sexta-feira, 9 de abril de 2021

Hegel, a teologia liberal alemã e os regimes totalitários

Seu amor uns pelos outros provará
ao mundo que são meus discípulos.
(João 13:35)




 

Georg Wilhelm Friedrich Hegel, mais conhecido no círculo acadêmico (e até mesmo nos estudos filosóficos do ensino médio) por seu último nome, Hegel, foi um filósofo germano que desenvolveu sua obra no início do século XIX.  Sua herança repercutiu sobremaneira nas correntes de pensamento do século XX e afetam as discussões, não somente do âmbito filosófico, mas teológico e político até os dias de hoje. Talvez você tenha tido algumas aulas de filosofia básica durante o ensino médio, e esse nome não te parece estranho. Ou, se você tiver optado pela área de humanas, a filosofia fez parte de sua graduação e com certeza Hegel apareceu como leitura obrigatória na ementa dessa disciplina.

Hegel é considerado pai do materialismo – aquilo que é palpável, real, material. O materialismo é uma forma de produção de conhecimento, um meio (caminho) de se chegar à verdade, aquilo que seria real para o pesquisador (ou quem estuda). Esse estilo de produção de conhecimento foi um marco para o pensamento humano moderno, posto que, o objetivo de Hegel era romper com todo tipo de metafísica (aquilo que não é palpável), pressuposto presente tanto na religião como na produção de conhecimento e filosofia até então (Kant[1], Decartes[2]...).

Todavia, filósofos e pensadores posteriores a Hegel o criticaram nesse ponto, tendo em vista que o escapismo da metafísica é sempre um exercício ingênuo. O rompimento com a metafísica para a produção do conhecimento é tão utópico como a total neutralidade na produção desse mesmo conhecimento, e o famoso princípio (discutido até os dias de hoje nas academias de Direito) do juiz neutro. Desvencilhar-se de suas opiniões, credos e demais características (não palpáveis) que compõem o indivíduo para a produção de algo, nunca existiu de fato, criador e criação sempre estarão interligados[3].

 

Pensamento hegeliano e as bases do marxismo

Os principais pontos do pensamento hegeliano foram os fundamentos do pensamento marxista. Não é atoa que após Hegel vem Marx[4] no programa de estudos de filosofia básica do Ensino médio ou os primeiros anos do seu curso da área de humanas. A autonomia subjetiva – indivíduo como plenamente capaz de chegar sozinho à verdade. Hegel entendia que existia uma verdade absoluta que poderia ser encontrada pelo indivíduo, com uma espécie de idealismo absoluto: um final da história. Esse foi o fundamento para Marx enxergar a sociedade perfeita, por meio de um sistema de governo completamente comunitário e igual.

Outro ponto do pensamento hegeliano foi o materialismo e a dialética. Hegel via a história pela ótica dialética (tese – antítese – síntese), aquilo que está posto e não é justo (tese) deve ser confrontado (antítese) para que um final melhor seja alcançado (síntese). Esse processo era visto de maneira cíclica, até ter um fim ideal. Esses foram os óculos usados por Marx para explicar a história da economia e sociedade. Este entendia que o confronto (guerra / revolução) sempre seria digno porque teria como fim uma síntese mais justa, uma sociedade mais igualitária, onde os recursos seriam melhor geridos e distribuídos (comunismo).

Todavia, o que Hegel e Marx ignoraram foi a total corruptibilidade do coração do homem, sua sede por poder e controle, sua capacidade tenebrosa de massacrar outro semelhante para ter seus interesses realizados. O resultado disso é possível ver até os dias de hoje, governos totalitários que em “nome do bem comum” estiveram dispostos a sacrificar direitos individuais de sua população, restringir todo tipo de comunicação com outros países, torturar, e até mesmo matar a própria população.

 

O pensamento hegeliano e as bases do nazismo

 Os mesmos fundamentos hegelianos foram usados por teólogos e pensadores que (se diziam) cristãos afim de, desenvolverem, por meio de uma descrição racional, uma nova teologia paulina. Semler[5] trouxe um esquema dialético do desenvolvimento do Novo Testamento, no qual ele explicava da seguinte forma: Paulo rompe com a soteriologia[6] retributiva judaica[7] (tese); havia uma comunidade judaizante e seus líderes seriam Pedro e Tiago (antítese); o confronto entre essas duas visões resultou na comunidade joanina helenística-cristã (síntese).

Esses fundamentos teológicos desenvolvidos por Semler entendia o cristianismo como sendo superior ao judaísmo. E no desenrolar do século XIX novos teólogos surgem seguindo esse mesmo raciocínio de usar a razão para chegar à verdade a respeito de Deus, e muitos trabalhos acadêmicos são desenvolvidos nesse período. Até que em 1904, William Wrede defende que Paulo é o fundador do verdadeiro cristianismo. Wilheim Bausset descarta o Antigo Testamento como obra teológica. Assim, o solo estava pronto para o desenvolvimento de um forte antissemitismo e pujante nacionalismo alemão.

De 1914 a 1916 a Primeira Guerra Mundial acontece, Alemanha de um lado e Inglaterra de outro. Os fundamentos ideológicos nacionalistas continuam sendo produzidos em todas as áreas do conhecimento. Nesse período tudo de origem judaica era visto como inferior ou “burro”. Teólogos[8] tornam-se entusiastas dos ideais nazistas e contribuem para a criação do Partido Nacional Socialista (partido da base de Hitler).

E o resultado desse desenfreado pensamento você já sabe onde deu, não é mesmo? De 1939 a 1945 explode a Segunda Guerra Mundial, acumulando ressentimentos da primeira e os ideais de purismo racial consolidado. Os historiadores estimam que mais de seis milhões de judeus foram mortos durante o período do governo nazista alemão, muitos desses em campos de trabalho forçado (campos de concentração). Negros, homossexuais, ciganos e todos que se colocavam contra o pensamento de seu líder alemão (Hitler) foram exterminados.

Desde 1980 as vítimas judias que foram mortas durante o Holocausto são lembradas no dia 27 de Nissan[9], uma semana após a Páscoa do calendário judaico. Em nosso calendário (2021) esse dia de memória aconteceu em 07 de Abril, anteontem. Dias como estes precisam ser lembrados, museus que mostram fragmentos desse massacre precisam ser visitados, para que não venhamos nos esquecer do que o ser humano é capaz.

 

Conclusão

Será que Hegel, Marx ou mesmo teólogos que estavam querendo um conhecimento racional de Deus, teriam previsto que seus pressupostos resultaria no século XX que tivemos? Será que eles consideraram a depravação total do homem e suas inclinações? Creio que não. Todavia, o que podemos entender de toda essa sequência de fatos nefastos é que um cristianismo sem amor é um cristianismo sem Cristo. Um cristianismo que desumaniza outros seres humanos não é cristianismo. Uma teologia sem amor é uma teologia sem Deus. A racionalidade por si só não pode alcançar o verdadeiro conhecimento do Eterno.

Um cristianismo nacionalista que rejeita o próximo por causa da cor de sua pele, nacionalidade (xenofobia), origem social e afim é um cristianismo sem Cristo. Um cristianismo que considera a violência, métodos de tortura, governos totalitários e utilizam teologias para fundamenta-lo, precisa rever seus conceitos.



[1] Immanuel Kant, filósofo prussiano (alemão) que desenvolveu sua carreira e teorias durante metade do século XVIII até o início do século XIX. Um de suas principais obras foi: A metafísica dos costumes.

[2] René Decartes, filósofo e matemático francês, foi considerado o fundador da filosofia moderna e pai da matemática moderna. Uma de suas frases mais conhecidas, que resume um pouco de seu pensamento é: “Penso, logo existo”.

[3] Uso aqui essa comparação não apenas de Deus e sua criação, mas do homem e suas criações: música, poesia, ciência, linguagem e demais artefatos culturais. Além da impossibilidade de neutralidade, tudo está misturado à metafísica.

[4] Karl Marx, filósofo alemão do final do século XIX. Idealizador do socialismo (comunismo).

[5] Johann Salomo Semler, teólogo alemão contemporâneo a Hegel. Em suas obras foram encontradas as primeiras menções da teologia liberal.

[6] Estudo da doutrina da salvação.

[7] O entendimento judaico a respeito da salvação era fundamentado na lei. A obediência à lei os levaria a salvação, por isso uma salvação retributiva, recebida como recompensa pelas boas ações. É uma crença comum na maioria das religiões do mundo.

[8] Gerhard Kittel foi um exemplo.

[9] Leia mais a respeito em: https://moriacenter.com/holocausto-em-israel/?lang=pt-br 




segunda-feira, 8 de março de 2021

MULHER – Controvérsias, realidade e pragmatismo

Eu canto a canção das santas de Deus:

Pacientes, constantes em fé e coragem.

Viveram, lutaram, reinaram e serviram,

Jesus foi para elas o Mestre e Senhor.

E uma foi sábia, a outra rainha;

e algumas, seus nomes, a História ocultou.

[...]

E amando a Jesus do jeito que amaram,

O amor transbordante as tornou resistentes. [...]

À guerra uma foi, a outra ao martírio;

Hereges, queimadas, sem honra ou valor.

E eu, sem desculpas, não, não poderia

negar-me a ser uma delas, Senhor!

 

(Paráfrase de Simei Monteiro do hino 712)[1]



 

                    São séculos de controvérsias a respeito do que podemos ou não fazer. Eis ai algumas perguntas advindas dessas controvérsias: Nossas vozes poderiam ou não ser ouvida em público? Cumpriríamos o propósito de Deus, para nossas vidas, sozinhas (solteiras)? Deus teria um propósito para mulheres? Poderíamos pregar, aprender e ensinar teologia? Qual seria o propósito de Deus para as mulheres? Teria mudado com o passar das gerações? Qual seria (e tem sido) o papel da mulher na edificação do corpo de Cristo? Qual tem sido sua contribuição no decorrer da história da Igreja?

Muitos teólogos contemporâneos, diga-se de passagem, afirmam que uma mulher não pode ser ordenada a pastora, ou mesmo pregar nos cultos da igreja local. Alguns mais extremistas consideram qualquer trabalho feminino nas igrejas proibido ou com necessidade de ser refeito[1]. Outros, um pouco mais flexíveis, delegam a elas o discipulado das mulheres e o ministério infantil. Um dos reformadores, famoso na Alemanha, fazia afirmações duras a respeito das mulheres. Outro homem de Deus, Agostinho, famoso pai da igreja, chegou a afirmar que uma mulher sem marido é incompleta.

Raciocínio estes que se assemelhavam ao pensamento do judaísmo pós segundo templo, a mulher era vista sempre como impura e incapaz, ela era vista como um receptáculo para a procriação (o uso do marido). Elas não podiam ir à escola e muito menos aprender a Torá; há relatos de um rabino que afirmava que: uma mulher sem pai ou sem marido é uma mulher sem cabeça.

Essas e outras controvérsias surgiram no decorrer da história e tradição cristã. É claro que, desde a era moderna até os dias atuais temos vivido o outro lado do extremo. Temos visto o movimento feminista como resposta e solução para o machismo que temos dentro das igrejas, em decorrência das distorções do que “Deus falou” através das escrituras. 

 

Realidade na História da Igreja

Temos exemplos tão claros, da atuação de mulheres, independente de seu estado civil, nas narrativas neotestamentarias que contribuíram tanto para o ministério de Jesus como para o avanço do evangelho da Igreja do primeiro século. As Marias foram fundamentais no financiamento e alcance do ministério de Jesus, há relatos que afirmam que Maria de Magdala (Madalena) era uma das discípulas que seguia os passos do mestre, como os doze. As filhas de Tiago profetizavam e edificavam a Igreja. Priscila foi uma fervorosa anfitriã e colaboradora no ministério de Paulo. Dorcas evangelizava através de obras sociais e do cuidado às viúvas e órfãos.

Durante o século XIII tivemos um movimento de espiritualidade, chamado misticismo, onde muitas mulheres, freiras ou criadas em ambientes monásticos, foram fiéis representantes do amor e devoção ao Senhor Jesus em uma era de escuridão e devassidão moral. Alguns nomes citados, que representam esse movimento, na obra de Rute Salviano são: Margarida Ebner, Matilde de Magdeburgo, Hildegarda de Bingen. Essas e outras mulheres usaram a escrita tanto para enaltecer a Deus, como para denunciar as corrupções do clero. Durante esse período monástico, também temos o movimento das beguinas, mulheres que conciliavam devoção com obra social. Segundo Rute Salviano[2] essas mulheres eram as pastoras do rebanho que não tinha pastor. Veja o que ela escreve a respeito dessas servas de Deus:

Apesar de suas boas obras de caridade, as beguinas foram perseguidas como heréticas, pois não se encaixavam em nenhum dos dois espaços que eram permitidos às mulheres: não estavam em seus lares, subordinadas aos seus maridos, nem pertenciam a uma ordem religiosa, subordinadas à Igreja. E o que mais agravou sua situação foi a ousadia de falar, ensinando ao povo em sua própria língua[3], como também escrevendo obras religiosas. A bonita história das beguinas, grupo de mulheres que conseguiu unir ação e contemplação como se fossem Marta e Maria em uma só pessoa.

Margarida de Navarra, uma nobre que contextualizou princípios cristãos afim de, evangelizar a corte francesa nos séculos XIV e XV, corrompida pela imoralidade sexual. Susana Wesley, a mãe do movimento metodista, um dos avivamentos que revolucionou a Inglaterra durante o século XVIII descobriu a importância da oração, e o poder de ensinar seus filhos a terem um relacionamento profundo com o Senhor através das escrituras. Phobe Worral Palmer, mãe do movimento de santidade, promoveu missões urbanas em várias favelas de Nova York. Essas e outras tantas, conhecidas (mesmo que em pouco material registrado) ou anônimas foram peças fundamentais nos movimentos avivalistas que vieram desde a reforma protestante. País de Gales, Estados Unidos (Movimento de santidade, Azuza[4], Exército da salvação...), Europa (Metodismo, Morávios...) e principalmente nos movimentos que desembocaram em missões transculturais. As mulheres estavam entre os muitos, missionários enviados.

Sobre as missionárias em campos transculturais e obras pioneiras, gostaria de citar algumas do passado e outras que impactaram diretamente em meu treinamento, ambas são inspiração e força em minha jornada. Tendo em vista que a maior parte da força missionária em campos transcultural, principalmente regiões fechadas para o evangelho (famosa janela 10x40), é de mulheres solteiras. Testemunhei viúvas / separadas / mães solteiras com seus cinquenta e até setenta anos de idade em regiões dos não alcançados.

Hellen Rosenveare, missionária inglesa, dedicou 30 anos de sua vida no centro da África, na, hoje República democrática do Congo[5]. Ela serviu através da medicina, curando corpos e almas naquele lugar; treinando enfermeiros e paramédicos, construindo hospitais e maternidades. Sophie Muller é uma das missionárias mais conhecidas, entre os povos indígenas da América Latina. Ela evangelizou sozinha, praticamente duas tribos na região da Amazônia entre Colômbia e Brasil, os Baniua e Kuripako, durante 30 anos. Ela evangelizava durante o dia e traduzia o novo testamento Kuripako, à luz de lamparina durante a noite em suas viagens de canoa. Hoje cristãos dessas tribos são missionários enviados a outras tribos.

Margarida que deixou sua pátria para dedicar sua vida em terras brasileiras, terras indígenas, com o objetivo de traduzir o Cristo aos não alcançados. Uma parceira de Margarida, no final de sua carreira, foi Isabel Murph[6], antropóloga cristã que serviu diversos povos indígenas e treinou muitos missionários para o campo. Ouvi falar de Carolina chegando na região norte do Brasil para servir uma das famílias de línguas dos povos ianomâmis, os Nimam; treinando Jaqueline[7] que pela graça de Deus está terminando mais um novo testamento para um povo que não tinham as escrituras em sua língua materna. Marli, uma das mulheres mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer, tem dedicado os melhores anos de sua vida ensinando as crianças guineenses a lerem as escrituras em sua própria língua. Nenhuma delas se casou, mas geram muitos filhos espirituais e de coração.

 

O que Jesus pensa a respeito das mulheres?

Todas as vezes que me deparo com as controvérsias advindas das variadas tradições teológicas, e passo pela realidade, em parte (bem pequena) relatada a cima me pergunto: Será que todas essas mulheres ouviram a Deus errado? Acharam ter ouvido a voz de Deus e ouviram a si mesmas? Será que elas não viveram o propósito de Deus para suas vidas? Logo em seguida me recordo de Maria de Betânia sentada aos pés de Jesus, ouvindo seus ensinamentos, como os discípulos. E ao ser repreendida Jesus responde: Ela escolheu a melhor parte, e essa não lhe será tirada. Lembro também dessa mesma mulher derramando o perfume precioso aos pés do Mestre, e mais uma vez ao ser repreendida, Jesus diz: Ela fez uma boa ação para comigo. A atitude dela deve ser lembrada em todos os lugares que esse evangelho for anunciado.

Todas as vezes que as controvérsias do: mulher pode ou não fazer isso? Eu me recordo do episódio de João 4, Jesus quebrando todos os protocolos da religião judaica. Talvez não tenhamos dimensão dessa cena, porque desconhecemos o contexto, ou o conhecemos de modo superficial. A mulher na religião judaica do segundo templo já era vista como impura, imagine uma Samaritana. A visão que um judeu tinha de um samaritano era de um porco, ou uma mulher com fluxo de sangue. Ou seja, o ápice da contaminação e impureza. Jesus quebrou todos os protocolos para alcançar o rebanho que não tinha pastor.

As mulheres que entendem o evangelho e amam a Jesus não conseguem agir diferente. Elas desejam alcançar os rebanhos que não tem pastor, os rejeitados e excluídos. Elas estão dispostas a fazer o trabalho que ninguém quer fazer, seja nas igrejas locais ou em campos transculturais. Seja auxiliando seus esposos ou optando pelo celibato. É também o que vamos observar nas histórias das diversas mulheres que compõem a tradição cristã, por mais rígida e tradicional que estas sejam.

Perseverança e confiança

Diante de todas essas coisas, independente de títulos e reconhecimentos, perseveremos naquilo que estamos fazendo, usando nossos dons e talentos para a glória de Deus. Seja aqui ou em qualquer outro lugar que o Espírito nos levar, sirvamos e amemos a Jesus com todo nosso coração, força e mente. Em João 3:8 diz: O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

Sejamos guiadas pelo Espírito, para sermos usadas da maneira que Ele quiser nos usar, entendendo sempre que não somos as personagens principais nessa história, mas Ele é! Façamos o que Cristo nos vocacionou e chamou para fazer, usando sempre aquilo que Ele tem colocado em nossas mãos. Por que nossa dignidade, respeito e salvação vem Dele, o Cristo que nos redimiu na cruz. Nossos direitos, garantias e honras foram resgatados Nele.



[1] Parece bizarro, mas vi um conjunto de igrejas assim, em que desconsideravam batizados os membros que haviam sido batizados por mulheres. O líder dessa denominação chegou a afirmam que o país, no qual estavam, era amaldiçoado por ter sido evangelizado (de modo pioneiro) por uma mulher, e a bíblia na língua do povo havia sido traduzida também, por outra mulher.

[2] Uma voz feminina calada pela inquisição, p. 122. Editora Hagnos.

[3] É válido ressaltar que nessa época a Igreja só utilizava o latim, tanto para as missas quanto para ler as escrituras. Todo o ensino, considerado sagrado, era feito no latim.

[4] O avivamento da Rua Azuza trouxe algo revolucionário para aquela época, igrejas inter-raciais, de negros e brancos. Época pós abolição da escravatura, onde a segregação era mais visível e cruel que hoje.

[5] Hellen foi presa e torturada, pois o país estava em guerra civil e forte perseguição aos cristãos. Ao sair do cativeiro e se recuperar na Inglaterra, ela volta ao Congo.  Durante o período de tortura e violência, até mesmo sexual, ela desanimada sentindo que Deus a havia abandonado, ela O ouve dizer: Hellen esses não são os seus sofrimentos, são os meus.

[6] Isabel e Margarida foram minhas professoras de Antropologia Cultural no CLM (Curso de Linguística e Missiologia) 2018. Margarida faleceu em 18 de setembro de 2020, em terras brasileiras, onde sempre esteve seu coração.

[7] Jaqueline foi minha professora de tradução e sociolinguística no CLM 2018.





[1] Retirado do livro: Vozes femininas nos avivamentos (Rute Salviano) 





terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Martírio, Missões e o Fim dos Tempos

 

Que o Cordeiro receba a recompensa do

 seu sofrimento, através de mim.

(Hino Moraviano)







Falamos e ouvimos tão pouco sobre martírio, perseguição por causa do nome de Jesus e sofrimento por causa do testemunho nos sermões de nossas igrejas, que acabamos nos esquecendo do quão real e necessário é essa parte do evangelho pregado por Jesus. Talvez, nosso contato com essa temática se dê através de movimentos como a Missão “Portas Abertas”, que dá suporte à parte da Igreja – em sua maioria oriental – que cresce em meio ao martírio e perseguição; à Missão “MAIS” que também trabalha nesse contexto, mas principalmente com irmãos (e não irmãos) refugiados. 

Todavia, o martírio e o sofrimento é parte integral do evangelho. Quando Jesus fala: “Segue-me!” Vem acompanhado o: “Felizes são vocês quando, por minha causa, sofrerem zombaria e perseguição...”, “Tome a sua cruz...”, “No mundo vocês terão aflição...”, “...se o grão de trigo não for plantado na terra e não morrer, ficará só.”, “...São capazes de beber do cálice que estou prestes a beber?”. 

Como afirmou Paulo em I Coríntios 11:26, todas as vezes que bebemos da ceia do Senhor, estamos anunciando a morte do nosso Senhor até que Ele venha! Ou seja, estamos nos comprometendo a sermos participantes dos sofrimentos de Cristo que ainda restam. Jesus nos convida, como Igreja, a entrar em parceria com Ele, tanto em Sua Glória como em Seus sofrimentos. 



Somos conduzidos em Triunfo

Mas graças a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz triunfantemente. Agora, por nosso intermédio, ele espalha o conhecimento de Cristo por toda parte, como um doce perfume. Somos o aroma de Cristo que se eleva até Deus. Mas esse aroma é percebido de forma diferente por aqueles que estão sendo salvos e por aqueles que estão perecendo. Para os que estão perecendo, somos cheiro terrível de morte e condenação. Mas, para os que estão sendo salvos, somos perfume que dá vida. E quem está à altura de uma tarefa como essa? 
(2 Coríntios 2:14-16) 


Na época do Império Romano, o general e seus exércitos desfilavam com o exército vencido na rua principal de Roma, para mostrar o poder e glória de Roma e do Imperador, diante de todos. O apóstolo Paulo usa essa mesma ilustração para se referir a nós em relação a Cristo. A expressão “ser conduzido triunfantemente”, significa que fomos conquistados por Cristo e estamos debaixo de Seu senhorio e governo. Em Gálatas, o apóstolo, mostra essa relação de submissão e entrega ao afirmar: “...agora vivo não mais eu. Cristo vive em mim..”, ou seja a vontade que prevalece é sempre a de Cristo, daquele que nos comissionou, daquele que nos venceu e triunfou sobre nós. 

Quando Paulo afirma que somos o aroma de Cristo, em outras traduções “o bom perfume de Cristo”, ele está fazendo menção à perseguição e ao martírio da Igreja. O preço para que o evangelho chegue a cada parte do mundo – o perfume seja espalhado – é o sangue dos santos sendo derramado. O conhecimento de Cristo é espalhado quando a Igreja entra em parceria no martírio. 

Como afirma Dalton Thomas: Embora nem todo crente seja chamado par dar testemunho como mártir, cada crente é chamado para adotar uma mentalidade de mártir, cada igreja, um mandato para o martírio e cada ministro, uma teologia de martírio. Podemos não derramar nosso sangue para que o evangelho se espalhe e seja frutífero na localidade geográfica em que estamos, mas somos chamados a compartilhar dessa mentalidade de amor pelo Senhor Jesus, entregando nossas vidas a Ele sem reservas, como fez Maria de Betânia[1]. 

Sabemos que ninguém inicia sua jornada com o Senhor já fervoroso e maduro em amor. Como a sulamita de Salomão, estamos nesse processo de desenvolver nosso amor por Jesus. O apóstolo João nos ensina sobre esse processo na primeira carta dele às igrejas da Ásia: É nisso que consiste o amor: não em que tenhamos amado a Deus, mas em que ele NOS AMOU e enviou seu Filho como sacrifício para o perdão dos nossos pecados. O fundamento do amor é ser amado. Quando aceitamos o amor de Deus, respondemos em amor e entramos em parceria com Ele. Essa é a história de Cantares, a jornada de maturidade da noiva. Deus está nos fundamentando em amor para que possamos responder em amor. 

Esse é o fundamento da mentalidade de martírio, o amor por Jesus. Quando amamos Jesus, amamos também sua noiva e aqueles que ainda não foram alcançados por esse amor. E nessa perspectiva, estamos dispostos a entregar nossas vidas voluntariamente para a tarefa seja cumprida, e Jesus seja conhecido e mais amado. Somos, assim, o bom perfume de Cristo, a oferta de libação sendo derramada no altar do Senhor[2]. 


O martírio e as missões pioneiras

Hoje no mundo temos mais de 2.000 povos que não têm nenhuma porção das escrituras, e aproximadamente 6.000 grupos étnicos que tem pouco ou nenhum engajamento com as escrituras, muitos deles se quer ouviram sobre Jesus. Muitos missiólogos acreditam que é possível alcançá-los, e concluir a tarefa, ainda em nossa geração, se muito na geração de nossos filhos. 

As missões pioneiras e o amor pela volta de Jesus são lados de uma mesma moeda. Se amamos Jesus e ansiamos por seu retorno, estaremos comprometidos com os povos não alcançados e com o uso das escrituras. É válido ressaltar, ainda, que: 

Tanto as missões pioneiras como o evangelismo local são chamados legítimos e indispensáveis para o avanço dos propósitos de Deus nas nações. Por isso, é importante não priorizarmos um em detrimento do outro. [...] Devemos ter o cuidado de nunca considerar um mais importante do que o outro. No entanto, dito isso, é evidente que a Igreja precisa realizar missões pioneiras de forma consideravelmente mais ampla do que vem sendo realizado atualmente. Em nossos dias, as missões pioneiras simplesmente não são uma prioridade para a maioria das igrejas ocidentais, e isso é trágico. Investimos menos de 1% dos nossos recursos em ministérios para povos não alcançados. 

O envio de missionários hoje tem sido, em sua maioria, para locais que já tem igreja e uma expressividade significativa do evangelho. Não estou dizendo que não é importante as igrejas investirem em obreiros que apoiem trabalhos já existentes em campos transculturais, mas é necessário um investimento maior em obras pioneiras. A tarefa será cumprida alcançando os não alcançados! 

É justamente aqui que o espírito do martírio deve alcançar o coração da noiva de Jesus. A tarefa envolve um coração apaixonado por missões pioneiras e o retorno do Rei. 



O martírio e o fim dos tempos 

Sabemos que a história da Igreja é marcada pela perseguição, martírio e sofrimento. Como afirmaram os historiadores: “O sangue dos mártires foi a semente da Igreja”; porque temos a doce ilusão que Deus agirá de modo diferente nos dias que precederão sua vinda? A resposta é simples e verdadeira: medo, advindo de um espírito de autopreservação que tomou a Igreja do nosso tempo (ocidentalmente falando). 

Na edição de 2002 da Tabela Anual de Estatística sobre Missão Global, David Barret, houve aproximadamente 164 mil cristãos [morreram] como mártires [naquele ano] e que o número médio de mártires cristãos cresceria a cada ano até chegar a 210 mil no ano de 2025. De acordo com a pesquisa de Barrett, houve aproximadamente 45 milhões de mártires no século 20. Isso significa que o século passado viu mais mártires do que os outros séculos anteriores juntos[3]. 

Segundo Dalton Thomas o martírio é um ato contínuo na história da expansão do evangelho, e devemos entendê-lo como uma realidade profética para a qual devemos estar preparados. O chamado ao martírio é o padrão para TODO crente, independente da época ou local em que vive. É o chamado para conhecer Cristo, segui-lo e testemunhar a respeito Dele às nações. Hudson Taylor[4] afirma:

É no caminho da obediência e do serviço realizado de forma sacrificial que Deus se revela mais intimamente a seus filhos. Quanto mais custoso, maior é a alegria. O momento mais tenebroso se torna o mais reluzente, e a maior perda, o maior ganho. Enquanto a tristeza dura pouco tempo e longo passará, a alegria é muito mais elevada...é eterna. 

Esse foi o caminho trilhado por Jesus (Filipenses 2), e é o caminho que Ele tem convidado Sua noiva a trilhar. Quando a igreja compartilha dessa mentalidade, ela não está abraçando apenas sua morte, mas está aceitando como parte de sua vida aqueles que vieram antes de nós e deram suas vidas pela causa de Cristo. E como afirma Hudson Taylor, a alegria em participar das aflições de Cristo é real, mais elevada, posto que, terá repercussão na eternidade. 

Que como noiva, esposa do Messias, a Igreja possa alcançar a maturidade e voltar a cantar o hino moraviano, encarnando o Cristo que tanto prega: “Que o Cordeiro receba, a recompensa do seu sofrimento, através de mim!”. Que a mentalidade do martírio venha tomar nossos corações. 




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[1] Fiz uma citação referente a Maria na postagem: https://mentes-renovadasmay.blogspot.com/2020/09/maranatha-o-caminho-mais-curto.html


[2] Essa expressão “aroma” e “cheiro suave” eram usados para se referir às ofertas queimadas no altar do Senhor, tanto em Gênesis (Noé) quanto em Levíticos.


[3] Extraído do livro: Até a morte – Martírio, missões e a maturidade da Igreja (Dalton Thomas)


[4] Pai das Missões para o interior da China.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Reforma Protestante

                                                                                                                      

Estão tentando nos fazer pensar 
Que por nossas boas obras chegaremos ao céu 
Estão enlouquecendo ao ponto de falar 
Que Deus precisa de rasas indulgências 
Estão tentando nos convencer 
Que por nossa força braçal abriremos os portões 
Estão perdidos e cegos ao dizer 
Que tudo que Deus tem pra você é condição 

(Tese 95 – João Manô)



Quando falamos sobre reforma é importante termos em mente o propósito de Deus para toda sua criação, expresso desde Gênesis, ter todas as coisas convergidas para o louvor de sua glória. Desde a queda do homem, Deus tem trabalhado para restaurar todas as coisas, por meio de seu povo[1].

Em toda a narrativa bíblica percebemos o desejo de Deus por relacionamento, e vemos uma sequencia de caminhar tortuoso, quedas, reformas e reconciliações. A narrativa do Antigo Testamento, quase que 70% dela, mostra o afastamento do povo de Deus do propósito para o qual foram estabelecidos e os muitos homens e mulheres, com suas vozes proféticas, que o Senhor levantou para trazer reforma no meio de Seu povo.

E nessas idas e vindas do povo de Israel percebemos que o coração de Deus não mudou, Ele permanece esperando a resposta de seu povo por relacionamento e profundidade. Também não é diferente quando olhamos para a história da Igreja, ao observarmos seus avanços e regressos dentro do propósito de Deus. Vemos o florescer em Atos, a unidade, a comunhão e o crescimento orgânico alinhado com a perseguição, o martírio e amor ao Senhor e aos povos não alcançados.

Atualmente, estamos sendo inundados por uma onda de mensagens positivas e uma estranha falta de lágrimas nos olhos; os cultos de sábado a noite (juventude) em sua maioria parecem mais entretenimento e um culto a si; estamos na era “coaching” e muitos de nossos irmãos tem chegado ao estremo que Bonhoeffer[2] chamaria de “graça barata”. Estaríamos nós, precisando de uma reforma?

 

Relembrando um pouco de 1500

Dia 31 de Outubro do corrente ano comemoramos 317 anos de Reforma Protestante. Essa data é contada a partir da atitude do monge agostiniano, Martinho Lutero, que fixou na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, no ano de 1517, suas famosas 95 teses que versavam contra a venda de indulgências, estabelecida pelo Papa Leão X. É de saber comum, entre os estudantes da história da Igreja, que essa primeira reforma teve precursores como John Wycliffe[3], Huss[4], Savanarola e entre outros nomes conhecidos, que contribuíram para o retorno às escrituras e os fundamentos de uma salvação única e exclusivamente pela fé em Cristo Jesus.

É válido recordar também, outros nomes importantes que contribuíram na mesma geração de Lutero, como Cataria Zell[5], Elisabeth de Calenberg, Wursula Weyda, Calvino[6], Zwinglio[7], Marguerite de Navarre[8] e muitos outros nomes que ajudaram a trazer a bíblia de volta para a mão do povo – tendo em vista que esse foi o principal foco da reforma de 1500.

Não estou fechando os olhos para os pés de barro[9], que cada um desses homens e mulheres tiveram, mas é válido considerarmos que foram relevantes nesse período e, mesmo não sendo os definidores das famosas “cinco solas” da reforma protestante, foram seus idealizadores.

As cinco solas é a sintetização do credo cristão, pós reforma protestante, elas foram estabelecidas e difundidas tempos depois de 1500 por teólogos reformados. A Igreja Católica crê em todas elas, com exceção da palavra “sola” que no português significa “somente”. 1) Sola Gratia – Somente a graça, favor imerecido, é o meio pelo qual podemos ser salvos. É presente de Deus e em nenhum momento, mérito humano; 2) Sola Escriptura – Somente a escritura é a fonte de inspiração dada por Deus, ela é a autoridade máxima para o cristão; 3) Solus Christus – Somente Cristo é o único mediador entre Deus e a humanidade; 4) Soli Deo Glória – Toda a glória é devida e tributada ao Senhor, pois somente Ele pode salvar e alcançar o coração perdido; 5) Sola Fide – É o entendimento que a justificação é somente pela fé em Cristo Jesus que pode trazer salvação ao homem.

A bíblia foi devolvida para mão do povo, agora todos poderiam ler e se relacionar com Deus. As definições da salvação foram ajustadas, agora a Igreja começou a florescer, todavia mais reformas foram necessárias para que os frutos aparecessem. Mais reformas eram necessárias, a Igreja ainda carecia de ferramentas que lhes foram tiradas.

 

John Wesley, os Morávios e a Rua Azuza

O século XVII foi um momento conflituoso entre irmãos. Luteranos perseguindo anabatistas, católicos perseguindo protestantes, e no campo teológico a bíblia transformou-se em arsenal para uma guerra doutrinária. O evangelho não era mais o poder de Deus para a salvação. Foi dentro deste contexto que surgiu o movimento petista entre muitos irmãos, os mais conhecidos são Wesleyano e Moraviano.

Os morávios foram refugiados recebidos pelo conde Nicolau Von Zinzendorf em sua fazenda na Bavária, durante uma época de perseguição. Eram irmãos de diferentes movimentos protestantes, com seus conflitos e diferenças internas, que precisaram viver em comunidade. Foi através de uma vida de devoção ao Senhor e constante oração coletiva que o Espírito de Deus soprou algo novo dentro dessa comunidade e abençoou povos de diferentes culturas. Esses irmãos sustentaram uma rotina de oração coletiva por 100 anos, e foram os primeiros a enviarem missionários para locais distantes da Europa. Muitos de seus missionários se venderam como escravos para ganhar escravos para Jesus. Foi através deles que conhecemos a seguinte frase: Que o Cordeiro receba a recompensa do seu sofrimento, através de mim.

Dentro ainda, desse contexto de conflitos entre movimentos institucionais, surge, no século XVIII, John Wesley e o metodismo. Na região da Inglaterra e a Igreja Anglicana (oficial do Estado), a família Wesley foi instrumento de Deus para trazer de volta o fogo interior de busca e devoção pelo Espírito Santo, por meio das disciplinas espirituais. Pessoas que não eram recebidas nos prédios das igrejas, agora ouviam o evangelho por meio da pregação itinerante. Essa foi uma das principais marcas do ministério de Jhon Wesley. É válido ressaltar que o ministério e conversão de John Wesley teve forte influência do movimento moraviano.

Percebemos aqui Deus trabalhando e restaurando sua Igreja, devolvendo a ela as ferramentas necessárias para o fim dos tempos. Em 1500 vimos a devolução da bíblia e o ministério de Mestre sendo restaurado. Entre 1600 a 1700 a oração e o ministério do Evangelista, voltam ao seu lugar. E o mover de Deus continua se espalhando, da Europa para a América – consequência, também, da contra Reforma. As missões modernas se intensificam, e surgem os avivalistas no início do século XIX, como também o Movimento de Restauração com os irmãos Campbell, Stone e Walter Scott. A ênfase desse movimento era unidade do corpo de Cristo e o retorno aos princípios da Igreja primitiva, seu lema era: Não somos os únicos cristãos, mas simplesmente cristãos. / Nos essenciais unidade, nas opiniões liberdade, mas em todas as coisas o amor.

Em 1905, surgem nos Estados Unidos reuniões pentecostais e um dos atingidos por esse ministério é Willian Seymour, um pregador negro, que impactou sua geração através da Missão da Rua Azuza. A mensagem de Seymour era que o batismo do Espírito Santo não era apenas para santificação, mas para evidencia – o falar em outras línguas, o profetizar e os demais dons citados em Atos e Coríntios. O movimento pentecostal se espalhou por diversas regiões da América Latina, África, Ásia e Oceania.

É válido ressaltar que a ênfase não era simplesmente os dons, mas a santidade e a oração. No livro “A Igreja do século XX”, lançado pela editora Impacto, mostra claramente que todo movimento de oração e restauração desemboca em missões e amor pelos povos não alcançados.

 

Em nossos dias

Antes desse breve resumo da história da Igreja, lancei a pergunta: será que estamos precisando de uma reforma? E minha resposta é a seguinte, olhemos para o que Deus fez na geração dos nossos antepassados. Cavemos os poços que foram cavados por aqueles que vieram antes de nós[10]. Temos bons exemplos em nossa geração de irmãos que tem feito isso, e mesmo em meio à superficialidade e à graça barata, temos visto o movimento de oração sendo restaurando, o ministério profético sendo reestabelecido e entendido de forma mais clara, à luz das escrituras.

Quando estudamos a história da Igreja vemos o Espírito de Deus restaurando e trazendo de volta o que foi perdido. Falamos muito sobre retornar à Igreja de Atos, e esse é de fato o desejo de Deus, mas precisamos lembrar que a leveza, o agir do Espírito e as conversões são acompanhadas de martírio e perseguição. A Igreja do fim dos tempos é uma Igreja que estará preparada para o martírio e a perseguição. Não foi atoa que Jesus afirmou, citando os profetas:

 

Não está escrito: A minha casa será chamada, por todas as nações, casa de oração?

(Marcos 11:17)

Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.

(Isaías 56:7)

 

Deus está ensinando sua noiva a orar. A oração nos prepara para o martírio, para os povos que ainda não o conhecem[11]. A oração nos ensina a clamar: Maranata! O livro de Apocalipse é um manual de oração para o fim dos tempos. A grande tribulação será um tempo em que a Igreja irá orar como nunca orou antes.



[1] Israel e a Igreja.

[2] Dietrich Bonhoeffer, teólogo e pastor luterano, membro da resistência anti-nazista na Alemanha hitleriana.

[3] O primeiro a traduzir a bíblia para o Inglês. Foi chamado de a estrela D’alva da reforma.

[4] Johm Huss, monge e professor universitário alemão. Morreu dizendo: “Hoje vocês estão matando o ganso, mas daqui 100 anos virá o cisne, o qual vocês não conseguirão matar!”. Seu nome: “Huss” significa ganso; sua fala fazia referencia a Martinho Lutero, o cisne.

[5] As mulheres na Reforma Protestante: https://www.luteranos.com.br/textos/500-anos-de-reforma-protestante-e-as-mulheres#:~:text=Sabemos%20de%20mulheres%20da%20nobreza%20que%20se%20empenharam,entre%201491%20e%201495%20e%20faleceu%20ap%C3%B3s%201543%29.

[6] Principal nome da reforma protestante na região de Genebra. Seu fundamento teológico e prática pública tiveram grande repercussão em muitas gerações, e até os dias de hoje inspira a prática cristã na esfera pública.

[7] Principal líder da reforma na Suíça.

[8] Vozes femininas na Reforma – Rute Salvino.

[9] Expressão usada como referência aos defeitos da pessoa.

[10] E tornou Isaque e cavou os poços de água que cavaram nos dias de Abraão seu pai, e que os filisteus entulharam depois da morte de Abraão, e chamou-os pelos nomes que os chamara seu pai. (Gênesis 26:18)

[11] Segundo os missiólogos a última fronteira hoje, dos não alcançados, é o mundo mulçumano.

sábado, 19 de setembro de 2020

Maranatha - O caminho mais curto


With fire in His eyes and hair like wool 
And a voice like a torrent of waters so full 
Out of his mouth comes a double-edged sword 
He’s coming in glory 
He’s coming to make war 

(Maranatha - Dalton Thomas)


E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que porventura o povo não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao Egito.

Mas Deus fez o povo rodear pelo caminho do deserto do Mar Vermelho; e armados, os filhos de Israel subiram da terra do Egito. E Moisés levou consigo os ossos de José, porquanto havia este solenemente ajuramentado os filhos de Israel, dizendo: Certamente Deus vos visitará; fazei, pois, subir daqui os meus ossos convosco.

Assim partiram de Sucote, e acamparam-se em Etã, à entrada do deserto. E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, para que caminhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite.

(Êxodo 13:17-22)


Introdução: Essa palavra foi compartilhada em uma mentoria escatológica que participei pela abase.org, por Dalton Thomas. Missionário norte americano que lidera a FAI (Frontier Alliance International), agencia missionária que trabalha diretamente com o povo palestino (mulçumanos / árabes e israelenses) nas regiões de conflito no Oriente Médio. 


É muito importante olharmos para o passado antes que falarmos do futuro, há sempre padrões e ciclos. Todos nós conhecemos a história do êxodo, todavia o capítulo 13 nos mostra o porquê que eles tiveram que pegar o caminho mais longo, e não o desvio pela terra dos filisteus. Quando olhamos o mapa, percebemos que o caminho é bem curtinho para a terra de Canaã, passando pela faixa de Gaza. O povo não estava preparado para conquistar sua herança. Olhando para os elementos principais do texto: havia uma aliança, um inimigo que nos quer destruir, um caminho curto e um caminho longo que evita o conflito. Os livros de Números e Deuteronômio são frutos do caminho longo, do despreparo para a guerra.

Eu acredito que a mensagem Maranata é o caminho curto! Naquela época Deus corria o risco de acabar com uma geração inteira, pela falta de preparo deles para a guerra. A Igreja do ocidente pegou o caminho longo; e eu acredito que Deus está levando um grupo de pessoas que irá pegar o caminho curto, para que essas pessoas liderem por esse caminho. E o segredo é não desanimar quando estiver diante da batalha. Eu acredito que Deus está segurando o prumo na Igreja mundial e alinhando o que está torto, e Ele está fazendo isso por meio da mensagem Maranata[2]. Acredito, ainda, que esse prumo serve para nos ajudar a ir por esse caminho curto.

Veja bem, a travessia do Mar Vermelho é algo que Deus fez, mas que Deus não queria fazer; posto que, o desejo de Deus era que eles tivessem cruzado pelo caminho curto, evitando o deserto. Da mesma forma na volta de Jesus, muitos vão escolher o caminho longo, e vão perder o que Deus estará fazendo no caminho curto. O ponto central aqui é estar preparado, para não se arrepender da escolha.

Hoje podemos perguntar ao Senhor: pessoalmente como homem e coletivamente como corpo (igreja), qual é nosso caminho mais curto? Acredito que existem coisas que entregamos nossa vida a elas que nos deixam despreparados para a guerra. Por meio de todas essas escolhas seremos pessoas do caminho curto ou do caminho longo; isso dirá se seremos um povo preparado ou se seremos um povo imaturo que Deus optará por nos poupar do conflito, como fez com os israelitas após a saída do Egito. 

Nossa Bíblia teria sido um pouco mais curta, se o povo estivesse preparado. Nem todo deserto Deus gostaria que passássemos por ele. O deserto é algo precioso, entretanto, muitos desertos vêm por nossa imaturidade. A jornada pelo deserto não era o plano de Deus. Se Deus estava pronto para abrir o Mar Vermelho para proteger um povo imaturo o que Deus seria capaz de fazer para um povo maduro?

Então você (Dalton) quer dizer que esse milagre foi desnecessário? O milagre do Mar Vermelho foi um mal necessário, mas o desejo do coração de Deus era que seu povo estivesse preparado para lutar e conquistar a terra. Eu creio que esse é o chamado de Deus para vocês (brasileiros) ser o povo do caminho curto!

Nós celebramos o caminho do Êxodo, mas, na verdade Deus nem queria que tivesse sido daquela forma. O que Deus está dizendo a meu respeito hoje? Esse é um homem (mulher) que desistiria? Ou é aquele que está preparado para a guerra? Eu fico pensando em quantos milagres Deus faz por nós, simplesmente por misericórdia, mas estes não são um endosso do que estamos fazendo ou escolhendo.

O caminho mais curto é o caminho do primeiro mandamento, o caminho longo é o caminho dos outros deuses. O caminho curto é o caminho de encarar o diabo de frente, o caminho longo é Deus te protegendo do diabo. Não me entenda mal, muita coisa boa aconteceu no deserto, mas muita coisa boa poderia ter acontecido na terra de Israel, e muitas coisas teriam acontecido, como por exemplo: Moisés poderia ter entrado na terra prometida. E como poderia ter sido diferente se Moisés tivesse entrado em Canaã.

 Pense em todo o ciclo de pecado que foi colocado por conta do caminho longo; pense como a história da redenção teria sido diferente. Essa leitura do livro de Êxodo poderia ter sido diferente. Palavra profética para o Brasil: vá pelo caminho curto e seja exemplo para outras nações. Isso significa sacrifício e rendição completa! Nós queremos maturidade, queremos fazer do jeito de Jesus, queremos ser as pessoas do livro de apocalipse. Um povo preparado para a guerra e para a pressão. O caminho curto, sangrento! Sangrento não é romântico. Eu acredito que o Brasil, vai ser o povo do caminho curto e sangrento!

Durante a Grande Tribulação não haverá opção para o caminho longo. Serão 42 meses (3 anos e meio) de pressão e perseguição. Ser um mártir é um processo de vários “sim’s”; Paulo dizia que ele morria a cada dia. Ninguém acorda um dia e diz: vou ser um mártir. Uma forma de se preparar para ser um mártir é lutar contra o pecado. Muitos pensam que não serão mártires por que pensam que são escolhidos para serem protegidos, por causa disso terão dificuldades.

Deus tem nos chamado para derramar nossas vidas a seus pés, como anunciou Maria ali em Betânia. Termino aqui com as palavras do Dalton a respeito de Maria de Betânia[3]:

 

Amigos, eu pergunto a vocês: a herança de vocês em Cristo é maior do que tudo o que vocês têm na terra? Oh, pela graça de amá-Lo com tamanho abandono! Você derramará aos pés dEle o que você tem de mais precioso? Você dará a si mesmo por completo a Ele e não se importar quando o mundo lhe escarnecer: “Vejam como ele está jogando fora a sua vida”, ou “Que desperdício de tempo e energia.” Que persistamos em meio à vergonha terrena e deixemos tudo por uma maior herança celestial.

Embora ela nunca tenha dado um testemunho de mártir em sua morte (pelo menos é o que sabemos), Maria de Betânia exemplifica o espírito de martírio de forma mais clara do que qualquer um no Novo Testamento (é por isso que Jesus mandou que os seus discípulos contassem a história dela a todos os povos e nações a onde eles fossem enviados). A fragrância da devoção dela profetizou o sacrifício daqueles futuros mártires presentes na sala naquela noite. Por meio daqueles jovens rapazes, “o aroma de Cristo” seria difundido entre as nações nas quais mais tarde eles sangrariam.

Os discípulos nunca se esqueceriam do aroma daquele perfume. A memória de sua fragrância e a devoção que ela representava permaneceu com eles até o dia em que eles derramaram as suas próprias veias na mesma paixão santa que tomou conta dessa preciosa mulher de Betânia.

Maria derramou o seu óleo. Os discípulos derramaram o seu sangue. Aos olhos do Senhor, ambas as ofertas eram belas, não simplesmente porque elas eram custosas, mas porque elas eram motivadas pelo amor. Esse é o verdadeiro espírito de martírio.

 

MARANATA!



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[2] O significado da palavra Maranata tem o sentindo de que “Ele veio e também virá”. Pode ser entendido tanto no passado como futuro. Portanto, a mensagem Maranata é completa.

[3] Extraído do livro: Até a morte

Site da FAI: https://www.faimission.org/