sábado, 30 de maio de 2026

POR QUE TRADUZIR A BÍBLIA?

 

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, seele, nada do que foi feito existiria. A vida estava nele e era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. (João 1:1-5)


Acervo Pessoal



Semana passada estive em um encontro global sobre Tradução Oral da Bíblia e uma irmã etíope, durante um dos devocionais, compartilhou conosco essa pequena reflexão. Vou usar um pouco de suas palavras, todavia, misturadas às minhas próprias. Se você me acompanha há algum tempo, sabe que tenho me dedicado à essa tarefa, contribuir com a tradução da Bíblia para povos que ainda não tem a Bíblia em sua primeira língua.

“Por que traduzir a Bíblia?” é uma pergunta muito boa, pois além de nos fazer pensar no óbvio, respostas que já estamos acostumados a dar e ouvir, também nos conduz a perspectivas bíblicas, ainda pouco exploradas.

 

Para que todos tenham a Palavra de Deus em sua língua materna

Essa é a resposta mais óbvia. Todos os povos precisam conhecer Deus de forma plena e profunda e isso só é possível por meio da língua do coração de cada povo. A língua materna de uma pessoa carrega afeto, ancestralidade e pertencimento. Deus sempre soube disso, ao se fazer carne falou a língua dos homens e mulheres de sua época, falou na língua do coração do povo hebreu, egípcio, romano e grego. Outro ponto interessante, da encarnação do Verbo, é que ele também tinha uma língua materna (talvez mais de uma), que foram usadas em momentos de dor (Mateus 27:46, Marcos 15:34), milagres extraordinários (Marcos 5:41-42, Marcos 7:33-35) e com certeza, sermões, conversas privadas e no dia a dia com seus amigos galileus.

A pergunta que foi feita no início do século XX, por um nativo da região da Guatemala à William Cameron Townsend[1]: “O seu Deus não é poderoso o suficiente para falar a minha língua?”, tornou-se um despertar do povo de Deus para os milhares de povos da terra que ainda não conheciam Jesus, o Deus encarnado, de forma pessoal. Povos que tinham acesso à Bíblia na língua do colonizador, e quando a receberam em sua própria língua foram profundamente tocados.

Roberty Dooley viveu após traduzir a Bíblia para o Guarani. Certo dia ele estava conversando com um dos nativos que o auxiliou no processo de tradução da Bíblia para o Guarani, e perguntou: “Você gosta de ler a Bíblia na sua própria língua?”, e o nativo respondeu: “Não, prefiro lê-la no português!”, e o missionário triste, pensando que seu trabalho havia sido em vão, decidiu fazer mais uma pergunta “Porque você prefere lê-la no português?”, o nativo respondeu: “Por que a Bíblia no português parece uma poesia, é muito bonita. Mas, no Guarani, ela me confronta!”. Podemos imaginar o alívio do missionário, ao ouvir essa resposta.

Esse entendimento a respeito do impacto da Palavra de Deus na língua materna de cada povo da terra, é pacífico. Isso tem ficado cada vez mais claro para a Igreja e para os missionários de forma geral. É necessário comunicar bem a mensagem do evangelho. É importante falar, traduzir e encarnar Jesus para todos os povos da terra.

 

Para que a Igreja tenha a compreensão completa da Glória de Deus

Essa é uma perspectiva que exploramos pouco. Normalmente a Igreja ouve o seguinte: “Os povos precisam de nós!”, mas o que ela não entendeu ainda, é que o Povo de Deus, a Igreja de Jesus, precisa dos povos. Vejamos com mais vagar o versículo cinco do primeiro capítulo do evangelho segundo a João: A vida estava nele e era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.

Quando olhamos para a luz refletida em um prisma/espelho, podemos ver como essa luz fica colorida, diversa e muito bonita. Jesus é a luz dos homens, a luz que resplandece nas trevas. Cada língua/cultura pode expressar uma parte da glória de Deus aqui na terra. Nenhuma língua consegue expressar sozinha o significado do que está expresso nos idiomas originais que a Bíblia foi escrita, como também, muitas das emoções expressas no texto bíblico são melhores expressas quando traduzidas.

Não estou afirmar aqui que o texto original está incompleto, de forma alguma, todavia, ele pode ser melhor expresso por meio dos sentimentos e significados que as línguas dos povos da terra carregam. Por exemplo, a palavra “Saudades” no português, não tem tradução em outros idiomas. Normalmente você vai precisar usar muitas outras palavras juntas para conseguir expressar o que ela significa. Isso acontece em todas as línguas.  Cada povo reflete de forma única e bonita a glória de Deus, através de suas diversidades culturais e linguísticas, e assim, fazem a luz de Deus brilhar nas trevas.

Toda língua e cultura é digna de portar a verdade do Cristianismo! Alguém pode morar numa parte deste planeta onde parece que Deus só consegue se comunicar numa certa língua ou em outras línguas, menos na sua! Mas a missão do Deus Triúno abarca todos os povos, em todos os lugares. [...] As Escrituras chegaram até nós “respiradas por Deus" (II Tim 3:16), nos idiomas dos autores. Nós também usamos nossos idiomas – em sinais, na fala, e na escrita – para "declarar a Sua glória entre as nações" (Salmo 96:3) à medida que participamos todos da missão de Deus que está reconciliando o mundo consigo mesmo.

(Bryan Harmelink)

Portanto, precisamos de mais traduções, pois a Igreja precisa conhecer de forma mais profunda a Glória de Deus! Por isso, a tradução da Bíblia não é uma opção, mas, uma necessidade. Para que a Glória de Deus seja refletida de forma completa e bonita, precisamos de todos os povos da terra juntos. Precisamos de muitas vozes, para expressar uma única história.

 

Para que todos os povos O adorem!

João viu uma grande multidão de todas tribos, povos e nações, diante do trono de Deus adorando o Cordeiro. Apocalipse 7:9-10 é uma realidade! João viu! O banquete está preparado, a mesa está posta, mas ainda há lugares vazios. Deus está em missão, desde o momento em que o homem caiu. E objetivo dessa missão é que todos os povos possam adorá-Lo, com suas diferentes línguas, culturas e cores. A terra será cheia da Glória de Deus, assim como as águas cobrem o mar!

Portanto, o terceiro motivo pelo qual devemos traduzir a Bíblia é para que os povos conheçam a Deus e O adorem! Trazer os seres humanos de volta a seu propósito original, amizade e parceria com o Deus trino.

 

Porque Ele traduziu primeiro

O quarto e último motivo, que acrescentaria aqui, para que a Igreja de Jesus se envolva com a Tradução da Bíblia, é porque Deus se traduziu para a humanidade, através de Jesus. O Deus Criador dos céus e da terra é o Deus que se revela, como bem afirmou Francis Schaeffer. Ele fez questão de ser conhecido! Ele se deixou ser conhecido por suas criaturas. Diferente dos deuses criados por mãos humanas, dos espíritos malignos que fundam religiões de mistério e do culto ao oculto, o único e verdadeiro Deus se traduziu em forma humana. Fez questão de andar no meio de nós, fazer parte de uma cultura específica, em uma época específica. O Deus Criador de todo o universo falou a língua dos homens, se limitou a um tempo e espaço.

É exatamente por isso, que a o povo de Deus, precisa traduzir a Bíblia para os povos. A Igreja de Jesus precisa traduzir Deus para os povos que não O conhecem. Uma tradução que não é feita somente com palavras, mas sons, símbolos e ritos. Uma tradução multimodal, encarnacional, como o próprio Cristo o fez. Nós traduzimos, porque Ele traduziu primeiro.

 

Conclusão

Creio que essas sejam razões suficientes para começarmos a pensar e valorizar a Tradução da Bíblia. Não apenas pelos motivos popularmente conhecidos e divulgados, mas principalmente para que toda a terra seja cheia da Glória de Deus! Para que a Igreja do Senhor Jesus seja enriquecida com toda a diversidade que os povos da terra podem oferecer, juntos na adoração coletiva ao Cordeiro.



[1] Um dos fundadores da Wycliffe Bible Translators e do Summer Institute of Linguistics (agora a agencia Internacional SIL). Ambas, com foco em tradução da Bíblia e alfabetização bilíngue para línguas minoritárias.

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