quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

SALMO 133 – A BENÇÃO NA UNIDADE

 

Como é bom e agradável os irmãos viverem em união!

É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce para a barba, a barba de Arão, e desce sobre a gola das suas vestes;

como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.

(Salmo 133)




O Salmo 133 faz parte dos Salmos dos Degraus, também conhecido como Salmos de Peregrinação, Salmos de romagem e ainda Cânticos de ascensão. Eram salmos cantados pelos peregrinos que seguiam para Jerusalém durante a Festa da Páscoa (Pesah), Festa das Semanas (Shavua) e Festa dos Tabernáculos (Sucot). Não há consenso a respeito do porque esses salmos são assim designados, alguns afirmam que esses salmos correspondiam aos degraus do Templo do Senhor. Outros afirmavam que eles faziam referência aos quinze degraus que estavam entre o pátio das mulheres e o Templo principal.

É provável que alguns desses salmos foram escritos e cantados durante os dias de Davi e Salomão, todavia, é possível perceber a influência do exílio em salmos como o 120, 123 e 126. Os quais revelavam o saudoso coração do povo de Israel por sua terra, local de adoração (Templo) e a benção da comunidade reunida para adoração coletiva. É válido ressaltar que o exílio além de gerar esse saudosismo, também consolidou, por meio do imaginário profético, as antigas promessas de um Messias que viria da linhagem de Davi.

Quando olhamos a organização desses Salmos [120 ao 134], é possível perceber uma estrutura gradativa, de cânticos que começavam nos caminhos que saíam das diversas cidades de Israel, e finalizavam no Templo em Jerusalém. O 133 contempla a comunidade toda reunida diante do Senhor e o 134, fecha a coleção, mostrando o trabalho dos sacerdotes dentro do Templo, em um serviço incessante. Outro ponto interessante para observar, quando pensamos em como esses salmos são chamados, é a respeito da geografia de Jerusalém, uma cidade edificada sobre montes. O monte do Templo era um deles. Os peregrinos naturalmente subiam para adorarem e sacrificarem ao Senhor.

 

Quão BOM e agradável

A palavra usada por Davi[1] para descrever a unidade do povo de Deus é BOM, a mesma palavra usada por Deus em Gênesis 1. Ela lembra ao ouvinte que a vontade de Deus para a humanidade é vivermos em COMUNIDADE, em família. É por isso que Ele disse em Gênesis 2, que NÃO era BOM que o homem vivesse só.

Assim como Deus vive em família (a Trindade Santa), nós fomos criados semelhantes a Ele, seres gregários, destinados a viver em comunidade. Toda a história da humanidade, suas correntes filosóficas e sociais chegaram nessa mesma conclusão. Aquilo que a Bíblia já mostrava de forma tão primorosa e clara, o ser humano vive e desenvolve-se melhor em sociedade.

 

Como Azeite e como Orvalho

Como AZEITE precioso derramado sobre a cabeça de ARÃO. Levíticos 8:10-12 descreve a unção de Arão como Sumo-sacerdote, o responsável por representar o povo diante de Deus. A unção de Arão era o símbolo da presença de Deus no meio do Seu povo, posto que, era o meio pelo qual o perdão dos pecados era concedido com o sacrifício do cordeiro e a propiciação no Santo dos Santos.

 Como o orvalho de HERMOM que desce sobre os montes de SIÃO. O monte Hermom por possuir altitude considerável, em seu topo toda a umidade recebida vira gelo (neve). O processo de desgelo, conforme as temperaturas mudam ao longo do ano, abastece os rios e lagos da região. Assim, o Hermom é um símbolo de prosperidade para boa parte do território de Israel. Da mesma forma que acontecia no passado, o Sumo-sacerdote abençoava o povo a partir de Sião, em cada uma das festividades, o mundo foi abençoado, por meio do Messias que morreu e ressuscitou em Jerusalém. Assim temos o cumprimento da promessa que Deus fez a Abraão, a partir de Sião, TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA foram abençoadas.

O óleo e o orvalho são símbolos metafóricos da benção que celebram a bondade e a amabilidade daqueles que vivem juntos em união.

Nancy deClaissé-Walford[2]

Jesus, o Sumo-sacerdote que fez expiação pelos nossos pecados de uma só vez, e abriu por meio de si mesmo, um novo e vivo caminho para o Pai. Como cabeça do corpo, Ele foi Ungido. A unção foi derramada sobre a cabeça, desceu pela barba, gola e o restante do corpo. A unção sacerdotal foi derramada sobre nós, Seu povo, para que pudéssemos voltar ao nosso propósito original, um reino de sacerdotes (I Pedro 2:9-10).

 

Salmo 133 na tradição cristã

Na tradição Cristã, o Salmo 133 tem sido usado na Ceia do Senhor. Onde todos aqueles que fazem parte do Povo de Deus são bem-vindos a se assentarem à mesa da família de Deus.

Agostinho afirmou com ousadia que o Salmo 133 inspirou a fundação dos mosteiros, uma vez que as suas palavras retratam o ideal dos irmãos, companheiros de peregrinação na fé, vivendo juntos em unidade.

Viemos de famílias aparentadas de diferentes lugares e épocas, mas o nosso parentesco definitivo é assegurado através da nossa partilha mútua nas promessas de Deus.

Nancy deClaissé-Walford

As palavras usadas no Salmo 133 lembravam o povo de que sua relação familiar não era simplesmente baseada no sangue, mas pela sua participação mútua na comunidade de Deus. Unidos como irmãos e irmãs. Nisso podemos observar de forma mais clara, a promessa de Deus: “...porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.” (Isaías 56:7c), se cumprindo na Igreja. A família de Deus composta por povos de todas as partes da terra, diferentes línguas e culturas.

 

Conclusão

Como Paulo bem ilustrou em I Coríntios 12, somos um único Corpo, fomos batizados em um mesmo batismo e compartilhamos o mesmo Espírito. A Igreja de Jesus é o ajuntamento de pessoas que abriram mão de suas próprias vontades, para juntas se submeterem à vontade de Deus. A unidade do povo de Deus tem como ponto central, a comunhão. Jesus deixou muito claro como o mundo nos identificaria como Seus discípulos, por causa da unidade (João 17).

A Igreja vive em comunhão quando cada membro abre mão das suas próprias vontades, para que a vontade de Deus tenha supremacia. Quando cada um cresce na revelação de Cristo o suficiente, a ponto de O identificarem em seus irmãos e irmãs. As bênçãos da unidade, expressas nesse salmo, são apenas uma sombra daquilo que Deus planejou para que seu povo pudesse desfrutar, através da Igreja. A imagem perfeita de Deus na terra.



[1] O possível autor do Salmo 133.

[2] Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson, e Beth LaNeel Tanner, “The Songs of the Ascents: Psalms”, in The Book of Psalms, org. E. J. Young, R. K. Harrison, e Robert L. Hubbard Jr., The New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 2014).

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