quarta-feira, 8 de julho de 2026

O QUE É TER SUCESSO NA VIDA?

  

“Sem me dar conta, vejo-me remoendo o SUCESSO de outros, minha própria solidão e a maneira pela qual o mundo se aproveita de mim. Apesar de minhas boas intenções, muitas vezes me pego sonhando em me tornar rico, poderoso e célebre. Todos esses exercícios mentais me mostram a fragilidade da minha fé e que sou o Bem-Amado sobre quem Deus põe toda a sua com-placência. Eu tenho tanto medo de não ser amado, de ser culpado, posto de lado, superado, ignorado, perseguido e morto, que estou constantemente criando estratégias para me defender e consequentemente garantir o amor que acho que preciso e mereço. Assim fazendo, me distancio da casa de meu pai e escolho habitar um "país distante". (A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO - Henri J. M. Nouwen)


Três virgens néscias e três prudentes da parábola de Mateus 25


Por mais que tenhamos diferentes padrões de sucesso em cada geração, estabelecidos por uma localidade e sociedade específica, eles normalmente são muito similares. O padrão de sucesso atual do Ocidente, desde a segunda Revolução Industrial, está pautado em construir uma carreira que te dê um certo tipo de estabilidade e segurança, a ponto de você estar livre o suficiente para desfrutar de prazeres como viajar, comer bem e talvez construir uma família.

Ter sucesso, na maior parte das vezes não inclui sacrificar-se para criar seres humanos que herdarão o mundo em que vivemos. Também não inclui cuidar da terra e fazer dela um lugar melhor, para todos viverem. O pensamento é de ganho imediato e desfrute do máximo que puder, ainda jovem, ainda nessa vida. Podemos dizer que as gerações anteriores no Ocidente, planejavam suas vidas com os valores de legado e sucessão de riquezas, para que essas viessem a se multiplicar no próprio clã. Um objetivo nobre e menos egoísta? Talvez.

No Oriente e entre povos minoritários, o significado de sucesso e valores sociais, ainda estão ligados ao núcleo familiar. Uma mulher continua sendo valiosa, se for capaz de gerar muitos filhos. Uma menina, continua sendo preparada para ser uma boa esposa e cuidar da casa. Na maioria dos casos, a mulher muda-se para o clã do marido, para servir a sogra e provar que é capaz de construir uma descendência forte para a família (do marido).

Em ambas as culturas, Ocidente e Oriente, temos alvos de alcançar expectativas sociais: carreira, estabilidade financeira, beleza, ser uma esposa/esposo, ter filhos e filhas. Em ambos extremos do mundo vemos um objetivo comum, prestígio social e adequação aos padrões de sucesso estabelecidos coletivamente.

Todavia, o que a Bíblia fala para nós cristãos a respeito do sucesso?

 

Confessar pecados e os abandonar

Quem tenta esconder os seus pecados não terá sucesso na vida, mas Deus tem misericórdia de quem confessa os seus pecados e os abandona.

(Provérbio 28:13 NTLH)

As versões mais literais, usam a expressão “prosperar”, no lugar de “ter sucesso”. A palavra de Deus nos mostra que o caminho do sucesso e consequentemente, da felicidade, é o caminho do arrependimento. É somente por meio do arrependimento que podemos confessar e abandonar nossos pecados. A palavra no hebraico é  pešaʿ, transgressão, que em diferentes contextos significa: rebelião, crime, culpa, penalidade, ofensa, revolta. O caminho do sucesso, começa com o reconhecimento de que somos pecadores e precisamos da graça de Deus. Reconhecer que não podemos salvar a nós mesmos.

 

Guardar a Fé

Quanto a mim, já estou sendo derramado como oferta de libação, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé. Desde agora a coroa da justiça me está reservada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos os que amarem a sua vinda.

(II Timóteo 4:6-8 A21)

Um dos maiores desafios da nossa caminhada com Cristo, é guardar a nossa fé. Perseverar confiando em Deus e seu caráter imutável. Nesse texto, Paulo está em clima de despedida. Tenho certeza de que quando Timóteo, o filho na fé do Apóstolo, leu essas palavras, as leu com a voz embargada e provavelmente lágrimas nos olhos. Mas, a beleza desse texto, em minha opinião, está na certeza que Paulo tinha a respeito do que lhe estava reservado. Ele tinha certeza de que seus dias não haviam sido vividos em vão.

Talvez, ao nos depararmos com os deuses de nosso tempo e suas habilidades de minar a nossa fé, podemos pensar que no tempo de Paulo as coisas fossem mais fáceis. Todavia, cada época e geração, tem seus próprios desafios. Os altares para o sexo, comida, dinheiro, intelectualismo, fertilidade e a própria negação da existência de um único e verdadeiro Deus, continuam levantados em todas as gerações. São as falsas versões de sucesso e felicidade, oferecidos pelo panteão dos ídolos de si mesmos, disponíveis para todo aquele que crê.

 

Ser encontrado fiel

Poderíamos dizer que, para sermos encontrados fiéis, precisamos guardar a nossa fé. Manter nossa confiança no caráter imutável de Deus e na obra da cruz.

E o seu senhor lhe disse: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel sobre pouco; sobre muito te colocarei; participa da alegria do teu senhor! (Mateus 25:21)

Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o senhor encarregou dos outros servos para lhes dar o alimento no tempo certo? Bem-aventurado o servo a quem seu senhor, quando vier, encontrar agindo assim. (Mateus 24:45-46)

Venho sem demora; conserva o que tens, para que ninguém tome tua coroa. Farei do vencedor uma coluna no templo do meu Deus, de onde jamais sairá. (Apocalipse 3:11-12)

Bem-aventurado aquele que está alerta e tem consigo suas vestes, para que não ande nu e não se veja a sua nudez. (Apocalipse 16:15)

A graça é um fator fundamental para o desenvolvimento da nossa fé, do começo [reconhecimento de que sou pecador] ao fim [vencer o pecado, amar e viver a lei de Deus, negar a si mesmo e receber o reino]. É ela que nos faz enxergar que a obra de Cristo é suficiente. Pois ela nos capacita a ser quem fomos criados para ser, filho de Deus, imagem e semelhança do Criador. Ela me capacita e amar mais a Deus do que a mim mesmo.

É a graça de Deus que nos ajuda a guardar a fé e a sermos encontrados, diante de Deus, como servos fiéis. O servo que fez o que Seu Senhor ordenou. Essa é a posição mais preciosa no Reino de Deus, a posição do servo.

 

Conclusão

O sucesso do cristão é ser encontrado fiel! É ter a certeza, como Paulo, de que no Dia do Senhor, não teremos nada do que nos envergonhar. Sucesso não é conquistar, mas, ter sido conquistado pelo Cordeiro, é termos sido transformados em mansos e humildes, como Ele. Ter sucesso na vida é ter certeza de que a coroa da justiça é nossa. É ter a certeza de que somos a esposa do livro de Cantares, que sobe do deserto recostada ao peito do seu amado. Ter sucesso nessa vida é ter vivido em meio a tantos ídolos e paixões vãs e mundanas, e ainda assim ter escolhido amar mais a Jesus e sua cruz.  

 


sábado, 30 de maio de 2026

POR QUE TRADUZIR A BÍBLIA?

 

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito existiria. A vida estava nele e era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. (João 1:1-5)


Acervo Pessoal



Semana passada estive em um encontro global sobre Tradução Oral da Bíblia e uma irmã etíope, durante um dos devocionais, compartilhou conosco essa pequena reflexão. Vou usar um pouco de suas palavras, todavia, misturadas às minhas próprias. Se você me acompanha há algum tempo, sabe que tenho me dedicado à essa tarefa, contribuir com a tradução da Bíblia para povos que ainda não tem a Bíblia em sua primeira língua.

“Por que traduzir a Bíblia?” é uma pergunta muito boa, pois além de nos fazer pensar no óbvio, respostas que já estamos acostumados a dar e ouvir, também nos conduz a perspectivas bíblicas, ainda pouco exploradas.

 

Para que todos tenham a Palavra de Deus em sua língua materna

Essa é a resposta mais óbvia. Todos os povos precisam conhecer Deus de forma plena e profunda e isso só é possível por meio da língua do coração de cada povo. A língua materna de uma pessoa carrega afeto, ancestralidade e pertencimento. Deus sempre soube disso, ao se fazer carne falou a língua dos homens e mulheres de sua época, falou na língua do coração do povo hebreu, egípcio, romano e grego. Outro ponto interessante, da encarnação do Verbo, é que ele também tinha uma língua materna (talvez mais de uma), que foram usadas em momentos de dor (Mateus 27:46, Marcos 15:34), milagres extraordinários (Marcos 5:41-42, Marcos 7:33-35) e com certeza, sermões, conversas privadas e no dia a dia com seus amigos galileus.

No início do século XX, William Cameron Townsend[1] estava compartilhando a palavra de Deus, com os povos da Guatemala. Em uma abordagem, falando espanhol, Cameron explicou todo o plano de Deus para um nativo da região. Em resposta, o homem lhe perguntou: “Se o seu Deus é tão grande e tão poderoso, por que ele não fala a minha língua?”. A pergunta que foi feita por esse senhor do povo Kawchikel, transformou-se em um despertar do povo de Deus para os milhares de povos da terra que ainda não conheciam Jesus, o Deus encarnado, de forma pessoal.  Povos que tinham acesso à Bíblia na língua do colonizador, e quando a receberam em sua própria língua foram profundamente tocados.

Roberty Dooley após traduzir a Bíblia para o Guarani, voltou para uma visita ao povo o qual dedicou longos anos de sua vida. Em uma conversa com um dos nativos que o auxiliou no processo de tradução da Bíblia para o Guarani, perguntou: “Você gosta de ler a Bíblia na sua própria língua?”, o nativo respondeu: “Não, prefiro lê-la no português!”, e o missionário triste, pensando que seu trabalho havia sido em vão, decidiu fazer mais uma pergunta “Porque você prefere lê-la no português?”, o nativo respondeu: “Por que a Bíblia no português parece uma poesia, é muito bonita. Mas, no Guarani, ela me confronta!”. Podemos imaginar o alívio do missionário, ao ouvir essa resposta.

Esse entendimento a respeito do impacto da Palavra de Deus na língua materna de cada povo da terra, é pacífico. Isso tem ficado cada vez mais claro para a Igreja e para os missionários de forma geral. É necessário comunicar bem a mensagem do evangelho. É importante falar, traduzir e encarnar Jesus para todos os povos da terra. 

 

Para que a Igreja tenha a compreensão completa da Glória de Deus

Essa é uma perspectiva que exploramos pouco. Normalmente a Igreja ouve o seguinte: “Os povos precisam de nós!”, mas o que ela não entendeu ainda, é que o Povo de Deus, a Igreja de Jesus, precisa dos povos. Vejamos com mais vagar o versículo cinco do primeiro capítulo do evangelho segundo a João: A vida estava nele e era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.

Quando olhamos para a luz refletida em um prisma/espelho, podemos ver como essa luz fica colorida, diversa e muito bonita. Jesus é a luz dos homens, a luz que resplandece nas trevas. Cada língua/cultura pode expressar uma parte da glória de Deus aqui na terra. Nenhuma língua consegue expressar sozinha o significado do que está expresso nos idiomas originais que a Bíblia foi escrita, como também, muitas das emoções expressas no texto bíblico são melhores expressas quando traduzidas.

Não estou afirmando aqui que o texto original está incompleto, de forma alguma, todavia, ele pode ser melhor expresso por meio dos sentimentos e significados que as línguas dos povos da terra carregam.  Da mesma forma que cada língua tem suas limitações para recepcionar a tradução da Bíblia, elas também podem expressar conceitos bíblicos de uma forma singular e rica.  Cada povo reflete de forma única e bonita a glória de Deus, através de suas diversidades culturais e linguísticas, e assim, fazem a luz de Deus brilhar nas trevas.

Toda língua e cultura é digna de portar a verdade do Cristianismo! Alguém pode morar numa parte deste planeta onde parece que Deus só consegue se comunicar numa certa língua ou em outras línguas, menos na sua! Mas a missão do Deus Triúno abarca todos os povos, em todos os lugares. [...] As Escrituras chegaram até nós “respiradas por Deus" (II Tim 3:16), nos idiomas dos autores. Nós também usamos nossos idiomas – em sinais, na fala, e na escrita – para "declarar a Sua glória entre as nações" (Salmo 96:3) à medida que participamos todos da missão de Deus que está reconciliando o mundo consigo mesmo.

(Bryan Harmelink)

Portanto, precisamos de mais traduções, pois a Igreja precisa conhecer de forma mais profunda a Glória de Deus! Por isso, a tradução da Bíblia não é uma opção, mas, uma necessidade. Para que a Glória de Deus seja refletida de forma completa e bonita, precisamos de todos os povos da terra juntos. Precisamos de muitas vozes, para expressar uma única história.

 

Para que todos os povos O adorem!

Na maior parte dos estudos teológicos, a respeito da Revelação de Deus, são usadas duas categorias, revelação Geral e revelação Especial. A revelação Geral está diante de todos nós, como o Salmo 19 bem fala: "Os céus proclamam a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra de suas mãos". A revelação Especial é a Bíblia, aquilo que Deus revelou através de seu povo e do Filho. Segundo a maior parte desses teólogos a revelação de Deus está completa, todavia, para mais de 2.000 povos na terra hoje, somente a revelação Geral está disponível. 

Portanto, o terceiro motivo pelo qual devemos traduzir a Bíblia é para que os povos CONHEÇAM a Deus e O adorem! Trazer os seres humanos de volta a seu propósito original, amizade e parceria com o Deus trino. Esse conhecimento e amizade só são possíveis por meio da Bíblia, a revelação completa do Criador para a humanidade. 

João viu uma grande multidão de todas tribos, povos e nações, diante do trono de Deus adorando o Cordeiro. Apocalipse 7:9-10 é uma realidade! João viu! O banquete está preparado, a mesa está posta, mas, ainda há lugares vazios. Deus está em missão, desde o momento em que o homem caiu. E objetivo dessa missão é que todos os povos possam adorá-Lo, com suas diferentes línguas, culturas e cores. A terra será cheia da Glória de Deus, assim como as águas cobrem o mar!


Porque Ele traduziu primeiro

O quarto e último motivo, que acrescentaria aqui, para que a Igreja de Jesus se envolva com a Tradução da Bíblia, é porque Deus se traduziu para a humanidade, através de Jesus. O Deus Criador dos céus e da terra é o Deus que se revela, como bem afirmou Francis Schaeffer. Ele fez questão de ser conhecido! Ele se deixou ser conhecido por suas criaturas. Diferente dos deuses criados por mãos humanas, dos espíritos malignos que fundam religiões de mistério e do culto ao oculto, o único e verdadeiro Deus se traduziu em forma humana. Fez questão de andar no meio de nós, fazer parte de uma cultura específica, em uma época específica. O Deus Criador de todo o universo falou a língua dos homens, se limitou a um tempo e espaço.

É exatamente por isso, que a o povo de Deus, precisa traduzir a Bíblia para os povos. A Igreja de Jesus precisa traduzir Deus para os povos que não O conhecem. Uma tradução que não é feita somente com palavras, mas sons, símbolos e ritos. Uma tradução multimodal, encarnacional, como o próprio Cristo o fez. Nós traduzimos, porque Ele traduziu primeiro.

 

Conclusão

Creio que essas sejam razões suficientes para começarmos a pensar e valorizar a Tradução da Bíblia. Não apenas pelos motivos popularmente conhecidos e divulgados, mas principalmente para que toda a terra seja cheia da Glória de Deus! Para que a Igreja do Senhor Jesus seja enriquecida com toda a diversidade que os povos da terra podem oferecer, juntos na adoração coletiva ao Cordeiro.



[1] Um dos fundadores da Wycliffe Bible Translators e do Summer Institute of Linguistics (agora a agencia Internacional SIL). Ambas, com foco em tradução da Bíblia e alfabetização bilíngue para línguas minoritárias.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

SALMO 133 – A BENÇÃO NA UNIDADE

 

Como é bom e agradável os irmãos viverem em união!

É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce para a barba, a barba de Arão, e desce sobre a gola das suas vestes;

como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.

(Salmo 133)




O Salmo 133 faz parte dos Salmos dos Degraus, também conhecido como Salmos de Peregrinação, Salmos de romagem e ainda Cânticos de ascensão. Eram salmos cantados pelos peregrinos que seguiam para Jerusalém durante a Festa da Páscoa (Pesah), Festa das Semanas (Shavua) e Festa dos Tabernáculos (Sucot). Não há consenso a respeito do porque esses salmos são assim designados, alguns afirmam que esses salmos correspondiam aos degraus do Templo do Senhor. Outros afirmavam que eles faziam referência aos quinze degraus que estavam entre o pátio das mulheres e o Templo principal.

É provável que alguns desses salmos foram escritos e cantados durante os dias de Davi e Salomão, todavia, é possível perceber a influência do exílio em salmos como o 120, 123 e 126. Os quais revelavam o saudoso coração do povo de Israel por sua terra, local de adoração (Templo) e a benção da comunidade reunida para adoração coletiva. É válido ressaltar que o exílio além de gerar esse saudosismo, também consolidou, por meio do imaginário profético, as antigas promessas de um Messias que viria da linhagem de Davi.

Quando olhamos a organização desses Salmos [120 ao 134], é possível perceber uma estrutura gradativa, de cânticos que começavam nos caminhos que saíam das diversas cidades de Israel, e finalizavam no Templo em Jerusalém. O 133 contempla a comunidade toda reunida diante do Senhor e o 134, fecha a coleção, mostrando o trabalho dos sacerdotes dentro do Templo, em um serviço incessante. Outro ponto interessante para observar, quando pensamos em como esses salmos são chamados, é a respeito da geografia de Jerusalém, uma cidade edificada sobre montes. O monte do Templo era um deles. Os peregrinos naturalmente subiam para adorarem e sacrificarem ao Senhor.

 

Quão BOM e agradável

A palavra usada por Davi[1] para descrever a unidade do povo de Deus é BOM, a mesma palavra usada por Deus em Gênesis 1. Ela lembra ao ouvinte que a vontade de Deus para a humanidade é vivermos em COMUNIDADE, em família. É por isso que Ele disse em Gênesis 2, que NÃO era BOM que o homem vivesse só.

Assim como Deus vive em família (a Trindade Santa), nós fomos criados semelhantes a Ele, seres gregários, destinados a viver em comunidade. Toda a história da humanidade, suas correntes filosóficas e sociais chegaram nessa mesma conclusão. Aquilo que a Bíblia já mostrava de forma tão primorosa e clara, o ser humano vive e desenvolve-se melhor em sociedade.

 

Como Azeite e como Orvalho

Como AZEITE precioso derramado sobre a cabeça de ARÃO. Levíticos 8:10-12 descreve a unção de Arão como Sumo-sacerdote, o responsável por representar o povo diante de Deus. A unção de Arão era o símbolo da presença de Deus no meio do Seu povo, posto que, era o meio pelo qual o perdão dos pecados era concedido com o sacrifício do cordeiro e a propiciação no Santo dos Santos.

 Como o orvalho de HERMOM que desce sobre os montes de SIÃO. O monte Hermom por possuir altitude considerável, em seu topo toda a umidade recebida vira gelo (neve). O processo de desgelo, conforme as temperaturas mudam ao longo do ano, abastece os rios e lagos da região. Assim, o Hermom é um símbolo de prosperidade para boa parte do território de Israel. Da mesma forma que acontecia no passado, o Sumo-sacerdote abençoava o povo a partir de Sião, em cada uma das festividades, o mundo foi abençoado, por meio do Messias que morreu e ressuscitou em Jerusalém. Assim temos o cumprimento da promessa que Deus fez a Abraão, a partir de Sião, TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA foram abençoadas.

O óleo e o orvalho são símbolos metafóricos da benção que celebram a bondade e a amabilidade daqueles que vivem juntos em união.

Nancy deClaissé-Walford[2]

Jesus, o Sumo-sacerdote que fez expiação pelos nossos pecados de uma só vez, e abriu por meio de si mesmo, um novo e vivo caminho para o Pai. Como cabeça do corpo, Ele foi Ungido. A unção foi derramada sobre a cabeça, desceu pela barba, gola e o restante do corpo. A unção sacerdotal foi derramada sobre nós, Seu povo, para que pudéssemos voltar ao nosso propósito original, um reino de sacerdotes (I Pedro 2:9-10).

 

Salmo 133 na tradição cristã

Na tradição Cristã, o Salmo 133 tem sido usado na Ceia do Senhor. Onde todos aqueles que fazem parte do Povo de Deus são bem-vindos a se assentarem à mesa da família de Deus.

Agostinho afirmou com ousadia que o Salmo 133 inspirou a fundação dos mosteiros, uma vez que as suas palavras retratam o ideal dos irmãos, companheiros de peregrinação na fé, vivendo juntos em unidade.

Viemos de famílias aparentadas de diferentes lugares e épocas, mas o nosso parentesco definitivo é assegurado através da nossa partilha mútua nas promessas de Deus.

Nancy deClaissé-Walford

As palavras usadas no Salmo 133 lembravam o povo de que sua relação familiar não era simplesmente baseada no sangue, mas pela sua participação mútua na comunidade de Deus. Unidos como irmãos e irmãs. Nisso podemos observar de forma mais clara, a promessa de Deus: “...porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.” (Isaías 56:7c), se cumprindo na Igreja. A família de Deus composta por povos de todas as partes da terra, diferentes línguas e culturas.

 

Conclusão

Como Paulo bem ilustrou em I Coríntios 12, somos um único Corpo, fomos batizados em um mesmo batismo e compartilhamos o mesmo Espírito. A Igreja de Jesus é o ajuntamento de pessoas que abriram mão de suas próprias vontades, para juntas se submeterem à vontade de Deus. A unidade do povo de Deus tem como ponto central, a comunhão. Jesus deixou muito claro como o mundo nos identificaria como Seus discípulos, por causa da unidade (João 17).

A Igreja vive em comunhão quando cada membro abre mão das suas próprias vontades, para que a vontade de Deus tenha supremacia. Quando cada um cresce na revelação de Cristo o suficiente, a ponto de O identificarem em seus irmãos e irmãs. As bênçãos da unidade, expressas nesse salmo, são apenas uma sombra daquilo que Deus planejou para que seu povo pudesse desfrutar, através da Igreja. A imagem perfeita de Deus na terra.



[1] O possível autor do Salmo 133.

[2] Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson, e Beth LaNeel Tanner, “The Songs of the Ascents: Psalms”, in The Book of Psalms, org. E. J. Young, R. K. Harrison, e Robert L. Hubbard Jr., The New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 2014).