um encontro global sobre Tradução Oral da Bíblia e uma irmã etíope, durante um dos devocionais, compartilhou conosco essa pequena reflexão. Vou usar um pouco de suas palavras, todavia, misturadas às minhas próprias. Se você me acompanha há algum tempo, sabe que tenho me dedicado à essa tarefa, contribuir com a tradução da Bíblia para povos que ainda não tem a Bíblia em sua primeira língua.

“Por que traduzir a Bíblia?” é uma pergunta muito boa, pois além de nos fazer pensar no óbvio, respostas que já estamos acostumados a dar e ouvir, também nos conduz a perspectivas bíblicas, ainda pouco exploradas.

 

Para que todos tenham a Palavra de Deus em sua língua materna

Essa é a resposta mais óbvia. Todos os povos precisam conhecer Deus de forma plena e profunda e isso só é possível por meio da língua do coração de cada povo. A língua materna de uma pessoa carrega afeto, ancestralidade e pertencimento. Deus sempre soube disso, ao se fazer carne falou a língua dos homens e mulheres de sua época, falou na língua do coração do povo hebreu, egípcio, romano e grego. Outro ponto interessante, da encarnação do Verbo, é que ele também tinha uma língua materna (talvez mais de uma), que foram usadas em momentos de dor (Mateus 27:46, Marcos 15:34), milagres extraordinários (Marcos 5:41-42, Marcos 7:33-35) e com certeza, sermões, conversas privadas e no dia a dia com seus amigos galileus.

A pergunta que foi feita no início do século XX, por um nativo da região da Guatemala à William Cameron Townsend[1]: “O seu Deus não é poderoso o suficiente para falar a minha língua?”, tornou-se um despertar do povo de Deus para os milhares de povos da terra que ainda não conheciam Jesus, o Deus encarnado, de forma pessoal. Povos que tinham acesso à Bíblia na língua do colonizador, e quando a receberam em sua própria língua foram profundamente tocados.

Roberty Dooley viveu após traduzir a Bíblia para o Guarani. Certo dia ele estava conversando com um dos nativos que o auxiliou no processo de tradução da Bíblia para o Guarani, e perguntou: “Você gosta de ler a Bíblia na sua própria língua?”, e o nativo respondeu: “Não, prefiro lê-la no português!”, e o missionário triste, pensando que seu trabalho havia sido em vão, decidiu fazer mais uma pergunta “Porque você prefere lê-la no português?”, o nativo respondeu: “Por que a Bíblia no português parece uma poesia, é muito bonita. Mas, no Guarani, ela me confronta!”. Podemos imaginar o alívio do missionário, ao ouvir essa resposta.

Esse entendimento a respeito do impacto da Palavra de Deus na língua materna de cada povo da terra, é pacífico. Isso tem ficado cada vez mais claro para a Igreja e para os missionários de forma geral. É necessário comunicar bem a mensagem do evangelho. É importante falar, traduzir e encarnar Jesus para todos os povos da terra.

 

Para que a Igreja tenha a compreensão completa da Glória de Deus

Essa é uma perspectiva que exploramos pouco. Normalmente a Igreja ouve o seguinte: “Os povos precisam de nós!”, mas o que ela não entendeu ainda, é que o Povo de Deus, a Igreja de Jesus, precisa dos povos. Vejamos com mais vagar o versículo cinco do primeiro capítulo do evangelho segundo a João: A vida estava nele e era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.

Quando olhamos para a luz refletida em um prisma/espelho, podemos ver como essa luz fica colorida, diversa e muito bonita. Jesus é a luz dos homens, a luz que resplandece nas trevas. Cada língua/cultura pode expressar uma parte da glória de Deus aqui na terra. Nenhuma língua consegue expressar sozinha o significado do que está expresso nos idiomas originais que a Bíblia foi escrita, como também, muitas das emoções expressas no texto bíblico são melhores expressas quando traduzidas.

Não estou afirmar aqui que o texto original está incompleto, de forma alguma, todavia, ele pode ser melhor expresso por meio dos sentimentos e significados que as línguas dos povos da terra carregam. Por exemplo, a palavra “Saudades” no português, não tem tradução em outros idiomas. Normalmente você vai precisar usar muitas outras palavras juntas para conseguir expressar o que ela significa. Isso acontece em todas as línguas.  Cada povo reflete de forma única e bonita a glória de Deus, através de suas diversidades culturais e linguísticas, e assim, fazem a luz de Deus brilhar nas trevas.

Toda língua e cultura é digna de portar a verdade do Cristianismo! Alguém pode morar numa parte deste planeta onde parece que Deus só consegue se comunicar numa certa língua ou em outras línguas, menos na sua! Mas a missão do Deus Triúno abarca todos os povos, em todos os lugares. [...] As Escrituras chegaram até nós “respiradas por Deus" (II Tim 3:16), nos idiomas dos autores. Nós também usamos nossos idiomas – em sinais, na fala, e na escrita – para "declarar a Sua glória entre as nações" (Salmo 96:3) à medida que participamos todos da missão de Deus que está reconciliando o mundo consigo mesmo.

(Bryan Harmelink)

Portanto, precisamos de mais traduções, pois a Igreja precisa conhecer de forma mais profunda a Glória de Deus! Por isso, a tradução da Bíblia não é uma opção, mas, uma necessidade. Para que a Glória de Deus seja refletida de forma completa e bonita, precisamos de todos os povos da terra juntos. Precisamos de muitas vozes, para expressar uma única história.

 

Para que todos os povos O adorem!

João viu uma grande multidão de todas tribos, povos e nações, diante do trono de Deus adorando o Cordeiro. Apocalipse 7:9-10 é uma realidade! João viu! O banquete está preparado, a mesa está posta, mas ainda há lugares vazios. Deus está em missão, desde o momento em que o homem caiu. E objetivo dessa missão é que todos os povos possam adorá-Lo, com suas diferentes línguas, culturas e cores. A terra será cheia da Glória de Deus, assim como as águas cobrem o mar!

Portanto, o terceiro motivo pelo qual devemos traduzir a Bíblia é para que os povos conheçam a Deus e O adorem! Trazer os seres humanos de volta a seu propósito original, amizade e parceria com o Deus trino.

 

Porque Ele traduziu primeiro

O quarto e último motivo, que acrescentaria aqui, para que a Igreja de Jesus se envolva com a Tradução da Bíblia, é porque Deus se traduziu para a humanidade, através de Jesus. O Deus Criador dos céus e da terra é o Deus que se revela, como bem afirmou Francis Schaeffer. Ele fez questão de ser conhecido! Ele se deixou ser conhecido por suas criaturas. Diferente dos deuses criados por mãos humanas, dos espíritos malignos que fundam religiões de mistério e do culto ao oculto, o único e verdadeiro Deus se traduziu em forma humana. Fez questão de andar no meio de nós, fazer parte de uma cultura específica, em uma época específica. O Deus Criador de todo o universo falou a língua dos homens, se limitou a um tempo e espaço.

É exatamente por isso, que a o povo de Deus, precisa traduzir a Bíblia para os povos. A Igreja de Jesus precisa traduzir Deus para os povos que não O conhecem. Uma tradução que não é feita somente com palavras, mas sons, símbolos e ritos. Uma tradução multimodal, encarnacional, como o próprio Cristo o fez. Nós traduzimos, porque Ele traduziu primeiro.

 

Conclusão

Creio que essas sejam razões suficientes para começarmos a pensar e valorizar a Tradução da Bíblia. Não apenas pelos motivos popularmente conhecidos e divulgados, mas principalmente para que toda a terra seja cheia da Glória de Deus! Para que a Igreja do Senhor Jesus seja enriquecida com toda a diversidade que os povos da terra podem oferecer, juntos na adoração coletiva ao Cordeiro.



[1] Um dos fundadores da Wycliffe Bible Translators e do Summer Institute of Linguistics (agora a agencia Internacional SIL). Ambas, com foco em tradução da Bíblia e alfabetização bilíngue para línguas minoritárias.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

SALMO 133 – A BENÇÃO NA UNIDADE

 

Como é bom e agradável os irmãos viverem em união!

É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce para a barba, a barba de Arão, e desce sobre a gola das suas vestes;

como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.

(Salmo 133)




O Salmo 133 faz parte dos Salmos dos Degraus, também conhecido como Salmos de Peregrinação, Salmos de romagem e ainda Cânticos de ascensão. Eram salmos cantados pelos peregrinos que seguiam para Jerusalém durante a Festa da Páscoa (Pesah), Festa das Semanas (Shavua) e Festa dos Tabernáculos (Sucot). Não há consenso a respeito do porque esses salmos são assim designados, alguns afirmam que esses salmos correspondiam aos degraus do Templo do Senhor. Outros afirmavam que eles faziam referência aos quinze degraus que estavam entre o pátio das mulheres e o Templo principal.

É provável que alguns desses salmos foram escritos e cantados durante os dias de Davi e Salomão, todavia, é possível perceber a influência do exílio em salmos como o 120, 123 e 126. Os quais revelavam o saudoso coração do povo de Israel por sua terra, local de adoração (Templo) e a benção da comunidade reunida para adoração coletiva. É válido ressaltar que o exílio além de gerar esse saudosismo, também consolidou, por meio do imaginário profético, as antigas promessas de um Messias que viria da linhagem de Davi.

Quando olhamos a organização desses Salmos [120 ao 134], é possível perceber uma estrutura gradativa, de cânticos que começavam nos caminhos que saíam das diversas cidades de Israel, e finalizavam no Templo em Jerusalém. O 133 contempla a comunidade toda reunida diante do Senhor e o 134, fecha a coleção, mostrando o trabalho dos sacerdotes dentro do Templo, em um serviço incessante. Outro ponto interessante para observar, quando pensamos em como esses salmos são chamados, é a respeito da geografia de Jerusalém, uma cidade edificada sobre montes. O monte do Templo era um deles. Os peregrinos naturalmente subiam para adorarem e sacrificarem ao Senhor.

 

Quão BOM e agradável

A palavra usada por Davi[1] para descrever a unidade do povo de Deus é BOM, a mesma palavra usada por Deus em Gênesis 1. Ela lembra ao ouvinte que a vontade de Deus para a humanidade é vivermos em COMUNIDADE, em família. É por isso que Ele disse em Gênesis 2, que NÃO era BOM que o homem vivesse só.

Assim como Deus vive em família (a Trindade Santa), nós fomos criados semelhantes a Ele, seres gregários, destinados a viver em comunidade. Toda a história da humanidade, suas correntes filosóficas e sociais chegaram nessa mesma conclusão. Aquilo que a Bíblia já mostrava de forma tão primorosa e clara, o ser humano vive e desenvolve-se melhor em sociedade.

 

Como Azeite e como Orvalho

Como AZEITE precioso derramado sobre a cabeça de ARÃO. Levíticos 8:10-12 descreve a unção de Arão como Sumo-sacerdote, o responsável por representar o povo diante de Deus. A unção de Arão era o símbolo da presença de Deus no meio do Seu povo, posto que, era o meio pelo qual o perdão dos pecados era concedido com o sacrifício do cordeiro e a propiciação no Santo dos Santos.

 Como o orvalho de HERMOM que desce sobre os montes de SIÃO. O monte Hermom por possuir altitude considerável, em seu topo toda a umidade recebida vira gelo (neve). O processo de desgelo, conforme as temperaturas mudam ao longo do ano, abastece os rios e lagos da região. Assim, o Hermom é um símbolo de prosperidade para boa parte do território de Israel. Da mesma forma que acontecia no passado, o Sumo-sacerdote abençoava o povo a partir de Sião, em cada uma das festividades, o mundo foi abençoado, por meio do Messias que morreu e ressuscitou em Jerusalém. Assim temos o cumprimento da promessa que Deus fez a Abraão, a partir de Sião, TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA foram abençoadas.

O óleo e o orvalho são símbolos metafóricos da benção que celebram a bondade e a amabilidade daqueles que vivem juntos em união.

Nancy deClaissé-Walford[2]

Jesus, o Sumo-sacerdote que fez expiação pelos nossos pecados de uma só vez, e abriu por meio de si mesmo, um novo e vivo caminho para o Pai. Como cabeça do corpo, Ele foi Ungido. A unção foi derramada sobre a cabeça, desceu pela barba, gola e o restante do corpo. A unção sacerdotal foi derramada sobre nós, Seu povo, para que pudéssemos voltar ao nosso propósito original, um reino de sacerdotes (I Pedro 2:9-10).

 

Salmo 133 na tradição cristã

Na tradição Cristã, o Salmo 133 tem sido usado na Ceia do Senhor. Onde todos aqueles que fazem parte do Povo de Deus são bem-vindos a se assentarem à mesa da família de Deus.

Agostinho afirmou com ousadia que o Salmo 133 inspirou a fundação dos mosteiros, uma vez que as suas palavras retratam o ideal dos irmãos, companheiros de peregrinação na fé, vivendo juntos em unidade.

Viemos de famílias aparentadas de diferentes lugares e épocas, mas o nosso parentesco definitivo é assegurado através da nossa partilha mútua nas promessas de Deus.

Nancy deClaissé-Walford

As palavras usadas no Salmo 133 lembravam o povo de que sua relação familiar não era simplesmente baseada no sangue, mas pela sua participação mútua na comunidade de Deus. Unidos como irmãos e irmãs. Nisso podemos observar de forma mais clara, a promessa de Deus: “...porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.” (Isaías 56:7c), se cumprindo na Igreja. A família de Deus composta por povos de todas as partes da terra, diferentes línguas e culturas.

 

Conclusão

Como Paulo bem ilustrou em I Coríntios 12, somos um único Corpo, fomos batizados em um mesmo batismo e compartilhamos o mesmo Espírito. A Igreja de Jesus é o ajuntamento de pessoas que abriram mão de suas próprias vontades, para juntas se submeterem à vontade de Deus. A unidade do povo de Deus tem como ponto central, a comunhão. Jesus deixou muito claro como o mundo nos identificaria como Seus discípulos, por causa da unidade (João 17).

A Igreja vive em comunhão quando cada membro abre mão das suas próprias vontades, para que a vontade de Deus tenha supremacia. Quando cada um cresce na revelação de Cristo o suficiente, a ponto de O identificarem em seus irmãos e irmãs. As bênçãos da unidade, expressas nesse salmo, são apenas uma sombra daquilo que Deus planejou para que seu povo pudesse desfrutar, através da Igreja. A imagem perfeita de Deus na terra.



[1] O possível autor do Salmo 133.

[2] Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson, e Beth LaNeel Tanner, “The Songs of the Ascents: Psalms”, in The Book of Psalms, org. E. J. Young, R. K. Harrison, e Robert L. Hubbard Jr., The New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 2014).

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O REI-SACERDOTE [Salmo 110]

 

O SENHOR jurou e não vai mudar [esse juramento]: “Você é sacerdote em todo o tempo, [segundo a ordem sacerdotal] de Melquisedeque”.

Oh soberano SENHOR, à tua direita, ele esmagará os reis no dia de sua ira. (Salmo 110:4-5)[1]


Melquisedeque, rei de Salém, 1876 (vitral)

Esse é um dos salmos messiânicos mais intrigantes da Bíblia, tanto por conter diversas profecias a respeito da segunda vinda do Messias, como também por conter uma das metáforas sacerdotais mais enigmáticas das Escrituras, Melquisedeque. Os Salmos messiânicos são Salmos que foram usados nas cerimônias de coroação dos reis de Israel, canções e orações que acompanharam o povo de Deus durante o exílio e os diversos períodos que Israel foi oprimido por outros povos. São Salmos que carregam as profecias de um Messias que viria para salvar o povo de Deus e governar as nações. Muitos deles, apareceram na boca de Jesus, durante momentos específicos de seu ministério. Foram cantados por seus discípulos e obviamente, foram fundamento para os escritos do Novo Testamento.

O Salmo 110 em especial, é o mais citado pelos autores neotestamentários. É citado 7 vezes dos Evangelhos sinóticos (Mateus 22:44; 26:64; Marcos 12:36; 14:62; Lucas 20:42-43; 22:69), duas vezes no livro de Atos (2:34-35) e 5 vezes no livro de Hebreus (1:13; 5:6,10; 7:17, 21). Um total de 14 versículos.

 

Sentar-se à direita de Deus

O Salmo começa com um diálogo divino, entre Yahweh e seu Ungido. É feito um convite de parceria e proteção. O conceito de sentar-se à direita de um soberano era comum no imaginário do Antigo Oriente Próximo, o lado direito era visto como um lugar de privilégio e distinção[1]. Os reis e autoridades estavam sempre associados aos deuses e à vontade dos deuses para a comunidade, não é em vão que muitos governantes, como o Faraó, no Egito, se intitulavam a reencarnação das divindades. Portanto, o Rei-Messias estaria em parceria com Yahweh, e consequentemente, sentado à Sua direita. John Walton traz esse contexto de forma mais clara:

Um guerreiro totalmente armado segurava sua arma na mão direita e seu escudo na esquerda. A pessoa à direita de um rei tinha o privilégio de defendê-lo. Para um rei, colocar alguém nessa posição era uma afirmação de confiança e, portanto, uma honra. Em contraste, quando o Senhor assume sua posição à direita de alguém, como no Salmo 109:31, ele está em posição de oferecer defesa com seu escudo. Uma estátua do Faraó Horemhab (século XIV a.C.) o retrata sentado à direita do deus Hórus[2].

É válido, ainda ressaltar que, o termo Messias (Ungido) na Bíblia deve ser entendido e interpretado considerando os limites da revelação que o povo de Deus, de cada período da narrativa bíblica, tinha a respeito dele. A princípio o entendimento de messias, era apenas em relação a um homem, oriundo de uma das doze tribos de Israel, que havia sido escolhido para ser rei. O entendimento de que esse ungido seria o mesmo profeta, anunciado por Moisés, vem a partir da profecia que Davi recebe em II Samuel 6, e fica ainda mais clara com os oráculos de Daniel, Zacarias, Miqueias, Isaías e outras vozes proféticas que acompanharam o povo de Deus durante o período do Exílio.

 

Quem foi Melquisedeque?

Por causa de Melquisedeque, o rei que está sendo coroado (nesse Salmo) terá uma ordem diferente de função, ele será não somente rei, mas também sacerdote. Mas afinal de contas, quem foi Melquisedeque? Em Gênesis 14:18-20[3], Melquisedeque é descrito como o rei de Salém, e também sacerdote do Deus Altíssimo. O autor de Gênesis descreve o momento em que Abraão retorna vitorioso do combate contra os reis canaanitas, e Melquisedeque o abençoa. É nesse momento, após a benção recebida que Abraão oferece o dízimo à esse rei-sacerdote.

Salém é a mesma Jerusalém, que fazia parte do território dos Jebuseus, foi conquistada por Davi durante o período que governou todo o Israel (II Samuel 5:6-9). Podemos assim afirmar que, Melquisedeque foi um tipo de Cristo, ele prefigurou aquilo que o Messias esperado viria a ser, um rei-sacerdote. Essa dupla função, rei e sacerdote, não era algo novo. Esse era o plano de Deus desde o começo para Adão e a humanidade. Esse era o plano de Deus para seu povo escolhido, Israel (Êxodo 19:5-6). E esse continua sendo o plano de Deus para a Igreja e os discípulos de Jesus (I Pedro 2:9-10).

 

O Sumo-sacerdote de todos os povos

Jesus é o Sumo-sacerdote perfeito, o único capaz de fazer expiação por toda a humanidade. Ao mesmo tempo que é rei, digno de governar todos os reinos da terra. O autor da carta aos Hebreus faz questão de usar o Salmo 110, para lançar mão da figura de Melquisedeque.

Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei. Como também diz, noutro lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem; Chamado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque. (Hebreus 5:5-10)

O Sumo-sacerdote que não precisa de fazer expiação por si mesmo, pois nunca pecou! O único capaz de ser o sacrificador (Sumo-sacerdote) e o cordeiro, a oferenda no altar como pagamento pelo pecado.

 

Um reino de Sacerdotes

Desde o momento da criação, vemos o propósito eterno de Deus sendo impresso na humanidade, imagem e domínio. Deus criou a humanidade para que pudessem expressá-lo em caráter e santidade, filhos que reinariam sob toda a criação, habitando a presença do Eterno todos os dias.

Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro especial entre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. (Êxodo 19:5-6).

Vocês, porém, são geração eleita, reino de sacerdotes, nação santa, povo que pertence a Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Antes, vocês não eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam. (I Pedro 2:9-10)

O propósito de Deus, desde o princípio era ter filhos e filhas que o representassem, reis-adoradores. Não é em vão que C.S Lewis em “As crônicas de Nárnia”, coloca os “filhos de Adão e as filhas de Eva” como reis e rainhas de Nárnia. Os seres humanos foram criados para serem corregentes de toda a criação, ministros dos cultos (da vida) ao Senhor.

 

Conclusão

O Rei-Sacerdote, planejado por Deus em Adão, foi cumprido e reestabelecido na humanidade através do segundo Adão, Jesus. Melquisedeque, foi o um tipo de Cristo em Gênesis, um prelúdio do que o Messias e os filhos de Deus, os crentes de todas as nações. Ele é nosso Sumo Sacerdote para sempre, e seu reinado jamais terá fim!



[1] Nancy deClaissé-Walford, “Book Five of the Psalter: Psalms 107–150”, in The Book of Psalms, org. E. J. Young, R. K. Harrison, e Robert L. Hubbard Jr., The New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 2014), 835.

[2] Victor Harold Matthews, Mark W. Chavalas e John H. Walton, The IVP Bible background commentary: Old Testament, edição eletrônica (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), Sl 110.1.

[3] Também Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, trouxe vinho e pão e 19 abençoou Abrão dizendo: — Abrão, que o Deus Altíssimo, Criador do céu e da terra, abençoe você. 20 E louvado seja o Deus Altíssimo, que lhe deu esta vitória sobre os seus inimigos. E Abrão deu a Melquisedeque a décima parte de tudo o que tinha obtido na batalha. [ERV: Portuguese Bible, ERV (Bible League International, 2021), Gn 14.18–20].



[1] Detalhes importantes que só é possível ver bem no Original: No verso 4, a palavra “SENHOR”, traduzida em caixa alta por muitas versões no português, faz referência ao nome impronunciável de Deus (Yahweh/Javé). No verso 5, temos a palavra “adonai”, que significa senhor/dono. Essa palavra é usada em muitos casos no AT para se referir a Deus. Todavia, aqui ela não aparece de forma completa, isso deixa mais de uma possibilidade para os tradutores: 1) Refere-se ao rei, que à direita de Deus, esmagará seus inimigos; 2) Refere-se a Deus, que contemplará seu rei/ungido esmagar seus inimigos. Essa ambiguidade não prejudica a compreensão do texto, mas o enriquece. O duplo sentido e a possibilidade de entender a mesma palavra/expressão é uma característica importante nos salmos davídicos. Outra curiosidade: Os judeus pronunciam tanto o nome de Deus (Yahweh) quanto a palavra “senhor” da mesma forma, Adonai.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

[HESHED] O AMOR LEAL DE DEUS



Certamente, bondade e o amor leal me seguirão
Todos os dias da minha vida,
E eu habitarei na casa do SENHOR para sempre.
(Salmo 23:6)

A criação de Adão


Heshed, esse é um termo importante no contexto bíblico. Essa palavra está presente em 26 dos 39[1] livros do Antigo Testamento. Ela aparece pelo menos 249 vezes, somando os cânticos, diálogos, profecias e orações. As equipes que trabalharam nas versões que temos no português, escolheram palavras como: benignidade (ARC), amor (A21, NVT, NTLH), misericórdia (NAA) e ainda a palavra “fidelidade”, para traduzir o termo Heshed. A equipe que trabalhou na NVI escolheu uma tradução diferente (nos Salmos principalmente), duas palavras: “amor leal”. Isso porque, Heshed é a demonstração de afeto (amor, bondade, misericórdia) ligada a um compromisso, uma aliança previamente estabelecida. Portanto, não é simplesmente um amor desinteressado, ou um tipo de sentimento como normalmente interpretamos pela nossa ótica humana ocidental, é a lealdade ante ao compromisso que foi estabelecido consigo mesmo e com o outro, e na maioria dos casos no AT, de Deus com Seu povo[2].

 

A aliança no Antigo Oriente Próximo – ritual e consequências

Um exemplo bíblico de uma aliança feita, no contexto do Antigo Oriente Próximo, está em Gênesis 15. Deus promete a Abraão uma descendência e uma terra, e para confirmar essa promessa, Deus chama Abraão para fazer uma aliança. Os elementos e simbolismos eram os mesmos usados pelos reis e senhores [feudais][3] que habitavam aquela região.

 E Deus saiu com Abrão para fora da tenda e lhe disse: — Olhe para o céu e conte as estrelas, se puder. Os seus descendentes serão tão numerosos como as estrelas.  [...] E Deus lhe disse: — Eu sou o SENHOR, que tirou você da cidade de Ur, da terra dos caldeus, para lhe dar esta terra como herança. Então Abrão perguntou: — Ó Senhor DEUS, como posso ter certeza de que esta terra será minha? E Deus lhe respondeu: — Você deverá me trazer uma bezerra, uma cabra, e um carneiro. Todos de três anos de idade. Traga também uma rola e um pombinho. Abrão trouxe os animais, os cortou ao meio e colocou cada metade uma na frente da outra. Mas ele não cortou as aves. Mais tarde vieram alguns abutres para comerem a carne dos animais mortos, mas Abrão os afastou. Ao anoitecer, Abrão ficou com muito sono e veio sobre ele uma escuridão terrível que o encheu de medo. [...] Quando se fez noite e estava tudo escuro, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha acesa passando entre os animais cortados ao meio. Nesse dia o SENHOR fez a seguinte aliança com Abrão: — Darei esta terra aos seus descendentes, desde o ribeiro do Egito até o grande rio Eufrates.[4]

Os documentos que relatam esse tipo de cerimônia, mostra que normalmente era utilizado apenas um animal e o propósito não era expiatório, mas, era um exemplo da punição que seria aplicada, caso a aliança fosse quebrada por qualquer uma das duas partes.

Há vários exemplos de abate de animais em tais cerimônias, mas não para fins de sacrifício. Em tabletes de Alalakh, a garganta de um cordeiro é cortada em conexão com um ato executado entre Abba-El e Yarimlim. Em um texto de Mari, a cabeça de um burro é cortada ao selar um acordo formal. Em um tratado aramaico de Sefire, um bezerro é cortado em dois com a declaração explícita de que esse será o destino daquele que quebrar o tratado. Na literatura neo-assíria, a cabeça de um cordeiro de primavera é cortada em um tratado entre Ashurnirari V e Matiʿilu, não para sacrifício, mas explicitamente como um exemplo de punição.[5]

Deus estava se comprometendo com Abraão, no modelo popularmente conhecido no Antigo Oriente, de se fazer uma aliança. E para representar o próprio Abraão, que não seria capaz de cumprir fielmente o tratado, Deus se materializa para finalizar o ritual. É a esse tipo de aliança que a palavra Heshed está ligada.

 

Heshed no princípio

A primeira vez que vemos essa palavra aparecer na Bíblia, é na boca de Ló, no momento em que ele e sua família estão sendo salvos da destruição de Sodoma e Gomorra. Ele pede para Deus haja com amor-leal, para com ele e sua família, lhes fornecendo um caminho diferente do sugerido inicialmente. [Gn 19:19]

Heshed, também aparece na boca de Abraão, quando este está diante de Abimeleque, o rei filisteu, que estava prestes a tomar Sara como esposa. Abraão pediu que Sara mostrasse amor-leal (Heshed) para com ele, afirmando por onde quer que eles passassem, que ela era sua irmã. [Gn 20:13] Abimeleque em contrapartida, pede que Abraão jure e mostre amor-leal a ele e a seus descendentes, agindo sempre com verdade e sinceridade. [Gn 21:23]

Heshed também está presente na oração feita por Eliezer, servo de Abraão. No momento em que Eliezer chega na mesopotâmia para encontrar uma noiva para Isaque, ele ora ao Deus de seu mestre. Ele pede para que Deus mostre seu amor-leal para com ele e seu mestre, Abraão [Gn 24:12]. Da mesma forma, Jacó, durante sua fuga de Esaú, pede para que Deus mostre heshed para com ele [Gn 32:11].

 

Heshed no livros históricos

No capítulo 2 do livro de Josué, a palavra heshed aparece na boca de Raabe e dos dois espias israelitas: Portanto, jurem‑me pelo Senhor que, assim como eu fui bondosa com vocês, também serão bondosos com a minha família. [...] Se você não contar o que estamos fazendo, nós a trataremos com bondade e fidelidade quando o Senhor nos der esta terra. (Josué 2:12 e 14 NVI) Aqui a NVI traduziu heshed como “bondade”.

Em Rute, essa palavra aparece na boca de Noemi e Boaz, tanto para fazerem referência a Deus, como à Rute. (Rute 1:8, 2:20 e 3:10). Em I e II Samuel essa palavra estava presente na boca de Davi, Jonatas e também Abner. Heshed estava sempre associada à lealdade de uma pessoa para com outra, diante de Deus e Sua aliança com o povo de Israel. Portanto, a aliança de Deus com seu povo, tornou-se uma base para juramentos e testemunhos. Veja que interessante o momento em que Jonatas e Davi, estabelecem e confirmam uma aliança:

Jônatas assumiu um compromisso solene com Davi, pois o amava como a si mesmo. (I Samuel 18:3 NVT) A expressão “compromisso solene” é berit no hebraico, que significa aliança.

Mostre-me sua lealdade como amigo, pois assumimos um compromisso solene diante do Senhor. (I Samuel 20:8a NVT) A palavra “lealdade” aqui é heshed no hebraico, e a expressão “diante do Senhor” é berit de Yahweh, diante da aliança do Senhor.

E que você me trate com o amor leal do Senhor enquanto eu viver. Mas, se eu morrer, trate minha família com esse amor leal [...] (I Samuel 20:14-15a) Aqui Jonatas pede que Davi haja com heshed para com ele e seus descendentes. O mesmo heshed de Deus para com o povo de Israel.

 

Heshed nos Salmos

O livro de Salmos está repleto de Heshed, o amor leal de Deus para com seu povo. Alguns Salmos como o 136, (repete 26 vezes [verso-antífona]: “o seu amor leal dura para sempre”) o fazem de modo intencional. Normalmente os salmistas fazem uso da palavra Heshed e fidelidade em paralelismo[6] [repetições]:


Ele se lembrou do seu amor leal
e da sua fidelidade para com o povo de Israel;
todos os confins da terra viram
a salvação do nosso Deus. (Salmo 98:3)

O teu amor leal se estende acima [dos céus],
tua fidelidade alcança as nuvens. (Salmo 108:5)

Porque imenso é o seu amor leal por nós,
e a fidelidade do Senhor dura para sempre. (Salmo 117:2)

Os cânticos e orações que acompanharam as diversas gerações do povo de Deus, exaltam os feitos de Deus e Seu caráter imutável. Em todos os cânticos, vemos as afeições de Deus direcionadas para o seu povo, aqueles que fazem parte da Sua aliança. Suas afeições estão completamente ligadas a seu caráter, fidelidade e lealdade à Aliança.

 

Heshed nos Profetas

Isaías declara que o reino do Messias terá como fundamento Heshed e fidelidade. Porque todos os atos de Deus para com seu povo e a humanidade, estão fundamentados na Aliança que Ele estabeleceu consigo mesmo e Abraão.


Então, em amor leal será firmado um trono;
com fidelidade um homem se assentará sobre ele,
na tenda de Davi:
um juiz que busca a justiça
e se apressa em defender o que é justo. (Isaías 16:5)

Em Isaías 40:6, o profeta afirma que o Heshed (amor leal/lealdade) dos homens é como a flor da relva, completamente frágil e passageira. No capítulo 54, o profeta relembra o povo de que o Heshed de Deus é para sempre. Mesmo que ele fique bravo e derrame juízo sobre seu próprio povo, sua ira é momentânea e completamente justa.

Num ímpeto de fúria, escondi meu rosto de você por um momento,
mas com amor eterno terei compaixão de você”,
diz o Senhor, seu Redentor. [...]
Pois, ainda que os montes se movam
e as colinas desapareçam,
meu amor por você permanecerá.
A aliança de minha bênção jamais será quebrada”,
diz o Senhor, que tem compaixão de você. (Isaías 54:8 e 10)

Em Oséias, O SENHOR mostra, novamente, Heshed para sua noiva adúltera. Deus aparece como aquele que resgata seu povo da lama da infidelidade. Deus aparece como o redentor, único capaz de curar o coração infiel de seu povo.


Eu me casarei com você para sempre,
e lhe mostrarei retidão e justiça,
amor e compaixão.
Serei fiel a você e a tornarei minha,
e você conhecerá a mim, o Senhor. (Oséias 2:19-20)

Conclusão

O imutável e imenso amor de Deus é para aqueles que fazem parte do Seu povo. Como também, para todos aqueles que ainda farão (aqueles que ainda não nasceram de novo) parte de sua aliança eterna. Deus em sua soberania e presciência, mostra sua graça e seu furioso amor para todos aqueles que foram predestinados a serem Sua imagem semelhança. A história de Heshed, continua até os dias de hoje, e continuará até que todo o cosmo seja restaurado. Porque o Seu AMOR LEAL dura para sempre!



[1] Da Bíblia Protestante.

[2] R. P. Nettelhorst, “Love”, in Lexham Theological Wordbook, org. Douglas Mangum et al., Lexham Bible Reference Series (Bellingham, WA: Lexham Press, 2014).

[3] Existia uma sistema parecido com a vassalagem, amplamente conhecida no mundo ocidental por causa dos relatos históricos da Idade Média na Europa. Mas, no Oriente, esse sistema era comum.

[4] ERV: Portuguese Bible, ERV (Bible League International, 2021), Gn 15.5–18.

[5] John H Walton, Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary (Antigo Testamento): Genesis, Exodus, Leviticus, Numbers, Deuteronomy, vol. 1 (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2009), 85.

[6] Estilística da poesia/lírica hebraica.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

ELE VEIO BUSCAR O QUE ESTAVA PERDIDO



“A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens.
E sua coerção é nossa libertação.” (C. S. Lewis)




Lucas 15 talvez seja um dos textos mais famosos das Escrituras, foi texto base para milhares de sermões ao redor do mundo, inspiração para a produção de músicas, pinturas e outros tipos de artefatos culturais, por artistas de diferentes épocas. Rembrandt é o responsável pela obra a cima, um dos quadros mais famosos do Barroco[1] europeu. Rembrandt foi um pintor holandês que nasceu no ano de 1606. Durante sua vida pitou muitos quadros com temas bíblicos. Uma característica interessante de seus trabalhos, é que em muitos de seus quadros, ele pintava a si mesmo no ambiente da composição. Ele se inseria na cena pintada.

Na obra em questão, temos o filho mais novo, sendo abraçado e recebido pelo pai. Do lado direito do quadro, o filho mais velho está em pé com mãos fechadas, assim como seu semblante e seu coração. No fundo, atrás da pilastra está o próprio Rembrandt, observando a cena com um aspecto curioso e contemplativo. Semana passada, nossa equipe de tradução terminou esse capitulo de Lucas, no formato oral. No final de Janeiro fizemos a primeira parábola desse mesmo capítulo, A ovelha perdida. Nas primeiras duas semanas desse mês fizemos o restante do capítulo.

Essas três parábolas do capítulo 15 do evangelho de Lucas possuem a mesma temática, o perdido que foi encontrado. Há alguns comentaristas que vão olhar esse capítulo, como uma parábola só. Jesus faz questão de repetir três vezes, usando ilustrações diferentes, para falar sobre a mesma coisa, o propósito pelo qual Ele veio à terra, resgatar aquele que estava perdido. Ele descortina diante de todos os seus ouvintes o coração de Deus Pai. Ele começa de forma corriqueira, usando bens de valor precioso, até chegar na parte escandalosa, fazendo com que seus ouvintes fiquem realmente surpresos com o Deus que eles achavam conhecer.

 

Por que Jesus contou essa(s) parábola(s)?

A resposta está logo no início do capítulo 15: “Cobradores de impostos e outros pecadores vinham ouvir Jesus ensinar. Os fariseus e mestres da lei o criticavam, dizendo: “Ele se reúne com pecadores e até come com eles!”. Jesus responde a crítica dos religiosos de sua época, através de um recurso muito usado pela maioria dos mestres judeus, parábolas (histórias comparativas).

Por mais que o gênero literário aqui, seja classificado como uma espécie de narrativa, os famosos paralelismos[2] (repetições) estão presentes nesse capítulo. Os paralelismos são recursos poéticos que tinha o propósito de enfatizar o ponto central do ensino, como também facilitar a memorização, posto que, a maior parte dos ouvintes não sabia ler ou muito menos tinha acesso a livros. Nessa parábola (ou nessas três parábolas), gostaria de ressaltar apenas um dos paralelismos usados por Jesus nos versos 6-7, 9-10: E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha (moeda) perdida. Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende [...]". Nos versos 23-24 e 32 temos o mesmo paralelo, o perdido que foi achado e a alegria de Deus em receber seu filho de volta. Todavia, no último versículo, Jesus deixa a parábola em aberto, com uma pergunta implícita: "Você (filho mais velho), vai se alegrar com o Pai, ou vão continuar de fora da festa?". Dessa forma, o mestre Galileu ensina a todos a respeito de Deus, responde seus acusadores e ao mesmo tempo os convida ao arrependimento. Genial, não é mesmo?

 

A Ovelha

Como compartilhei no texto do mês de Fevereiro, a respeito do Salmo 23[3], a figura do pastor era muito usada como metáfora para os reis do Antigo Oriente Próximo. Jesus é Deus que se fez carne, para trazer de volta aqueles que pertencem ao Pai, mas que se perderam ao longo da jornada. Jesus é o rei-pastor que sai para buscar as ovelhas que estão faltando em seu aprisco.

 

A Dracma

A moeda perdida dessa parábola não era uma moeda qualquer, era parte do dote marital recebido no dia do casamento[4]. O dote foi e continua sendo parte dos costumes na região do Oriente Médio. As mulheres costumavam usar uma espécie de touca com as moedas do dote, penduradas. Provavelmente foi esse tipo de moeda que a mulher da parábola havia perdido. Ela acende uma lamparina, e procura cuidadosamente em cada canto de sua casa, coberta pela escuridão. Não é em vão a festa com a vizinhança, após encontrar seu precioso tesouro de casamento.

Aqui, Deus compara a si mesmo com essa mulher, que perdeu algo muito precioso e precisa desesperadamente encontrar. No versículo em que a mulher encontra a moeda e se alegra: E, quando a encontrar, reunirá as amigas e vizinhas e dirá: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei a minha moeda perdida!’. Da mesma forma, há alegria na presença dos anjos de Deus quando um único pecador se arrepende”, a ênfase de Jesus é na alegria de Deus quando um pecador se arrepende. Por que? Porque a maior parte dos judeus ouviam o contrário. Havia um ditado judaico, provavelmente conhecido pelos primeiros ouvintes dessa parábola: “Há alegria diante de Deus quando aqueles que o provocam perecem (morrem) do mundo (Sifra Numbers 18, 8 §117 [37a])[5]. Quando Jesus ressalta a alegria de Deus ao ver pecadores se arrependendo, ele mostra que esse ditado não estava correto. 

 

O Filho

Então saiu dali e voltou para a casa do pai.

— Quando o rapaz ainda estava longe de casa, o pai o avistou. E, com muita pena do filho, correu, e o abraçou, e beijou. E o filho disse: “Pai, pequei contra Deus e contra o senhor e não mereço mais ser chamado de seu filho!”

— Mas o pai ordenou aos empregados: “Depressa! Tragam a melhor roupa e vistam nele. Ponham um anel no dedo dele e sandálias nos seus pés. Também tragam e matem o bezerro gordo. Vamos começar a festejar porque este meu filho estava morto e viveu de novo; estava perdido e foi achado.” (v.20-23 NTLH)

 

Na terceira parábola, Jesus deixa todos os religiosos de cabelo em pé! Tanto os de sua época, como os da atualidade. Jesus faz questão de trazer em sua narrativa os “terríveis pecados do filho”. Ele pede a herança com o pai ainda vivo, segundo a lei anterior a mosaica, como filho mais novo ele não tinha prioridade na herança do pai e muito menos direito de requere-la com o pai vivo. O filho vai viver sua vida e quando começa a sofrer as consequências de suas escolhas, aceita cuidar de porcos, um animal considerado impuro para os judeus. Segundo o relato de Jesus, quando o filho volta para casa ele estava sem sapatos, roupas provavelmente em farrapos. A limpeza era algo muito importante para as práticas cerimoniais, para a comunhão no Templo e sinagogas. Algo completamente repugnante para a elite religiosa da época.

Quando olhamos para a figura do pai, temos pontos importantes a respeito do contexto da época, primeiro deles, receber e abraçar uma pessoa nas condições que o filho mais jovem voltou para casa, era contaminar-se com coisas impuras. Segundo, um senhor de idade jamais poderia correr em público, era contra as regras sociais[6]. Terceiro, aceitar o filho de volta como escravo era completamente aceitável, mas restabelecê-lo na posição de filho, era inadmissível.

Havia uma parábola, contada pelos mestres judeus, parecida com a que Jesus havia utilizado. O final, contudo, era bem diferente. O filho era aceito na casa do pai, como um de seus empregados. Essa era a forma de ensinar obediência e respeito, era necessário fazer para merecer. Jesus mostra o inexplicável amor de Deus na forma “exagerada” como o pai recebe seu filho. Ele beija o filho, sinal de perdão. Roupas, sapatos e anel, a posição de filho que lhe pertencia. Um banquete com o novilho que estava engordando para alguma ocasião especial do ano, carne era luxo.

Na parte final da história temos o filho mais velho, que representava parte dos ouvintes de Jesus, aqueles que se consideravam santos e completamente perfeitos. O problema do filho mais velho era um pouco mais sério que o do filho mais novo, o mérito próprio. Ele não tinha olhos para ver que também precisava de um salvador, que ele também estava morto em seus delitos e pecados. O fato de não se alegrar com o retorno do irmão, era sinal de que ele nunca tinha feito parte da família.

Na fala do filho mais novo é possível ver quebrantamento e respeito, na nossa linguagem atual, é como se ele usasse a palavra “senhor”, para se referir ao pai. Na fala do filho mais velho, ele fala com o pai como se fosse seu igual, sem o costume formal da época. Ele não reconhece o filho mais novo como seu irmão, e acrescenta pecados (gastar dinheiro com prostitutas) na conta do irmão que não foram citados na narrativa de Jesus.

O ponto central das três parábolas, é o mesmo “quando um pecador se arrepende/muda de vida”. A alegria de Deus, quando o perdido é achado. Se essa é a alegria de Deus, essa também deve ser a alegria daqueles que se dizem parte da família de Deus. A parábola termina com o paralelismo em aberto: Então o pai veio para fora e insistiu com ele para que entrasse. [...] Então o pai respondeu: “Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas era preciso fazer esta festa para mostrar a nossa alegria. Pois este seu irmão estava morto e viveu de novo; estava perdido e foi achado. (v.30-35)

A pergunta de Jesus para os mestres da lei e os diferentes líderes religiosos da época era: Vocês vão participar da festa? Ou vão continuar do lado de fora? Vocês vão se alegrar com Deus ou vão continuar achando que estão com a razão? Deus sempre rejeitará o coração altivo e jamais resistirá àquele que se quebranta.

 

Conclusão

C. S. Lewis, em sua obra Surpreendido pela alegria, uma espécie de autobiografia, relata sua volta para casa (conversão à Jesus) usando a figura do filho mais novo, da parábola de Lucas 15: Cedi então no período letivo posterior a Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus e ajoelhei-me e orei. Talvez naquela noite o mais reprimido e relutante convertido de toda a Inglaterra, não percebi então o que se revela hoje a coisa mais ofuscante e óbvia, a humildade divina que aceita um convertido, mesmo em tais circunstâncias. O filho pródigo a final caminhava para casa com as próprias pernas, mas quem é que pode respeitar de fato o amor que abre os portões a um pródigo que é arrastado para dentro, esperneando, lutando ressentido e girando os olhos em torno a procura de uma chance de fuga[7].

É interessante a análise de Lewis a respeito de si mesmo no dia de sua conversão, pois ela mostra que Deus sempre terá todo o mérito! O que temos a oferecer sempre será muito pouco, sujo e inadequado. É exatamente isso que nos diferencia do Deus Criador! Ele é suficiente, do começo ao fim da nossa salvação. Assim como C.S. Lewis foi surpreendido pela alegria em meio ao seu ceticismo, milhares de pessoas ao redor do mundo tem experimentado a alegria de voltar para a casa, de ser chamado de filho. Deus, o Pastor-rei tem ido atrás de suas ovelhas, porque cada uma delas vale muito! Deus é humilde e recebe a nossa pequena fé, o nosso coração cheio de dúvidas e questionamentos. Sua recepção será sempre com festa!

 

 



[1] Escola literária/artística na qual seus artistas (escritores, pintores e afins) representavam aspectos importantes do dualismo: teocentrismo (Deus no centro) x Antropocentrismo (homem no centro). Seus temas eram de maioria religiosa, teve início no século XVI e durou até meados do século XVII.

[3] Você pode ler mais aqui: https://mentes-renovadasmay.blogspot.com/2025/02/o-pastor-rei-salmo-23.html

[4] Robert H. Gundry, A Survey of the New Testament, Fifth Edition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2012), 265.

[5] Idem.

[6] Robert H. Gundry, A Survey of the New Testament, Fifth Edition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2012), 266.

[7] Surpreendido pela alegria – C. S Lewis, editora Thomas Nelson Brasil.