sábado, 8 de abril de 2023

Celebrando o Messias na Páscoa


Lembre-se de quem bebeu do fel amargo de uma taça [...]
Lembre-se de quem nos deu o próprio sangue como um selo
Que homens vem e vão, mas Ele permanece eternamente
Que Aquele que desceu, é o mesmo que
subiu e que nos levará para sempre.

(Eu vou me lembrar – Banda Resgate)

 

Rogier Van Der Weyden

A Páscoa é uma das festas judaicas que rememora de modo completo todo o Plano de Redenção do Senhor para a humanidade. O livro de Êxodo, em forma simbólica e nacional, contém todo o desenrolar desse plano de Deus, de salvar e restaurar todas as coisas. Podemos ver (a partir da leitura do livro) tudo acontecendo de modo micro, por meio do povo de Israel e o cordeiro pascal sendo imolado para salvação dos primogênitos. E “logo em seguida”, nos dias de Jesus, vemos o cumprimento em proporção macro, a humanidade sendo redimida por meio do sacrifício do Cordeiro perfeito. Além do ponto da redenção, também observamos o viés escatológico presente na Páscoa e no Êxodo. Todas as etapas de juízo, redenção, livramento do povo de Deus, tabernaculação e ressurreição estão presentes na celebração da páscoa.

É claro que essa visão completa só nos é permitida por meio de Jesus. Não podemos cair no anacronismo de afirmar que os primeiros israelitas, que celebraram a Páscoa, enxergaram o quadro completo da história da redenção. Mas, podemos perceber a tipologia presente em todos os elementos dessa celebração, como também no enredo da peregrinação pelo deserto até a chegada na Terra prometida.

O contexto em que a celebração da Páscoa foi instituído por Deus, através de Moisés, era de transição. O período em que Deus derramaria a última das dez pragas sobre o Egito, a morte dos primogênitos. O coração de Faraó estava endurecido, mesmo após todos os juízos já derramados. Uma nação às portas da liberdade, mas aprisionados pela mentalidade de 400 anos de cativeiro. A semente de Abraão, o povo da promessa, presenciando todas as maravilhas do braço forte e soberano do Senhor movendo em favor de Seu nome. O pacto da graça estava se desenrolando.

O Cordeiro pascal – Deus protege seu povo

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

João 1:29

Há um aspecto interessante em Êxodo 6:6-7[1], o verbo traduzido com “adquirir” ou “resgatar” aponta para uma transação comercial, o comprador paga o preço para se tornar dono daquilo que foi adquirido. É isso que acontece na Páscoa, Deus paga o preço (o Cordeiro) para adquirir Israel, seu primogênito. Isso coloca Deus em uma posição mais ativa da história. Ele poupa os primogênitos daqueles lares israelitas, por meio do cordeiro. E mais tarde ele derrama seu próprio juízo em si mesmo, pagando o preço por sua Igreja, composta por judeus e gentios (o verdadeiro Israel de Deus).

É claro que vamos ver a exortação e o juízo de Deus começando por sua casa (Israel e Igreja), mas são situações diferentes. Podemos observar isso por meio do profetismo no antigo Israel, em tempos de idolatria e corrupção os profetas relembravam o povo a respeito da Aliança no Sinai e os chamava ao arrependimento. Caso não houvesse uma resposta positiva, as consequências eram inevitáveis (cerco, morte e exílio). O mesmo observamos no livro de Apocalipse, os capítulos 2 e 3 apresentam exortações severas à Igreja do Senhor. É uma oportunidade de lembrarmos onde caímos e voltarmos a amar ao Senhor.

No Dia do Senhor, e os anos que precederão seu retorno, Deus fará separação entre a Igreja e aqueles que rejeitaram o Cordeiro. O juízo virá sobre a terra, mas como no Egito, Deus fará separação entre os justos e injustos.

 

O Juízo sobre os incrédulos

Um dos aspectos que muitas vezes nos passa despercebido, quando lemos o livro de Êxodo e a narrativa da primeira Páscoa, é seu viés escatológico. Dan Juster, em seu livro “Páscoa”[2] mostra o paralelo presente entre o livro de Apocalipse e o livro de Êxodo. As pragas, quando são colocadas de modo paralelo às Trombetas, mostram-se muito semelhantes. Como também, a separação feita entre os que creem no Cordeiro e os que não creem (Êxodo 8:22-23 / Apocalipse 7:3).

Deus derramou juízo sobre aqueles que se recusaram a crer no sangue do cordeiro pascal. Jesus veio e recebeu a ira de Deus na cruz, em favor de todos aqueles que creem. A ira de Deus foi derramada sobre o Servo sofredor, para que por meio dele tivéssemos vida. Ele abriu um novo e vivo caminho para o Pai, e assim podemos ter paz com Deus. Todavia, em sua segunda vinda, o juízo será derramado sobre aqueles que se recusaram a crer.

 

A ressurreição dos Mortos

“Somente onde há sepulturas, há ressurreição.” (Karl Barth parafraseando Nietzsche)

Um ponto novo que a Páscoa apresenta, por meio de Jesus, é a vitória sobre a morte. A salvação em Jesus é apresentada de modo completo. A ressurreição de Jesus mostra à seus discípulos que mesmo que seus corpos sejam queimados, torturados, crucificados e enterrados, um corpo de glória, completamente incorruptível, os espera. Jesus foi o primogênito na ressurreição, e todos aqueles que creem terão o mesmo fim. Essa é a esperança da nossa salvação.

Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?

 (1 Coríntios 15:55)

Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele.

(1 Tessalonicenses 4:14)

 

Esse aspecto escatológico da ressurreição é maravilhoso e fundamental para o fortalecimento de nossa fé e espera. Todavia, viver uma vida ressurreta é tão importante quanto. Eugene Peterson em seu livro “Vivendo a ressurreição[3]” nos apresenta esse importante detalhe a respeito da ressurreição dos mortos. Participar da mesa, saboreando a comida, viver o shabbat, trabalhando e descansando, são realidades de quem experimentou Jesus e sua ressurreição.  

Estamos aqui para dar testemunho sobre a fonte da vida, para falar como ela se desenvolve e como fazemos para ingressar nela. E protestaremos quando observarmos que nossa linguagem e forma de perceber a vida estão se desligando do Deus vivo, entrando num processo de degeneração ou desintegração que as transforma em conversa sobre Deus, em conversa sem vida. [...] Participamos da vida e é dela que testemunhamos, mas estamos cercados pela morte, que nos ameaça.

(Eugene Peterson)

Conclusão

A páscoa revela o coração de Deus ao mundo. A ordem do Senhor ao povo de Israel de observar a Páscoa como memorial perpétuo demonstra seu desejo de garantir que seu povo continue a contar sua história de redenção às gerações futuras. Atualmente, Deus está usando a igreja composta de seguidores judeus e gentios de Jesus, “um novo homem” (Ef 2:15), para contar essa mesma história. (Cathy Wilson[4])

Sou cristã de tradição evangélica, não seguimos um calendário litúrgico, nem temos muitos símbolos físicos para nos fazer lembrar de nossa fé. Todavia, a história da Igreja, com sua diversidade de tradições nos dá meios criativos para cumprirmos Deuteronômio 6:7. Celebrar é fazer memória, é ensinar para si mesmo, para seus filhos e netos. Por mais que o secularismo e o mercado tentem nos fazer perder o foco, é necessário contar histórias, e reconta-las todos os anos. Para que Cristo sempre tenha preeminência.



[1] Capítulo de Robert Walter – O Messias na Páscoa. / Portanto dize aos filhos de Israel: Eu sou o Senhor, e vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios, e vos livrarei da servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos. E eu vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas dos egípcios; (Êxodo 6:6,7)

[2] Disponível pela editora Impacto publicações.

[3] Disponível pela editora Mundo Cristão.

[4] O Messias na Páscoa – Darrell L. Bock e Mitch Glaser


quinta-feira, 9 de março de 2023

Até que Tenhamos Rosto

 



A maior de todas as ciências é
Conhecer-se a si mesmo. Porque quem conhece
A si mesmo conhecerá também a Deus.
(Clemente de Alexandria)

 

Disponível no Museu do Louvre - Paris (Fonte: Instagram do Louvre)

 

Não sei se alguma vez você já leu o mito grego de Eros e Psique, ou ao menos ouviu falar sobre. A primeira vez que tive contato com esse mito, foi no ensino fundamental através de uma literatura infato-juvenil chamada: “Viagem ao reino das sombras”[1]. Trabalho curricular da nossa querida professora de português, Edina. Recordo-me que foi uma leitura que me agradou bastante na época.

O mito consiste na história da filha mais nova de um rei que nasce com uma beleza incomum. A beleza da jovem é tamanha que desperta a inveja de Afrodite[2]. Esta, incube seu filho Eros[3] a lançar uma maldição sobre a jovem, todavia, o plano da deusa sai pela culatra. Quando Eros vê a garota, fica perdidamente apaixonado, e decide trazê-la para seu palácio celestial no topo de uma montanha. Ali a jovem Psique vive um romance com Eros, com a condição de que ela nunca visse seu rosto. O conflito está no momento em que as irmãs de Psique vão até a montanha, veem o palácio e sentem inveja dela, assim a induzem a usar uma lamparina para ter a certeza de que o amante era humano, e não um monstro.

C. S. Lewis, em sua versão desse mesmo mito, traz a perspectiva da irmã mais velha. A irmã "feia" que na verdade criou Psique como sua filha. O enfoque da obra não se encontra no romance da garota com o deus, ou na crueldade de Afrodite, nem mesmo no esperado final feliz que o casal supostamente teve, mas sim, em como somos capazes de viver uma vida sem rosto. Seres incapazes de olhar para o espelho, insatisfeitos com a própria vida por causa do outro. Fazendo do outro nosso adversário ou objeto que atrapalha a felicidade.

Há uma semelhança na atitude de Eros e da irmã de Psique, ambos escondem sua identidade (seus rostos), um por meio da escuridão a outra por meio de um véu. Uma perfeita ilustração da fuga do: “Conhece-te a ti mesmo”, e um incentivo à filosofia do “Hakuna Matata[4]”, esqueça os seus problemas. É mais fácil fugir que encará-los.

 

Cristo e Eros

No mito, o deus Eros esconde seu rosto da amada, pois tinha medo da cólera de sua mãe, Afrodite. Ele havia recebido a ordem de amaldiçoar a mortal, mas seu desejo era transforma-la em imortal, pois se afeiçoou àquele ser. Jesus vem ao mundo e mostra o rosto de Deus à humanidade. Ele não esconde seu rosto, pois estava em parceria com o Pai para juntos abençoarem aos mortais, dando-lhes vida eterna (imortalidade). O Deus da Bíblia é o Deus que se revela, e não o que se esconde. Ele deixa claro em todo o decorrer da narrativa bíblica que Ele quer ser conhecido, em todas as gerações.

Outro ponto interessante no romance entre o deus e a mortal, é que segundo o mito Psique faz sua própria jornada ao reino dos mortos a fim de salvar-se. Não é Eros que resgata ou salva sua amada, mas através de seus próprios esforços a amada ganha seu direito no panteão dos deuses. Na história da redenção, vemos o contrário, Cristo fazendo a jornada ao inferno para resgatar sua amada (Igreja) da condenação eterna.

O ser humano sempre será incapaz de salvar a si mesmo. As escrituras afirmam:

Todos pecaram e não conseguem alcançam o padrão da glória de Deus.” (Romanos 3:23)

Como sou miserável! Quem me libertará deste corpo mortal dominado pelo pecado?” (Romanos 7:24)

É exatamente esse ponto que diferencia o Cristianismo de todas as demais religiões. Os seres humanos estão sempre tentando salvar a si mesmos, por meio de boas ações que são contabilizadas. Os ensinos atuais dentro das ciências sociais e psicológicas é a mesma do mito de Psique: “Salve-se a si mesmo”. Você não precisa esperar por um salvador, pode ser que ninguém venha. Você é o protagonista de sua própria história! Você é a parte mais importante. Você não precisa que um príncipe venha para te salvar, salve-se a si mesma[5]!

Percebe como são discursos parecidos, e que hoje está na boca de muita gente? Tem muita religiosidade onde achamos que “não tem nada a ver”. Não há nenhum tipo de ensino neutro! Precisamos estar conscientes dessa verdade para não nos comprometermos com narrativas que nos distanciam do evangelho.

 

A irmã de Psique

Lewis traz a releitura do mito por meio da narração da irmã mais velha de Psique. Orual, rainha de Glome. A narrativa contempla a infância de Orual e sua outra irmã, e logo depois a chegada de Psique, meia irmã de ambas. O rei de Glome, pai dessas três meninas, é descrito como rude e muito violento. Após a morte deste, Orual passa a governar o país, com a ajuda do chefe do exército, Bardia.

O ponto interessante são as crenças de Orual a respeito dos sentimentos que nutre pelos outros e a respeito de si mesma. Como citei anteriormente, ela faz uso de um véu afim de esconder sua “feiura”. E dentro de todo o desenrolar da vida dessa rainha, seus ressentimentos como mulher – por não ter se casado e nutrir afeição por Bardia – e mãe[6], Lewis nos mostra como é possível viver uma vida enganados a respeito de nós mesmos.

O autoconhecimento é um processo que só é possível por meio do conhecimento do nosso Criador, a partir da perspectiva de que todo nosso ser caiu e necessitamos de salvação. O conhecer a si mesmo precisa de consciência do pecado e suas consequências. Nos sentimentos que chamamos de amor, por exemplo, muitas vezes os confundimos com posse, controle e manipulação.

 

[...] o conhecimento do cristão não se reduz ao entendimento de que Deus existe e é todo-bondoso e todo-poderoso. É preciso ir além, ou seja, é necessário também aprofundar o conhecimento de Deus e suas implicações para o autoconhecimento. A maravilhosa bênção que a revelação divina reserva para aqueles que a conhecem é a grande descoberta de que o Deus das Escrituras revela ao homem não somente o verdadeiro Deus, mas também o verdadeiro homem.

(Inteligência Humilhada – Jonas Madureira)

 

O significado de Psique

No grego clássico a palavra Psique refere-se à alma, ao conjunto de emoções, intelecto e vontade. Os gregos, por meio da escola de Platão, tinham uma perspectiva dual da vida e do seres humanos, a parte material e a parte imaterial. Uma parte menos excelente (corpo) e uma mais excelente (espírito).

É importante nos atentarmos para esse detalhe cultural, posto que, nossa mentalidade e cosmovisão (até mesmo cristã) foi muito afetada pelos gregos. Essa visão dualista das coisas se difere bastante da cosmovisão semítica (judaica), os óculos pelos quais a bíblia foi escrita. Quando temos essas palavras que se referem a alma, espírito e corpo, no grego, tanto na septuaginta (versão da bíblia judaica no grego) quanto no texto neotestamentário, temos uma referência à totalidade do ser ou sua parte mais profunda (que no ocidente chamamos de coração), vejamos alguns exemplos:


Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda tua alma e de toda a tua força. (Deuteronômio 6:4-5)

Louva, ó minha alma, ao Senhor. (Salmo 146:1)

 

O objetivo do escritor bíblico não é tratar dessas partes separadamente, mas do ser humano de modo integral. Não há essa separação entre parte encarnada e parte desencarnada na mente do judeu a respeito do ser humano. Em muitos textos, principalmente os poéticos, a utilização da parte pelo todo (metonímia) é muito comum. São as famosas figuras de linguagem.

 

Conclusão

Se você ainda não leu esse livro, ou nem se quer conhecia o mito de Eros e Psique, perdoe-me pelos “spoilers”, deveria ter avisado no começo do texto, não é mesmo? Mas, o que coloquei aqui foi um resumo do resumo de ambos. Portanto, se quiser conhecer os detalhes, você pode ler o mito e também a obra de C. S. Lewis, “Até que tenhamos rosto”[7].



[1] Obra de Luiz Gaudino, pela editora FTD.

[2] Segundo o panteão grego: deusa da beleza.

[3] Segundo panteão grego: deus do amor.

[4] Pregada por Timão e Pumba na animação “O Rei leão”.

[5] A quebra de paradigma do príncipe encantado, pregado principalmente pela Disney em seus filmes e releituras dos mitos dos irmãos Green.

[6] A mãe de Psique morre durante o parto, assim, Orual cuida de Psique como se fosse sua filha. Faz dela seu objeto de adoração e devoção.

[7] Disponível pela editora Tomas Nelson Brasil.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Vendo Jesus no Antigo Testamento

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;
Porque nele foram criadas todas as coisas que 
há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos,
 sejam dominações, sejam principados, sejam potestades.
 Tudo foi criado por ele e para ele.
E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.
(Colossenses 1:15-17)




Existe uma chave hermenêutica que nós cristãos devemos fazer uso dela, principalmente quando lemos o Antigo Testamento. Essa chave chama-se, Cristo. Um dos diferenciais da nossa interpretação bíblica para a de alguns judeus é a certeza que o Filho estava presente desde a criação do mundo, e Ele aparece de alguma maneira em cada livro da Bíblia. Seja de modo tipológico, seja como teofania. O Messias é a linha pela qual as várias narrativas individuais tornam-se apenas uma, a história da redenção. Jesus é o fio escarlate que perpassa todas as páginas da Bíblia.

As tipologias são representações de algo maior que estava por vir. Os tipos podem ser objetos, pessoas e também animais. Por exemplo: José é um tipo de Jesus quando este é vendido por seus irmãos e por meio de sua vida a família de Israel é salva da fome que estava por vir. Moisés é um tipo de Cristo, o libertador, que tira o povo de Deus do Egito e o leva para a terra prometida. Exemplos de objetos e animais como tipos de Jesus: O cordeiro sacrificado na Páscoa, como memória e expiação. Os sacrifícios feitos no tabernáculo apontavam para o sacrifício feito por Jesus na cruz. O sumo-sacerdote apontava para o sumo-sacerdote perfeito, sem pecado, que viria para ser Ele mesmo o único mediador entre Deus e o homem.

Ainda sobre a tipologia, Davi e Salomão foram um tipo de Cristo no sentido de construir um tabernáculo para o Criador. Jesus fez isso através de sua morte e ressureição, somos a habitação de Deus. Esses primeiros reis apontam para a linhagem de Jesus e sua posição como Rei e senhor. Os diversos reinados em Israel falharam, os reinos e governos do mundo continuarão falhando, todos serão esmiuçados quando o verdadeiro rei chegar para governar as nações. Todos os governos por mais justos e aparentemente sujeitos à Deus foram e serão somente uma sombra do governo do Messias.

Não é em vão que Jesus afirma que “Ele era a lei e os profetas”. Ele está presente como o logos (a palavra) que deu origem ao mundo; Ele é o pão e a água que alimentou o povo no deserto; Ele é o santo de Deus; Ele é o sacrifício e o sumo-sacerdote; Ele é conhecido em gerações; Ele é o parente próximo que veio resgatar sua família; Ele é o rei dos reis, a raiz de Davi; Ele é o redentor; Ele é o Filho que deve ser beijado; Ele é a sabedoria de Deus; Ele é o meio de não “corrermos atrás do vento”; Ele é o mais belo entre milhares; Ele é Emanuel e aquele que vem de Bozra; Ele é o que envia; Ele é o anjo do Senhor; Ele é o Filho do homem. Ele é a expressão exata do Pai!

No Antigo Testamento quando temos a expressão “O Anjo do Senhor” é considerada um tipo de teofania[1]. Quando o próprio Deus se fazia presente naquela situação. Conversando, comendo, recebendo adoração e lutando por seu povo. Veja alguns exemplos:

1)      Quem conversou com Agar?

E o anjo do Senhor a achou junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur. E disse: Agar, serva de Sarai, donde vens, e para onde vais? E ela disse: Venho fugida da face de Sarai minha senhora. Então lhe disse o anjo do SENHOR: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos. Disse-lhe mais o anjo do Senhor: Multiplicarei sobremaneira a tua descendência, que não será contada, por numerosa que será. [...] E ela chamou o nome do Senhor, que com ela falava: Tu és Deus que me vê; porque disse: Não olhei eu também para aquele que me vê?

(Gênesis 16:7-13[2])

Esse texto é muito interessante, Deus fala e mostra seu rosto a uma mulher. E não uma mulher especial, ou com status importante, mas com uma escrava. Deus se revela e permite ser adorado por uma egípcia que servia a família que estava prestes a se tornar o povo de Deus.  

2)      Quem almoçou com Abraão?

Depois apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia e levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra, E disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo. [...] E disse o Senhor a Abraão: Por que se riu Sara, dizendo: Na verdade darei eu à luz ainda, havendo já envelhecido? Haveria coisa alguma difícil ao Senhor? Ao tempo determinado tornarei a ti por este tempo da vida, e Sara terá um filho. E Sara negou, dizendo: Não me ri; porquanto temeu. E ele disse: Não digas isso, porque te riste.

(Gênesis 18:1-3 e 13-15)

Veja que a primeira atitude de Abraão foi se prostrar, ele reconheceu de imediato que era o Senhor. Não houve repreensão pelo gesto de adoração[3]. Quando um ser humano estava prestes a adorar um anjo, dentro das escrituras, estes se recusavam a serem adorados (veja: Ap 19:10, 22:9). O mesmo Deus que o havia chamado da terra dos caldeus, o mesmo Deus que o chamou para fazer uma aliança. E por causa dessa aliança, você vai perceber se continuar lendo o texto, Deus não pode esconder o que estava prestes a fazer.

3)      Quem deu a mensagem à mãe de Sansão e a seu esposo Manoá?

E o anjo do Senhor apareceu a esta mulher, e disse-lhe: Eis que agora és estéril, e nunca tens concebido; porém conceberás, e terás um filho. Agora, pois, guarda-te de beber vinho, ou bebida forte, ou comer coisa imunda. Porque eis que tu conceberás e terás um filho sobre cuja cabeça não passará navalha; porquanto o menino será nazireu de Deus desde o ventre; e ele começará a livrar a Israel da mão dos filisteus. [...] E disse Manoá ao anjo do Senhor: Qual é o teu nome, para que, quando se cumprir a tua palavra, te honremos?[4] [...]

E o anjo do Senhor lhe disse: Por que perguntas assim pelo meu nome, visto que é maravilhoso? Então Manoá tomou um cabrito e uma oferta de alimentos, e os ofereceu sobre uma penha ao Senhor: e houve-se o anjo maravilhosamente, observando-o Manoá e sua mulher. E sucedeu que, subindo a chama do altar para o céu, o anjo do Senhor subiu na chama do altar; o que vendo Manoá e sua mulher, caíram em terra sobre seus rostos. E nunca mais apareceu o anjo do Senhor a Manoá, nem a sua mulher; então compreendeu Manoá que era o anjo do Senhor. E disse Manoá à sua mulher: Certamente morreremos, porquanto temos visto a Deus.

(Juízes 13:3-5 e 17-22)

Esse texto da anunciação do nascimento de Sansão é muito interessante. O próprio Deus aparece para anunciar o próximo juiz de Israel, uma criança que seria completamente dedicada a Ele e a seus interesses. É uma pena ver que Sansão se desviou desse propósito, mas ele foi escolhido por Deus, antes mesmo de ser concebido. No texto, o anjo recebe o sacrifício de adoração e deixa claro para o casal que Ele era Deus.  

 

Conclusão

O anjo do Senhor vai aparecer em vários episódios da história de Israel, para os profetas, em batalhas e acontecimentos significativos. Alguns teólogos afirmam que essas aparições de Deus no Antigo Testamento, era um prelúdio da encarnação. Jesus presente em toda a história de Israel, sendo Ele o personagem principal da narrativa da missão de Deus.



[1] Aparição ou manifestação de Deus.

[2] Todas as referências são ACF – Almeida Corrigida Fiel.

[3] Em alguns casos, se prostrar era um ato de saudação e reverência, mas também estava relacionado à adoração.

[4] Perguntar o nome do deus / anjo era uma maneira de controlar a divindade por meio de rituais mágicos, usando o nome desta. É por isso que Deus nunca responde de maneira específica e “completa” como os seres humanos desejam. O Deus de Israel não pode ser manipulado, controlado ou delimitado.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Igrejas de Cristo no Brasil e o Movimento de Restauração

 



Não sei qual seria a melhor forma de começar esse texto, falando a respeito da igreja na qual cresci e o movimento com o qual ela nasceu, ou de como ela não é conhecida e tão famosa quanto as mais tradicionais ou neopentecostais. Talvez, eu possa começar por minha experiência pessoal com essa comunidade de fé, e como minha opinião mudou com o passar do tempo a respeito dela.

A Igreja de Cristo na cidade de Goiás, cidade da Cora Coralina, nasceu com o Movimento de Restauração. É claro que eu não sabia disso até meu segundo COMIC[1] (Congresso de Mocidades das Igrejas de Cristo). Sempre amei a igreja local na qual cresci. Infância, adolescência, juventude e fase adulta, ela fez e continua fazendo parte de mim. É fato que durante minha juventude, época da faculdade, primeiros contatos com diferentes ramos da teologia (e com outras denominações) comecei a questionar sobre o posicionamento teológico da minha igreja local.

Dizia eu: “Poxa, precisamos de bases teológicas mais consistentes! Não sei dizer se sou calvinista, arminiana ou luterana. O que eu sou? Qual a linha teológica da nossa igreja? O que somos?”. Nesse período copiávamos muitos modelos, víamos igrejas crescendo em número e com uma aparente visão unificada e uniformizada, e ficávamos maravilhados, pensando que esse seria o caminho para uma igreja “perfeita”. Foi graças ao nosso sábio pastor, Raimundo Aires, que não sucumbimos em meio a tantos modelos desproporcionais à nossa realidade local.

Mais que uma denominação, as Igrejas de Cristo nasceram de um movimento, um movimento de discípulos de Jesus. Isso tem muita diferença quando falamos do “ser igreja”. Movimentos estão mais ligados à algo vivo, à um corpo que se multiplica em UNIDADE e DIVERSIDADE.

 

O Movimento de Restauração[2]

O Movimento de Restauração, também conhecido como os discípulos de Jesus, buscava uma vida em comunidade o mais parecida possível com o livro de Atos, o cristianismo da Igreja dos primeiros discípulos. Ele teve início durante o século XIX, com o “Segundo Grande Avivamento”. Seus principais nomes foram: Stones e Campbel (Barton W. Stone, Thomas Campbell, Alexander Campbell, Walter Scott, David S. Burnet, Isaac Errett). No Brasil o nome mais conhecido é: Sanders (David e Rute), todavia, tivemos outras famílias de missionários, como os Shields, que contribuíram para a propagação do movimento aqui – principalmente no centro-oeste brasileiro (Goiânia/Brasília).

Não vou delongar na história desses homens, mas gostaria de enfatizar aqui os objetivos e principais declarações do movimento:

1)      Somos uma Igreja de Cristo – Pertencemos a Jesus! Ante a isso, não temos poder para mudar seus ensinos ou reescrever suas regras. Não podemos ainda, acrescentar novas condições para aceitar pessoas como membros da Igreja de Jesus.

2)      Somos uma Igreja que busca a Unidade – Ser um com todos aqueles que confessam a Jesus como Senhor e Salvador. Aqui tem um fato interessante, muitos irmãos católicos foram recebidos na comunhão do movimento. Na nossa cidade, muitos padres e freiras participavam conosco dos cultos de domingo, por amizade e simpatia ao nosso pastor, Raimundo Aires. Lemas do movimento: “Nos essenciais unidade, nas opiniões liberdade, mas em todas as coisas o amor.” “Não somos os únicos cristãos, mas somos unicamente cristãos.”

3)      Somos uma Igreja que busca a Restauração – Ser o mais parecido possível com o exemplo neotestamentário. Aqui tem uma marca interessante das Igrejas de Cristo, além do batismo por imersão, a celebração da ceia acontece todos os domingos.

4)      Somos uma igreja Apostólica – Estudamos e obedecemos os ensinamentos deixados pelos apóstolos, contidos no Novo Testamento. “Nenhum credo além de Cristo, nenhum livro além da Bíblia.” “Onde a Bíblia fala, nos falamos; ondem a Bíblia cala, nós calamos.”

5)      Somos uma igreja que Pensa – Uma igreja que não ignora o intelecto e o usa para a glória de Deus. Contextualizando a mensagem do evangelho, mostrando que fé, ciência, religião e trabalho devem andar juntas para a glória de Deus.

6)      Somos uma Igreja que Sente – Somos uma igreja viva, que o Espírito Santo tem liberdade para agir e mover como no meio dos primeiros discípulos de Jesus. Não nos envergonhamos do evangelho, nem de mostrar nossas emoções em público.

7)      Somos uma Igreja que Compartilha – Temos o desejo de ganhar o máximo de pessoas para Jesus, portanto nos importamos com o evangelismo, discipulado e engajamento desses novos membros na Igreja de Jesus. Queremos também compartilhar nosso dinheiro e posses, pois eles pertencem ao Senhor.

8)      Somos uma Igreja Livre – Como as igrejas bíblicas, somos Independentes. Não temos papa, cardeais, arcebispos, superintendentes denominacionais ou uma sede central para determinar as políticas a seguir. Como congregação autônoma, elegemos nossos líderes e decidimos para onde irá nosso dinheiro. No entanto, não nos recusamos a cooperar com outras igrejas e nos associamos livremente com outras congregações que compartilham as nossas heranças e convicções, para vivermos a mesma fé, promovermos o reino de Deus, assumirmos o compromisso de fidelidade aos princípios do “Movimento de Restauração” e cooperarmos umas com as outras na execução dos programas missionários. Nossos Concílios e Convenções têm um caráter extremamente de comunhão e não têm nenhum poder deliberativo sobre as igrejas.

9)      Somos uma Igreja que Cresce – Desejamos crescer espiritualmente, pois ainda não alcançamos a estatura perfeita. Queremos crescer em comunhão como corpo, mas também queremos crescer numericamente, pois isso está relacionado à Mateus 28:19-20. Não desejamos perder o foco da Grande Comissão.

 

O sacerdócio universal de todo crente

Outro ponto positivo do Movimento de Restauração foi a liberdade de pregação da palavra e ministração da ceia por membros não ordenados ao ministério. Entre nós, brincamos que é o sistema de “baixo clero”. Cada crente é um ministro, e pode compartilhar as boas novas com seu vizinho, na escola ou trabalho.

O sacerdócio universal de todo crente também inclui as mulheres! Oh aleluia! Parece estranho falar isso, não é mesmo? Mas, o ministério feminino em muitas igrejas, até hoje, é questionado e tido como contrário às escrituras[3]. Contudo, as Igrejas de Cristo ordenam mulheres ao ministério pastoral, missionário e evangelístico. Coisa linda!  Como na Igreja primitiva, e o movimento dos primeiros discípulos de Jesus, as mulheres continuam fazendo parte ativa da propagação do evangelho e edificação da igreja.

 

Conclusão

Não quero desprezar aqui a importância dos estudos teológicos, nem a relevância de conhecer e se posicionar em relação às tradições cristãs teológicas. Mas, isso não é o mais importante quando falamos de ser Igreja. Existem ministérios de estudos teológicos (Bibotalk e o Invisible College) hoje que partilham dos mesmos ideais do movimento de restauração, e isso só confirma o quão bíblica e poderosa é essa verdade, andar em unidade.

Unidade é diferente de uniformidade, é possível caminhar em unidade pensando diferente. É exatamente nisso que está a beleza do ser Igreja. É sendo diferente que expressamos a diversidade de Deus, que é trino. Não precisamos deixar de ser pentecostais, arminianos ou calvinistas, podemos aprender uns com os outros em amor. Cooperando para que Jesus seja glorificado.

O Movimento de Restauração nos lembrou de nossas raízes, a igreja apostólica de Jesus. Seus ideais bíblicos trouxeram paz e comunhão em um tempo de guerra, tempo em que luteranos matavam anabatistas, católicos matava protestantes e a Igreja estava dividida. Nossa identidade como discípulos de Jesus está em sermos um, como Ele é um com o Pai.

Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.

(João 17:21)

Não somos os únicos cristãos, mas somos unicamente cristãos.”

 “Nos essenciais unidade, nas opiniões liberdade, mas em todas as coisas o amor.”



[1] Se você tem interesse em conhecer mais entre no site, em fevereiro de 2023 terá mais uma edição desse congresso na cidade de Morrinhos. https://www.instagram.com/umicbrasil/

[2] Com base em: https://missaocristabr.org/parceiros/igrejas-de-cristo/

[3] Não vou entrar nas discussões teológicas sobre esse tema aqui, mas em breve teremos um texto sobre o assunto. Acompanhe as próximas postagens.



segunda-feira, 31 de outubro de 2022

As Mulheres na Reforma Protestante

 

Oh, todo-poderoso Deus, Rei dos reis,
Criador do homem e da mulher!
Tu que deste ao primeiro homem uma
companheira para que a raça dos mortais não perecesse;
Tu que desejaste que a alma proveniente
da humanidade venha a ser a mística
noiva do Teu próprio Filho,
e que fizeste com que Teu divino Filho
desse sua vida por ela;
Oh, derrama paz e bênçãos sobre estes
dois que agora se unem diante de Ti.

(Olympia Morata)



Quando o assunto é Reforma Protestante normalmente os texto e boa parte dos livros de história da Igreja, relatam a trajetória de Martinho Lutero, Calvino e Zuínglio. Fui muito edificada com a vida e legado de cada um desses homens, como também dos demais que são citados em diferentes períodos da história da Igreja. Todavia, me recordo de um ano em que eu estava preparando um jogo para a Escola Bíblica de Férias (EBF) da minha igreja. E lembro que quando estava organizando os cartões com a história dos reformadores e avivalistas, não haviam mulheres para colocar nos cartões. E uma adolescente me perguntou: “E onde estão as mulheres? Elas não tiveram contribuição em tudo isso ou não contaram suas histórias?”

Essa pergunta nunca saiu da minha memória, com o tempo ela cresceu, e meus estudos na área, tanto das mulheres História da Igreja como as mulheres da bíblia se intensificou. Dentro dessas áreas veio também o interesse em pesquisar a respeito do ministério feminino e o papel da mulher, dentro e fora dos limites eclesiológicos[1]. Hoje, aproveitando o mês de celebração da Reforma Protestante vou falar um pouco sobre as mulheres desse período. Com a ajuda de Rute Salviano[2], é claro. Essa professora, doutora, tem resgatado a história das mulheres em diversos períodos da Igreja. Rute mostra que em diferentes eras, com ou sem título e reconhecimento eclesiológico e público, elas participaram ativamente dos avivamentos, reformas e da edificação da Igreja; com uma fé simples e testemunho irrepreensível.


As pregadoras, que usavam a pena e a voz

Uma das frentes mais criticadas, até os dias de hoje, por muitos reformadores e membros do clero, era atuação das mulheres na exposição pública das Escrituras. Um dos principais nomes dessa ala de mulheres foi, Maria Dentière (1495-1561). Nascida na Bélgica e introduzida à vida religiosa desde muito cedo. Ao ter contato com os escritos reformados abandonou o convento agostiniano, casou-se com um ex-padre (Simon Robert), tornou-se uma dedicada estudante das escritura, aprendeu hebraico e auxiliava seu esposo na tradução de textos bíblicos.

Dentière levantou a bandeira em defesa da mulher no ministério da pregação pública das Escrituras. Para a reformadora, o sacerdócio universal de todos os crentes incluía as mulheres. E se elas tivessem acesso à Bíblia, poderiam interpretar e pregar a mensagem evangélica da salvação. Dentiére ensinava que a mulher poderia buscar sua identidade por meio do conhecimento das Escrituras.

“Portanto, se Deus deu graça a algumas boas mulheres, revelando a elas, por meio de suas Sagradas Escrituras, algo santo e bom, devem elas hesitar em escrever, falar e declarar umas às outras por causa dos difamadores da verdade? Ah, seria muito audacioso tentar detê-las, e seria muito insensato escondermos o talento que Deus nos deu, nós que temos a graça de perseverar até o fim.”

Os escritos de Dentière, incentivava outras mulheres na escrita e nos estudos teológicos. Infelizmente, a reformadora sofreu censura e perseguição não somente por parte dos católicos de sua época, mas também na ala protestante. Seus trabalhos foram suspensos e suas obras foram impedidas de serem publicadas, pelo conselho de Genebra. Contudo, Dentière não se calou, ela perseverou até o fim.

Olympia Morata (1526-1555), italiana, erudita cristã, fruto da Reforma. Foi a primeira mulher a ser convidada para lecionar grego e latim em uma universidade, mas foi impedida por questões de saúde. Desde cedo foi considerada uma garota prodígio, era chamada de “a mulher mais culta da Europa”. Ela frequentava debates acadêmicos, apresentava preleções e era apreciada por sua eloquência. Morata teve uma conversão genuína e promoveu a Reforma por meio de seus escritos – poemas e cartas que continham suas descobertas bíblicas. Faleceu muito jovem, aos 29 anos, mas completamente transformada.


As esposas, mães e teólogas.

Nessa categoria, nos últimos anos temos visto muitos trabalhos e livros sobre Catarina Von Bora, a esposa de Lutero. Mulher de qualidades singulares, o trabalho de suas mãos e a devoção de seu coração nunca serão esquecidos. Todavia, gostaria de ressaltar aqui, nesse pequeno texto, outros nomes, também importantes para a Reforma Protestante.

Catarina Zell (1497-1562), esposa de Mateus Zell. Mateus era padre quando começou a pregar a justificação pela fé. Ele tinha o desejo de renovar a igreja. Como suas mensagens começaram a causar agitação, o arcebispo de Roma o proibiu de subir ao púlpito novamente. Todavia, ele continuou a evangelizar multidões, e a maioria de seus ouvintes acolheram a fé protestante. Entre as multidões que ouviam Mateus Zell, estava Catarina, foi assim que se apaixonaram e casaram. Eles se tornaram parceiros de ministério, algo notável para a época. Juntos, pastoreavam, acolhiam refugiados, ajudavam necessitados e visitavam os doentes, presos e moribundos.

Além da perseguição dos irmãos católicos, Catarina foi, também, perseguida e criticada pelos líderes luteranos. Na visão deles, ela queria tomar o lugar do marido. Pois além de mãe e esposa, ela tinha aptidão para a escrita, teologia e pregação pública. Catarina era ousada e dava sua opinião sobre o que Igreja deveria ou não fazer em determinadas situações (posição reservada aos homens). Isso causou alvoroço em sua época.

Idelette de Bure (1507-1549), a esposa de João Calvino. Pouco citada na história, mas foi de grande importância no ministério do reformador. Ela era viúva de um pastor anabatista. Após o falecimento do esposo, Idelette casou-se com Calvino em 1540. O trabalho de uma esposa de pastor não era fácil. Idelette tinha um encargo semelhante ao de Catarina Von Bora: hospedar estrangeiros e alunos de seu marido, aconselhar e orar pelos outros, e muitas outras atividades. Calvino a chamou de: “excelente companheira e fiel assistente no ministério”.


As rainhas que acolhiam reformadores

Margarida de Navarra (1492-1549) foi uma delas, irmã do rei da França, Francisco I, e depois rainha do reino de Navarra[3]. Era conhecida por sua caridade e bondade. Tinha um talento nato para a erudição, estudou italiano, espanhol, latim, grego e hebraico. Foi influenciada por Lutero e Calvino, e trocava correspondências com o último. Quando tornou-se rainha de Navarra, abrigou muitos reformadores, como o próprio Calvino. Poetas, filósofos e escritores foram alvos de sua benevolência. Ela fez de seu território um refúgio para pobres, perseguidos e oprimidos da Europa. Entre seus muitos escritos e poesias, o mais conhecidos deles foi uma ficção chamada: “L’Heptaméron” (O Heptameron). Um conjunto de contos que, através do diálogo dos personagens, mostrava preocupação com a ética, amor, amizade, casamento, fidelidade e conflitos entre fé e religião. Essa obra foi uma sábia resposta aos contos imorais de Boccaccio, que na época estavam na moda, na corte francesa.

Renata, princesa da França e duquesa de Ferrara (1510-1574). Renata foi de extrema importância no apoio ao partido protestante, hospedeira de reformadores e auxiliadora financeira. Joana IV, discípula e sucessora de Margarida no reino de Navarra, foi considerada a mulher huguenote mais importante do século XVI.


As mártires, fiéis até a morte

Uma das maiores surpresas que tive ao ler o livro de Rute Salviano, foi conhecer com um pouco mais de profundidade quem foram as mulheres guilhotinadas na Inglaterra por não confessarem a fé católica. O contexto de luta pelo trono entre as herdeiras de Henrique VIII traz essa confusão na cabeça dos que estudam um pouquinho da história inglesa, e nos leva a pensar que o motivo da guilhotina estava atrelado à apenas uma disputa de poder. Todavia, a história nos mostra que a situação era mais complexa.

Quando lemos os relatos históricos da Reforma Protestante na Inglaterra, lembramos apenas de Henrique VIII e sua vontade profana de desfazer seus casamentos e ao mesmo tempo receber a bênção da Igreja. Mas, foi através de Catarina Parr, sua sexta e última esposa, que a nobreza da Inglaterra conheceu a verdadeira fé reformada. Erudita e amante das escrituras, a rainha ficou conhecida por distribuir a bíblia na língua do povo durante seu governo regente (na ausência do marido), em 1543.

A rainha Catarina ficou conhecia pelo “Salão protestante”, uma programação diária de atividades religiosas em seus aposentos. Todas as tardes, ela e suas aias, amigas e outras pessoas se reuniam para ouvir a pregação de um de seus capelães. O Salão protestante promoveu a publicação de obras sacras e a promoção de pessoas cultas. Uma das discípulas de Parr, foi a mártire Anne Askew. Alguns religiosos desse época chamaram esse movimento de “conspiração de mulheres teólogas”. Catarina foi salva da guilhotina por intervenção de seu marido, todavia Askew não teve o mesmo fim.

Anne Askew morreu como herege, por não confessar a fé católica. Até nos últimos instantes antes de morrer, não hesitou em exortar e pregar a verdade do evangelho.

No dia 16 de julho de 1546, aos 25 anos, Anne foi queimada na fogueira. Como resultado de tanta tortura, incapaz de andar, ela precisou ser carregada em uma cadeira até o local de sua morte. Foi presa à estaca pela corrente que a amarrava e executada junto com sete outras pessoas que negavam a transubstanciação.

 

Conclusão

Quando nos deparamos com a história dessas mulheres temos a certeza de que a Reforma Protestante e a Igreja de modo geral, não teria sido a mesma sem a presença e atuação dessas servas de Deus. Cada uma em seu ambiente social, com seus dons e talentos específicos, foram usadas poderosamente pelo Espírito Santo. Essas, são aquelas que tiveram algum registro histórico, todavia, há outras que conheceremos suas histórias na eternidade. As que ficaram no anonimato receberão a recompensa do Eterno.

Ante a tão grande nuvem de testemunhas, lembremo-nos do que o apóstolo Paulo escreveu: “Portanto, meus amados irmãos. Trabalhem sempre para o Senhor com entusiasmo, pois vocês sabem que nada do que fazem para o Senhor é inútil.”.



[1] Da Igreja.

[2] Livro: Reformadoras (Rute Salviano e Jaqueline Sousa)

[3] Região localizada no norte da Espanha, conserva o mesmo nome nos dias de hoje.