terça-feira, 18 de julho de 2023

Falando em línguas

 

Sem dúvida, há diversos idiomas no mundo; 

todavia, nenhum deles é sem sentido.

Portanto, se eu não entender o significado do que alguém está falando, serei estrangeiro para quem fala, e ele, estrangeiro para mim.

(1 Coríntios 14:10-11)




Há entre os teólogos um entendimento diverso a respeito do dom de línguas, apresentado pelo apóstolo Paulo[1], como sendo um dos dons dado pelo Espírito Santo de Deus. Entre os entendimentos, há aqueles que entendem que o dom de línguas trata-se da habilidade de aprender línguas humanas, enquanto que outra parte inclui a língua dos anjos e o falar diretamente com Deus. Entre os muitos artigos e livros sobre a temática, também é discutido o objetivo e propósito desse dom. Todavia, o foco desse texto será a respeito da aprendizagem de novas línguas, humanas, diga-se de passagem.

Desde o ano de 2019, após meu treinamento em linguística, tenho trilhado essa estrada do aprendizado de novas línguas. Até o momento em que esse texto está sendo escrito, me encontro no aprendizado de minha quarta língua. Poderia afirmar que é um dom do Espírito de Deus? Acredito que sim. Mas, para te falar a verdade querido(a) leitor(a), eu não tinha a mínima ideia desse dom ou habilidade antes de 2019. Foi mesmo a necessidade ao responder o chamado de Deus que me fez descobrir esse dom.

Confesso que me sinto iniciante, comparando minha experiência à de outras pessoas que dedicaram suas vidas a essa paixão ou mesmo habilidade. Mas, espero que essas singelas impressões a seguir contribuam para sua perspectiva pessoal e quem sabe te incentive a aprender uma nova língua.

 

Língua e cosmovisão

Um dos filmes mais assistidos pelos linguistas[2] é a obra “A chegada” de Denis Villeneuve. O enredo do filme é basicamente a chegada de habitantes de outro planeta na terra, eles posicionam suas naves nas principais cidades da terra e aguardam por contato. Os governos mundiais acionam suas forças militares e seus melhores especialistas em línguas para saberem o que esses seres desejam. Entre a equipe norte americana estava uma linguista, Dra. Lousie Banks, interpretada por Amy Adams. Ela consegue decifrar a linguagem desses visitantes e se comunicar com eles.

Um ponto interessante no processo da aquisição dessa língua extraterrestre é o que acontece com a personagem, ela passa a ver o mundo conforme esses seres. A língua de modo geral está conectada com a forma que um povo vê o mundo, sua cosmovisão. Portanto, suas concepções de tempo, valores, religião e prioridades estão marcados na língua. Coisa linda, não é mesmo!? Esses visitantes que chegam na terra possuíam uma visão peculiar do tempo, passado, presente e futuro estão interligados de maneira que são parte de uma coisa só. Esse fenômeno acontece com a personagem de Amy Adams, ela começa a ter vislumbres do futuro, pois adquiriu a língua dos visitantes.

Essa é uma ilustração interessante do processo de aquisição de uma língua. Seus horizontes e perspectivas são ampliados, você passa a conhecer e a apreciar coisas que antes não tinham nenhum valor e sentido para você. A aquisição de língua te ensina a respeitar a perspectiva do outro, e o processo árduo e lento podem te levar ao quebrantamento e humildade.

 

Babel, benção ou maldição?

E disse o Senhor: "Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros". Assim o Senhor os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir a cidade. Por isso foi chamada Babel, porque ali o Senhor confundiu a língua de todo o mundo. Dali o Senhor os espalhou por toda a terra.

(Gênesis 11:6-9 NVI)

Um dos problemas que nos deparamos ao lidarmos com os juízos de Deus é a dificuldade de enxergar a beleza de tudo isso. O contexto de Babel é de desobediência à ordem dada por Deus. Logo após a saída da arca, Deus havia ordenado: “Espalhem-se”, e de maneira contrária eles responderam: “Não vamos nos espalhar!”. Deus intervém na rebeldia humana salvando-os de sua própria destruição.

Ao fazer isso Deus age novamente de modo criativo e inteligente. Ele desenvolve um meio de guardar saberes e habilidades, sem que esses mesmos pudessem levar a humanidade a um novo processo de destruição e consequentemente, juízo. A intervenção divina, por meio das barreiras linguísticas foi uma maneira de guardar a humanidade para a plenitude dos tempos, para a vinda do Messias. Como também foi um modo de expressar a diversidade trinitária em mais um aspecto da humanidade.

Outro ponto interessante a se observar é que essas barreiras linguísticas seriam desenvolvidas, de um modo ou de outro. A ordem dada inicialmente por Deus, se obedecida, traria, com o passar do tempo, o desenvolvimento de novos dialetos, e possivelmente novas línguas. Portanto, o que vemos nessa intervenção mais direta é simplesmente a vontade soberana de Deus sendo cumprida e estabelecida.

 

Uma perspectiva trinitária

Um dos pontos interessantes que podemos observar no ser trinitário de Deus é unidade na diversidade. Três pessoas distintas unidas em um só Deus. A humanidade foi dividida em grupos étnico-linguísticos e através da Trindade, na pessoa do Espírito Santo, foi reconciliada em um único corpo, a Igreja. Tanto na igreja primitiva, expressa no relato de Atos dos Apóstolos, quanto diante do Trono de Deus essa diversidade linguística e étnica será preservada. Seremos apenas um povo, mas ricos em línguas e expressões culturais.

Em Deus não teremos barreiras linguísticas ou culturais, mas ao mesmos tempo usaremos nossos artefatos culturais e linguísticos para louvá-lo e glorifica-lo. Nossa adoração será plural, rica e bela, pois teremos povos de todas as etnias e grupos linguísticos adorando Aquele que se assenta no Trono do universo. Essa cena foi vista pelo apóstolo João (Apocalipse 7), e tem sido uma realidade à cada novo crente que se torna parte da família de Deus, à cada Bíblia traduzida e a cada igreja plantada nos lugares mais distantes da terra.

Da mesma forma que Deus repartiu com os membros do Corpo de Cristo, diversidades de dons e talentos, Ele também repartiu a beleza de Seu próprio ser nas línguas e culturas da terra. Não estou desconsiderando aqui as consequências da queda e do pecado. Todavia, quero afirmar que da mesma forma que o pecado teve consequências cósmicas e transcendentes, a restauração de todas as coisas que está por vir, será também cósmica e completa. Línguas e culturas serão usadas para a restauração da terra e glorificação do nome de Deus.

 

 



[1] I Coríntios 12

[2] Tive contato com essa produção durante o Curso de Linguística e Missiologia (CLM), oferecido pela missão ALEM em Brasília.



sexta-feira, 16 de junho de 2023

O nome de Deus

 

Aleluia! Louvem, ó servos do Senhor, louvem o nome do Senhor!

Seja bendito o nome do Senhor, desde agora e para sempre!

Do nascente ao poente, seja louvado o nome do Senhor!

O Senhor está exaltado acima de todas as nações; e acima dos céus está a sua glória.

(Salmos 113:1-4)



Após o dilúvio os povos se distanciaram do Deus Criador e escolheram o caminho da independência, como Adão e Eva no Éden. A adoração ao Criador, ao único e verdadeiro Deus, é transferida para a criação. Quando Deus escolhe Israel como sua porção entre as nações da terra Ele tem como objetivo que Seu povo fosse diferente dos demais. Os povos que rodeavam Israel, durante todo seu processo de formação nacional, tinha essa característica de culto a divindades inferiores. Seres que poderiam ser manipulados e “controlados” por meio da magia.

Podemos ficar assustados quando ouvimos a palavra magia, pois ainda a relacionamos à bruxaria. E essa última temos alguns estereótipos adquiridos por definições e conceitos oriundos da Idade Média, muitos deles equivocados. Todavia, magia nada mais é do que manipulação por meio de palavras. Usar rituais repetidos e palavras bem ordenadas para receber a benção da divindade. E entre essas palavras importantes, o nome da divindade estava entre elas. O nome do ser adorado era um meio de controle e limitação do mesmo.

Esse é o contexto que Israel vivia quando Deus os tira do Egito e os constitui como nação. Esse é o contexto quando Israel peregrina pelo deserto e se estabelece em Canaã. No Sinai, quando Deus renova com seu povo a aliança estabelecida com Abraão, um pedido de exclusividade é feito. Deus mostra para o mundo o caminho de volta para adorar o Criador do universo. O Deus que não pode ser controlado ou manipulado. Deus ensina a humanidade o caminho de volta à adoração, o propósito para o qual fomos criados.

É interessante perceber como Deus foi didático ao dar a seu povo Os dez Mandamentos. Dez, a quantidade de dedos que temos nas palmas de nossas mãos. Percebemos também Deus usando o visual (Deuteronômio 6:8-9) e a repetição como meio dos pais ensinarem a seus filhos (Deuteronômio 6:7)[1], ao mesmo tempo que esses mesmos pais se lembravam e temiam ao Senhor. Quando lemos o conteúdo do decálogo podemos afirmar que este é uma expressão do caráter do Eterno.

 

O que significa tomar o nome do Senhor em vão?

Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. [...] Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. [...] Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás [...].

(Êxodo 20:3-17)

Talvez a primeira vez que você tenha lido o texto de Êxodo 20 você possa ter ficado um pouco confuso em relação ao número de mandamentos, mas se você observar com cuidado vai visualizar 10. Perceba a genialidade de Jesus em resumir lei em “apenas” dois mandamentos, os três primeiros mandamentos estão relacionados a amar ao Senhor com todo coração, mente e força, enquanto os outros sete estão relacionados à amar nosso próximo como a nós mesmos. O sábado, o quarto mandamento, pode ser visualizado como uma intercessão entre o amor à Deus e o amor ao próximo[2].

Voltemo-nos para a questão que direciona essa postagem, o que significa usar o nome de Deus em vão? Seria tomar cuidado com nossas expressões culturais como: “Aih meu Deus! / Nosso Deus!”[3]. Ou isso estaria relacionado com questões mais profundas do nosso coração, tanto no passado como no presente? Veja o que Geerhardus Vos diz sobre isso:

A palavra é um dos principais poderes na superstição pagã, e a mais potente forma de palavra mágica é o nome mágico. Cria-se que mediante a pronúncia do nome de alguma entidade sobrenatural, essa podia ser compelida a fazer de acordo com as ordens de quem está fazendo uso da magia. O mandamento aplica a desaprovação divina de tais práticas especificamente com o nome “Yahweh”. “Tomar” significa pronunciar. “Em vão” literalmente lê-se “para vaidade”. Vaidade é um termo bem complexo no qual as ideias do irreal, do enganoso, do decepcionante e do pecaminoso se misturam.

O que Vos está dizendo é basicamente como funciona a maior parte das religiões do mundo, tanto no passado como no presente. E como esse estilo de se relacionar com o divino influenciou, e ainda influencia, religiões monoteístas como o judaísmo e o cristianismo. O fiel usava o nome da divindade para manipular e controlar essa divindade afim de satisfazer suas próprias aspirações e desejos. A relação com os deuses sempre foi de apaziguar a ira, afim de receber dos mesmos bênçãos e prosperidade. Todas as religiões animistas ou com raízes greco-romanas possuem similaridade nessa relação.

Essa era a configuração religiosa dos povos vizinhos do antigo Israel, e o que Deus está mostrando no Sinai é basicamente o seguinte: “Eu sou Deus, não sou como os outros ídolos (deuses) que podem ser manipulados. Eu não vou fazer o que vocês querem, mas o que eu quero, da minha maneira”. Essa é a diferença do Deus criador, Aquele que vive fora do tempo.  Talvez ficamos assustados quando falamos sobre bruxaria e magia, mas veja a explicação de Geerhardus Vos:

Magia é a reversão pagã do processo da religião, na qual o homem, em vez de se deixar ser usado por Deus para o propósito divino, reduz seu deus ao nível de uma ferramenta, a qual ele usa para o próprio propósito egoísta. Magia é cheia de superstição e, de certo modo, cheia do que tem a aparência de sobrenatural, mas é vazia da verdadeira religião. Em razão de que ela não tem o elemento da autocomunicação divina objetiva vinda do alto, ela tem a necessidade de criar para si mesma meios materiais de coerção que farão que a deidade cumpra sua ordem. Em função da natureza do caso, esses instrumentos de coerção mágica se multiplicarão indefinidamente.

Nessa perspectiva, podemos analisar e nos arrepender do ensino de muitas igrejas a respeito do “Nome de Jesus” e de orações que “ordenam / comandam” alguma coisa. Precisamos pensar se não estamos transformando o Deus criador em nosso ídolo, conforme nossa imagem e semelhança. Parece herético dizer isso, não é mesmo? Todavia, muito dessas “teologias” presentes nas pregações de nossas igrejas estão misturadas com esses conceitos de magia, paganismo e idolatria.

 

Do judaísmo do Segundo Templo[4] ao cristianismo atual

Um ponto importante a respeito dessa hermenêutica (interpretação) do terceiro mandamento, que proíbe a pronuncia do nome de Deus, tem raízes no judaísmo do Segundo Templo. A religião judaica que temos no período de Jesus é fruto desse período Pós-exílio. Israel passou por seu período de consolidação como nação, a partir do monte Sinai, o período dos juízes e reis, e em todos esses períodos vamos perceber um processo de queda e reconciliação com o Senhor. Deus propõe um relacionamento completamente diferente do paganismo, mas Israel traz o paganismo pra dentro de seus cultos, consequentemente o juízo de Deus vem sobre o povo. Para trazer o povo de volta Deus sempre prepara um juiz, profeta ou rei, afim de restaurar o culto e a adoração. Esse é um singelo resumo dos livros de Josué à Reis.

Após o exílio temos um desejo de fé purista e de culto exclusivo à Yahweh, iniciado com Esdras, todavia, isso, mais tarde, se desemboca em uma religiosidade vazia e sectária[5]. Foi dentro desse período que o não pronunciar o nome de Deus tornou-se sinônimo de cumprimento ao terceiro mandamento. Todavia, o que Deus estava querendo comunicar à seu povo desde o evento da sarça ardente era: “Eu sou o Eterno! Vocês não podem me limitar nem me manipular! O meu nome é Eu sou o que sou e sempre serei![6]”. Deus não é, e nunca será nosso ídolo[7].

 

Conclusão

Portanto, usar o nome de Deus em vão poderia ser definido como usar o nome de Deus em interesse próprio. Falar que Deus está falando quando na verdade é você que está falando. Deus chamou Israel e a igreja para se relacionarem com o Deus verdadeiro. O Deus que não se encaixa em nenhuma categoria de classificação e descrição. A história mostra que tanto Israel como a Igreja se perderam ao logo do caminho em sincretismos e idolatria. Se desejamos servir ao Senhor da maneira que Ele se revelou, precisamos nos voltar para às escrituras, entendendo que Cristo é suficiente.

 

 



[1] E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas. (Deuteronômio 6:6-9)

[2] Desenvolverei essa ideia em um outro texto.

[3] Quando participamos de um ambiente Católico Romano usamos o nome de Maria, o brasileiro entende muito bem esse costume.

[4] Termo usado para a religião judaica que se configurou após o exílio babilônico e se desenvolveu até os dias de Jesus.

[5] As mais conhecidas no período de Jesus: Fariseus, Saduceus, Essênios e Zelotes.

[6] Êxodo 3:14

[7] Alexandre Miglioranza tem um livro com um título parecido: “Deus não é o seu ídolo” - Editora Mundo Cristão. Recomendo.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Falemos sobre o Racismo

 
Então pare, pense um pouco no que disseram
O racismo não afundou com os navios negreiros
Quebraram os grilhões, mas as algemas permaneceram
Quem tem cruz na casa grande
Não entra na casa de um carpinteiro.

(Cabelo bom – Luz)


Fonte: Encyclopedia Britannica

Uma das coisas que mais me impactou quando andei, pela primeira vez, pelas prateleiras dos supermercados em Senegal foi ver a quantidade de clareadores de pele à venda. Até então, tinha me deparado apenas com os produtos nas prateleiras, mas haviam outdoors espalhados pela cidade, recomendando os clareadores de pele como meio de se tornar belo. Quanto mais clara sua pele, mais bonito você será.

Já havia percebido no comentário de muitas mulheres guineenses, ao elogiarem a minha pele, esse equívoco a respeito da beleza. Achava que a herética teologia da “maldição de Cã” havia sido superada até me deparar com uma questão feita por um dos meus alunos de Princípios de hermenêutica bíblica, em meu primeiro ano de campo transcultural: “Mayara, porque a África foi amaldiçoada? Estamos pagando por alguma coisa?”. Na hora meu sangue ferveu de raiva[1]! Mas, eu simplesmente respondi que aquilo era um equívoco, e que ele não deveria pensar daquela forma.

É doloroso entender que essa maneira de pensar é resquício da colonização, e mais doloroso ainda é saber que a igreja teve participação nisso, com seus muitos equívocos teológicos. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude a não cometer os mesmos erros de nossos avós.

O tema do racismo é pauta importante entre nossos pecados a serem confessados e abandonados diante de Deus. A Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo é relevante quando não ignora o sofrimento dos nossos irmãos negros, que sofreram e ainda sofrem por conta da cor de suas peles. Assim como você se compadece pelo povo judeu que sofreu e continua sofrendo por serem quem são, precisamos nos compadecer daqueles que sofrem diferentes tipos de racismos.

Para essa reflexão, gostaria de usar aqui algumas partes do livro de Jacira Monteiro, uma escritora guineense que cresceu no Brasil, e também recomendar a você a leitura desse  mesmo livro. Uma obra robusta tanto em teologia quanto contexto histórico-social.

 

O estigma da Cor

No livro “O estigma da Cor” Jacira Monteiro mostra como o racismo fere os dois grande mandamentos deixados por Cristo[2]. Nos primeiros capítulos, a autora traz reflexões a respeito da escravidão, colonização e a chancela da igreja dada por meio de teologias equivocadas. Da mesma forma que tivemos linhas teológicas nos séculos XV e XVI, que afirmavam que a população negra não era “ser humano” (não possuíam alma), também tivemos linhas teológicas no século XX que apoiavam a eugenia e o nazismo[3]. Nosso pecado como igreja perpassa gerações, e como citei na introdução desse pequeno artigo, as consequências desses pecados está diante de nossos olhos hoje!

No capítulo quatro, da obra, Jacira traz a importante temática sobre a mulher negra. Ela começa abordando a respeito dos estereótipos de feminilidade[4], criados a partir de outra teologia equivocada, em como ele não se encaixa nas mulheres negras que fazem dupla ou tripla jornada de trabalho. Mulheres que não são delicadas ou frágeis, mulheres que cresceram e crescem sobrevivendo.

No capítulo cinco temos um apelo importante para os irmãos brancos não serem como Caim’s, para não ignorarmos a dor dos nossos irmãos que sofrem. Esse capítulo tem a maioria das citações que grifei, muito profundo e confrontador. A autora traz o tema da indiferença da igreja ante as estatísticas de morte, violência e restrições de direitos impostas à população negra. Jacira expõe a ferida e nos convida a pedirmos perdão por nossa falta de amor.

Há pelo menos duas formas de perceber a perversidade de Caim ainda nos tempos atuais. A primeira forma é observar o ciclo de violência que perdura ao observar as guerras e conflitos individuais e sistemáticos. A segunda é observando a atitude dissimulada do Caim de fugir da responsabilidade de cuidado para com seu irmão, quando diz para Deus que não é o guarda ou protetor de seu irmão. [...] Vidas negras importam! O grito que assusta os Caim’s, que acreditam no justo oposto dessa máxima. [...] Vidas negras importam porque Cristo disse e não porque um movimento social disse, e com franqueza, preciso dizer mais uma coisa, é irracional falar que TODAS AS VIDAS IMPORTAM, em contra partida a VIDAS NEGRAS IMPORTAM. O grito “Vidas negras importam” é para o despertamento de uma sociedade surda e que invisibiliza pessoas negras para que entendam, valorizem e deem dignidade às vidas negras quanto já dão às vidas brancas. (GRIFO MEU)

O capítulo seis da obra tem como temática o perdão e incentivo ao pacifismo. A autora faz menção ao príncipe T’Challa, interpretado por Chadwick Bossema, em Pantera Negra (meu herói preferido da Marvel)[5] e Martin Luther King Jr., como exemplo de caminhos a seguir na luta contra o racismo. No último capítulo Jacira faz uma importante consideração a respeito das missões transculturais, dentro do campo da missiologia. E por fim, ela traz estratégias práticas para a igreja trabalhar a questão do racismo dentro e fora de suas mediações.

 

A beleza

Comecei falando sobre beleza e seus equívocos. Não vou desenvolver esse conceito aqui, mas apenas fazer uma pequena consideração. Quando olhamos para o texto bíblico e suas descrições a respeito da beleza, a primeira coisa que podemos observar é a beleza do Criador. Os salmos descrevem a beleza de Sua santidade e caráter. Em Apocalipse podemos ver os seres que habitam a presença de Deus contemplando a beleza daquele que está assentado no trono.

Em sua criação, Deus fez questão de deixar Sua marca registrada, tanto em relação à beleza quando à diversidade. E com os seres humanos não foi diferente, ele colocou dentro de cada HD genético a capacidade de multiplicar seres diversos, belos para a Sua própria glória. Portanto, quem somos nós para chamar de feio ou inferior aquilo que Deus criou conforme Sua própria beleza e essência?

Eu não preciso ser branca para ter valor, ninguém que é não branco precisa. Se Deus quisesse tudo igual, Ele não teria feito tudo diferente. Há beleza em tudo que o Senhor fez, ao fim de sua criação Ele disse que tudo era muito bom. Então, não ouse chamar de ruim o que o criador chama de muito bom! O negro é lindo! A cor das pessoas negras é linda! As expressões culturais das pessoas negras são profundamente ricas e belas. O nosso black é lindo, assim como nossas tranças também. O nosso nariz largo é lindo, nossos lábios grossos são lindos. As nossas individualidades, o que nos faz ser negros é lindo! Pois foi Deus mesmo quem, a partir de sua graça criativa, fez dessa forma.

(O estigma da Cor – Jacira Ribeiro)

 

Conclusão

O caminho para vencermos o racismo como igreja é confessarmos esse pecado, assumindo nossos pensamentos e atitudes erradas para como nossos irmãos. Confessemos também nossa indiferença, o tempo em que ignoramos a dor do outro e fingimos que nada estava acontecendo. O caminho do livramento é assumirmos, em todos os nossos relacionamentos, a atitude de Jesus, considerando os outros superiores a nós (Filipenses 2:3[6]); trazendo sempre à memória que somos parte de um mesmo corpo, e quando uma parte do corpo sofre, todo o corpo sofre também (I Coríntios 12:26[7]).

 



[1] De quem tinha produzido aquela teologia, e daqueles que a fizeram proliferar. Dos anos de escravidão e colonização. Da injustiça! Tantos anos em que esse continente foi roubado em suas riquezas e oportunidades de desenvolvimento, tantos anos de roubo justificados por um teoria tão simplista e absurda! Completa barbárie!

[2] Mateus 22:34-40

[3] Leia o texto: “Hegel, a teologia liberal alemã e os regimes totalitários”. Você pode encontra-lo aqui nesse Blog, acessando a página principal.

[4] Esse é um tema importante dentro da temática “Mulher”, independentemente da cor da pele.

[5] Olha que a autora que vos fala nem é fã de filmes assim.

[6] Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.

[7] De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.


sábado, 8 de abril de 2023

Celebrando o Messias na Páscoa


Lembre-se de quem bebeu do fel amargo de uma taça [...]
Lembre-se de quem nos deu o próprio sangue como um selo
Que homens vem e vão, mas Ele permanece eternamente
Que Aquele que desceu, é o mesmo que
subiu e que nos levará para sempre.

(Eu vou me lembrar – Banda Resgate)

 

Rogier Van Der Weyden

A Páscoa é uma das festas judaicas que rememora de modo completo todo o Plano de Redenção do Senhor para a humanidade. O livro de Êxodo, em forma simbólica e nacional, contém todo o desenrolar desse plano de Deus, de salvar e restaurar todas as coisas. Podemos ver (a partir da leitura do livro) tudo acontecendo de modo micro, por meio do povo de Israel e o cordeiro pascal sendo imolado para salvação dos primogênitos. E “logo em seguida”, nos dias de Jesus, vemos o cumprimento em proporção macro, a humanidade sendo redimida por meio do sacrifício do Cordeiro perfeito. Além do ponto da redenção, também observamos o viés escatológico presente na Páscoa e no Êxodo. Todas as etapas de juízo, redenção, livramento do povo de Deus, tabernaculação e ressurreição estão presentes na celebração da páscoa.

É claro que essa visão completa só nos é permitida por meio de Jesus. Não podemos cair no anacronismo de afirmar que os primeiros israelitas, que celebraram a Páscoa, enxergaram o quadro completo da história da redenção. Mas, podemos perceber a tipologia presente em todos os elementos dessa celebração, como também no enredo da peregrinação pelo deserto até a chegada na Terra prometida.

O contexto em que a celebração da Páscoa foi instituído por Deus, através de Moisés, era de transição. O período em que Deus derramaria a última das dez pragas sobre o Egito, a morte dos primogênitos. O coração de Faraó estava endurecido, mesmo após todos os juízos já derramados. Uma nação às portas da liberdade, mas aprisionados pela mentalidade de 400 anos de cativeiro. A semente de Abraão, o povo da promessa, presenciando todas as maravilhas do braço forte e soberano do Senhor movendo em favor de Seu nome. O pacto da graça estava se desenrolando.

O Cordeiro pascal – Deus protege seu povo

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

João 1:29

Há um aspecto interessante em Êxodo 6:6-7[1], o verbo traduzido com “adquirir” ou “resgatar” aponta para uma transação comercial, o comprador paga o preço para se tornar dono daquilo que foi adquirido. É isso que acontece na Páscoa, Deus paga o preço (o Cordeiro) para adquirir Israel, seu primogênito. Isso coloca Deus em uma posição mais ativa da história. Ele poupa os primogênitos daqueles lares israelitas, por meio do cordeiro. E mais tarde ele derrama seu próprio juízo em si mesmo, pagando o preço por sua Igreja, composta por judeus e gentios (o verdadeiro Israel de Deus).

É claro que vamos ver a exortação e o juízo de Deus começando por sua casa (Israel e Igreja), mas são situações diferentes. Podemos observar isso por meio do profetismo no antigo Israel, em tempos de idolatria e corrupção os profetas relembravam o povo a respeito da Aliança no Sinai e os chamava ao arrependimento. Caso não houvesse uma resposta positiva, as consequências eram inevitáveis (cerco, morte e exílio). O mesmo observamos no livro de Apocalipse, os capítulos 2 e 3 apresentam exortações severas à Igreja do Senhor. É uma oportunidade de lembrarmos onde caímos e voltarmos a amar ao Senhor.

No Dia do Senhor, e os anos que precederão seu retorno, Deus fará separação entre a Igreja e aqueles que rejeitaram o Cordeiro. O juízo virá sobre a terra, mas como no Egito, Deus fará separação entre os justos e injustos.

 

O Juízo sobre os incrédulos

Um dos aspectos que muitas vezes nos passa despercebido, quando lemos o livro de Êxodo e a narrativa da primeira Páscoa, é seu viés escatológico. Dan Juster, em seu livro “Páscoa”[2] mostra o paralelo presente entre o livro de Apocalipse e o livro de Êxodo. As pragas, quando são colocadas de modo paralelo às Trombetas, mostram-se muito semelhantes. Como também, a separação feita entre os que creem no Cordeiro e os que não creem (Êxodo 8:22-23 / Apocalipse 7:3).

Deus derramou juízo sobre aqueles que se recusaram a crer no sangue do cordeiro pascal. Jesus veio e recebeu a ira de Deus na cruz, em favor de todos aqueles que creem. A ira de Deus foi derramada sobre o Servo sofredor, para que por meio dele tivéssemos vida. Ele abriu um novo e vivo caminho para o Pai, e assim podemos ter paz com Deus. Todavia, em sua segunda vinda, o juízo será derramado sobre aqueles que se recusaram a crer.

 

A ressurreição dos Mortos

“Somente onde há sepulturas, há ressurreição.” (Karl Barth parafraseando Nietzsche)

Um ponto novo que a Páscoa apresenta, por meio de Jesus, é a vitória sobre a morte. A salvação em Jesus é apresentada de modo completo. A ressurreição de Jesus mostra à seus discípulos que mesmo que seus corpos sejam queimados, torturados, crucificados e enterrados, um corpo de glória, completamente incorruptível, os espera. Jesus foi o primogênito na ressurreição, e todos aqueles que creem terão o mesmo fim. Essa é a esperança da nossa salvação.

Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?

 (1 Coríntios 15:55)

Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele.

(1 Tessalonicenses 4:14)

 

Esse aspecto escatológico da ressurreição é maravilhoso e fundamental para o fortalecimento de nossa fé e espera. Todavia, viver uma vida ressurreta é tão importante quanto. Eugene Peterson em seu livro “Vivendo a ressurreição[3]” nos apresenta esse importante detalhe a respeito da ressurreição dos mortos. Participar da mesa, saboreando a comida, viver o shabbat, trabalhando e descansando, são realidades de quem experimentou Jesus e sua ressurreição.  

Estamos aqui para dar testemunho sobre a fonte da vida, para falar como ela se desenvolve e como fazemos para ingressar nela. E protestaremos quando observarmos que nossa linguagem e forma de perceber a vida estão se desligando do Deus vivo, entrando num processo de degeneração ou desintegração que as transforma em conversa sobre Deus, em conversa sem vida. [...] Participamos da vida e é dela que testemunhamos, mas estamos cercados pela morte, que nos ameaça.

(Eugene Peterson)

Conclusão

A páscoa revela o coração de Deus ao mundo. A ordem do Senhor ao povo de Israel de observar a Páscoa como memorial perpétuo demonstra seu desejo de garantir que seu povo continue a contar sua história de redenção às gerações futuras. Atualmente, Deus está usando a igreja composta de seguidores judeus e gentios de Jesus, “um novo homem” (Ef 2:15), para contar essa mesma história. (Cathy Wilson[4])

Sou cristã de tradição evangélica, não seguimos um calendário litúrgico, nem temos muitos símbolos físicos para nos fazer lembrar de nossa fé. Todavia, a história da Igreja, com sua diversidade de tradições nos dá meios criativos para cumprirmos Deuteronômio 6:7. Celebrar é fazer memória, é ensinar para si mesmo, para seus filhos e netos. Por mais que o secularismo e o mercado tentem nos fazer perder o foco, é necessário contar histórias, e reconta-las todos os anos. Para que Cristo sempre tenha preeminência.



[1] Capítulo de Robert Walter – O Messias na Páscoa. / Portanto dize aos filhos de Israel: Eu sou o Senhor, e vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios, e vos livrarei da servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos. E eu vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas dos egípcios; (Êxodo 6:6,7)

[2] Disponível pela editora Impacto publicações.

[3] Disponível pela editora Mundo Cristão.

[4] O Messias na Páscoa – Darrell L. Bock e Mitch Glaser


quinta-feira, 9 de março de 2023

Até que Tenhamos Rosto

 



A maior de todas as ciências é
Conhecer-se a si mesmo. Porque quem conhece
A si mesmo conhecerá também a Deus.
(Clemente de Alexandria)

 

Disponível no Museu do Louvre - Paris (Fonte: Instagram do Louvre)

 

Não sei se alguma vez você já leu o mito grego de Eros e Psique, ou ao menos ouviu falar sobre. A primeira vez que tive contato com esse mito, foi no ensino fundamental através de uma literatura infato-juvenil chamada: “Viagem ao reino das sombras”[1]. Trabalho curricular da nossa querida professora de português, Edina. Recordo-me que foi uma leitura que me agradou bastante na época.

O mito consiste na história da filha mais nova de um rei que nasce com uma beleza incomum. A beleza da jovem é tamanha que desperta a inveja de Afrodite[2]. Esta, incube seu filho Eros[3] a lançar uma maldição sobre a jovem, todavia, o plano da deusa sai pela culatra. Quando Eros vê a garota, fica perdidamente apaixonado, e decide trazê-la para seu palácio celestial no topo de uma montanha. Ali a jovem Psique vive um romance com Eros, com a condição de que ela nunca visse seu rosto. O conflito está no momento em que as irmãs de Psique vão até a montanha, veem o palácio e sentem inveja dela, assim a induzem a usar uma lamparina para ter a certeza de que o amante era humano, e não um monstro.

C. S. Lewis, em sua versão desse mesmo mito, traz a perspectiva da irmã mais velha. A irmã "feia" que na verdade criou Psique como sua filha. O enfoque da obra não se encontra no romance da garota com o deus, ou na crueldade de Afrodite, nem mesmo no esperado final feliz que o casal supostamente teve, mas sim, em como somos capazes de viver uma vida sem rosto. Seres incapazes de olhar para o espelho, insatisfeitos com a própria vida por causa do outro. Fazendo do outro nosso adversário ou objeto que atrapalha a felicidade.

Há uma semelhança na atitude de Eros e da irmã de Psique, ambos escondem sua identidade (seus rostos), um por meio da escuridão a outra por meio de um véu. Uma perfeita ilustração da fuga do: “Conhece-te a ti mesmo”, e um incentivo à filosofia do “Hakuna Matata[4]”, esqueça os seus problemas. É mais fácil fugir que encará-los.

 

Cristo e Eros

No mito, o deus Eros esconde seu rosto da amada, pois tinha medo da cólera de sua mãe, Afrodite. Ele havia recebido a ordem de amaldiçoar a mortal, mas seu desejo era transforma-la em imortal, pois se afeiçoou àquele ser. Jesus vem ao mundo e mostra o rosto de Deus à humanidade. Ele não esconde seu rosto, pois estava em parceria com o Pai para juntos abençoarem aos mortais, dando-lhes vida eterna (imortalidade). O Deus da Bíblia é o Deus que se revela, e não o que se esconde. Ele deixa claro em todo o decorrer da narrativa bíblica que Ele quer ser conhecido, em todas as gerações.

Outro ponto interessante no romance entre o deus e a mortal, é que segundo o mito Psique faz sua própria jornada ao reino dos mortos a fim de salvar-se. Não é Eros que resgata ou salva sua amada, mas através de seus próprios esforços a amada ganha seu direito no panteão dos deuses. Na história da redenção, vemos o contrário, Cristo fazendo a jornada ao inferno para resgatar sua amada (Igreja) da condenação eterna.

O ser humano sempre será incapaz de salvar a si mesmo. As escrituras afirmam:

Todos pecaram e não conseguem alcançam o padrão da glória de Deus.” (Romanos 3:23)

Como sou miserável! Quem me libertará deste corpo mortal dominado pelo pecado?” (Romanos 7:24)

É exatamente esse ponto que diferencia o Cristianismo de todas as demais religiões. Os seres humanos estão sempre tentando salvar a si mesmos, por meio de boas ações que são contabilizadas. Os ensinos atuais dentro das ciências sociais e psicológicas é a mesma do mito de Psique: “Salve-se a si mesmo”. Você não precisa esperar por um salvador, pode ser que ninguém venha. Você é o protagonista de sua própria história! Você é a parte mais importante. Você não precisa que um príncipe venha para te salvar, salve-se a si mesma[5]!

Percebe como são discursos parecidos, e que hoje está na boca de muita gente? Tem muita religiosidade onde achamos que “não tem nada a ver”. Não há nenhum tipo de ensino neutro! Precisamos estar conscientes dessa verdade para não nos comprometermos com narrativas que nos distanciam do evangelho.

 

A irmã de Psique

Lewis traz a releitura do mito por meio da narração da irmã mais velha de Psique. Orual, rainha de Glome. A narrativa contempla a infância de Orual e sua outra irmã, e logo depois a chegada de Psique, meia irmã de ambas. O rei de Glome, pai dessas três meninas, é descrito como rude e muito violento. Após a morte deste, Orual passa a governar o país, com a ajuda do chefe do exército, Bardia.

O ponto interessante são as crenças de Orual a respeito dos sentimentos que nutre pelos outros e a respeito de si mesma. Como citei anteriormente, ela faz uso de um véu afim de esconder sua “feiura”. E dentro de todo o desenrolar da vida dessa rainha, seus ressentimentos como mulher – por não ter se casado e nutrir afeição por Bardia – e mãe[6], Lewis nos mostra como é possível viver uma vida enganados a respeito de nós mesmos.

O autoconhecimento é um processo que só é possível por meio do conhecimento do nosso Criador, a partir da perspectiva de que todo nosso ser caiu e necessitamos de salvação. O conhecer a si mesmo precisa de consciência do pecado e suas consequências. Nos sentimentos que chamamos de amor, por exemplo, muitas vezes os confundimos com posse, controle e manipulação.

 

[...] o conhecimento do cristão não se reduz ao entendimento de que Deus existe e é todo-bondoso e todo-poderoso. É preciso ir além, ou seja, é necessário também aprofundar o conhecimento de Deus e suas implicações para o autoconhecimento. A maravilhosa bênção que a revelação divina reserva para aqueles que a conhecem é a grande descoberta de que o Deus das Escrituras revela ao homem não somente o verdadeiro Deus, mas também o verdadeiro homem.

(Inteligência Humilhada – Jonas Madureira)

 

O significado de Psique

No grego clássico a palavra Psique refere-se à alma, ao conjunto de emoções, intelecto e vontade. Os gregos, por meio da escola de Platão, tinham uma perspectiva dual da vida e do seres humanos, a parte material e a parte imaterial. Uma parte menos excelente (corpo) e uma mais excelente (espírito).

É importante nos atentarmos para esse detalhe cultural, posto que, nossa mentalidade e cosmovisão (até mesmo cristã) foi muito afetada pelos gregos. Essa visão dualista das coisas se difere bastante da cosmovisão semítica (judaica), os óculos pelos quais a bíblia foi escrita. Quando temos essas palavras que se referem a alma, espírito e corpo, no grego, tanto na septuaginta (versão da bíblia judaica no grego) quanto no texto neotestamentário, temos uma referência à totalidade do ser ou sua parte mais profunda (que no ocidente chamamos de coração), vejamos alguns exemplos:


Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda tua alma e de toda a tua força. (Deuteronômio 6:4-5)

Louva, ó minha alma, ao Senhor. (Salmo 146:1)

 

O objetivo do escritor bíblico não é tratar dessas partes separadamente, mas do ser humano de modo integral. Não há essa separação entre parte encarnada e parte desencarnada na mente do judeu a respeito do ser humano. Em muitos textos, principalmente os poéticos, a utilização da parte pelo todo (metonímia) é muito comum. São as famosas figuras de linguagem.

 

Conclusão

Se você ainda não leu esse livro, ou nem se quer conhecia o mito de Eros e Psique, perdoe-me pelos “spoilers”, deveria ter avisado no começo do texto, não é mesmo? Mas, o que coloquei aqui foi um resumo do resumo de ambos. Portanto, se quiser conhecer os detalhes, você pode ler o mito e também a obra de C. S. Lewis, “Até que tenhamos rosto”[7].



[1] Obra de Luiz Gaudino, pela editora FTD.

[2] Segundo o panteão grego: deusa da beleza.

[3] Segundo panteão grego: deus do amor.

[4] Pregada por Timão e Pumba na animação “O Rei leão”.

[5] A quebra de paradigma do príncipe encantado, pregado principalmente pela Disney em seus filmes e releituras dos mitos dos irmãos Green.

[6] A mãe de Psique morre durante o parto, assim, Orual cuida de Psique como se fosse sua filha. Faz dela seu objeto de adoração e devoção.

[7] Disponível pela editora Tomas Nelson Brasil.