sábado, 19 de setembro de 2020

Maranatha - O caminho mais curto


With fire in His eyes and hair like wool 
And a voice like a torrent of waters so full 
Out of his mouth comes a double-edged sword 
He’s coming in glory 
He’s coming to make war 

(Maranatha - Dalton Thomas)


E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que porventura o povo não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao Egito.

Mas Deus fez o povo rodear pelo caminho do deserto do Mar Vermelho; e armados, os filhos de Israel subiram da terra do Egito. E Moisés levou consigo os ossos de José, porquanto havia este solenemente ajuramentado os filhos de Israel, dizendo: Certamente Deus vos visitará; fazei, pois, subir daqui os meus ossos convosco.

Assim partiram de Sucote, e acamparam-se em Etã, à entrada do deserto. E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, para que caminhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite.

(Êxodo 13:17-22)


Introdução: Essa palavra foi compartilhada em uma mentoria escatológica que participei pela abase.org, por Dalton Thomas. Missionário norte americano que lidera a FAI (Frontier Alliance International), agencia missionária que trabalha diretamente com o povo palestino (mulçumanos / árabes e israelenses) nas regiões de conflito no Oriente Médio. 


É muito importante olharmos para o passado antes que falarmos do futuro, há sempre padrões e ciclos. Todos nós conhecemos a história do êxodo, todavia o capítulo 13 nos mostra o porquê que eles tiveram que pegar o caminho mais longo, e não o desvio pela terra dos filisteus. Quando olhamos o mapa, percebemos que o caminho é bem curtinho para a terra de Canaã, passando pela faixa de Gaza. O povo não estava preparado para conquistar sua herança. Olhando para os elementos principais do texto: havia uma aliança, um inimigo que nos quer destruir, um caminho curto e um caminho longo que evita o conflito. Os livros de Números e Deuteronômio são frutos do caminho longo, do despreparo para a guerra.

Eu acredito que a mensagem Maranata é o caminho curto! Naquela época Deus corria o risco de acabar com uma geração inteira, pela falta de preparo deles para a guerra. A Igreja do ocidente pegou o caminho longo; e eu acredito que Deus está levando um grupo de pessoas que irá pegar o caminho curto, para que essas pessoas liderem por esse caminho. E o segredo é não desanimar quando estiver diante da batalha. Eu acredito que Deus está segurando o prumo na Igreja mundial e alinhando o que está torto, e Ele está fazendo isso por meio da mensagem Maranata[2]. Acredito, ainda, que esse prumo serve para nos ajudar a ir por esse caminho curto.

Veja bem, a travessia do Mar Vermelho é algo que Deus fez, mas que Deus não queria fazer; posto que, o desejo de Deus era que eles tivessem cruzado pelo caminho curto, evitando o deserto. Da mesma forma na volta de Jesus, muitos vão escolher o caminho longo, e vão perder o que Deus estará fazendo no caminho curto. O ponto central aqui é estar preparado, para não se arrepender da escolha.

Hoje podemos perguntar ao Senhor: pessoalmente como homem e coletivamente como corpo (igreja), qual é nosso caminho mais curto? Acredito que existem coisas que entregamos nossa vida a elas que nos deixam despreparados para a guerra. Por meio de todas essas escolhas seremos pessoas do caminho curto ou do caminho longo; isso dirá se seremos um povo preparado ou se seremos um povo imaturo que Deus optará por nos poupar do conflito, como fez com os israelitas após a saída do Egito. 

Nossa Bíblia teria sido um pouco mais curta, se o povo estivesse preparado. Nem todo deserto Deus gostaria que passássemos por ele. O deserto é algo precioso, entretanto, muitos desertos vêm por nossa imaturidade. A jornada pelo deserto não era o plano de Deus. Se Deus estava pronto para abrir o Mar Vermelho para proteger um povo imaturo o que Deus seria capaz de fazer para um povo maduro?

Então você (Dalton) quer dizer que esse milagre foi desnecessário? O milagre do Mar Vermelho foi um mal necessário, mas o desejo do coração de Deus era que seu povo estivesse preparado para lutar e conquistar a terra. Eu creio que esse é o chamado de Deus para vocês (brasileiros) ser o povo do caminho curto!

Nós celebramos o caminho do Êxodo, mas, na verdade Deus nem queria que tivesse sido daquela forma. O que Deus está dizendo a meu respeito hoje? Esse é um homem (mulher) que desistiria? Ou é aquele que está preparado para a guerra? Eu fico pensando em quantos milagres Deus faz por nós, simplesmente por misericórdia, mas estes não são um endosso do que estamos fazendo ou escolhendo.

O caminho mais curto é o caminho do primeiro mandamento, o caminho longo é o caminho dos outros deuses. O caminho curto é o caminho de encarar o diabo de frente, o caminho longo é Deus te protegendo do diabo. Não me entenda mal, muita coisa boa aconteceu no deserto, mas muita coisa boa poderia ter acontecido na terra de Israel, e muitas coisas teriam acontecido, como por exemplo: Moisés poderia ter entrado na terra prometida. E como poderia ter sido diferente se Moisés tivesse entrado em Canaã.

 Pense em todo o ciclo de pecado que foi colocado por conta do caminho longo; pense como a história da redenção teria sido diferente. Essa leitura do livro de Êxodo poderia ter sido diferente. Palavra profética para o Brasil: vá pelo caminho curto e seja exemplo para outras nações. Isso significa sacrifício e rendição completa! Nós queremos maturidade, queremos fazer do jeito de Jesus, queremos ser as pessoas do livro de apocalipse. Um povo preparado para a guerra e para a pressão. O caminho curto, sangrento! Sangrento não é romântico. Eu acredito que o Brasil, vai ser o povo do caminho curto e sangrento!

Durante a Grande Tribulação não haverá opção para o caminho longo. Serão 42 meses (3 anos e meio) de pressão e perseguição. Ser um mártir é um processo de vários “sim’s”; Paulo dizia que ele morria a cada dia. Ninguém acorda um dia e diz: vou ser um mártir. Uma forma de se preparar para ser um mártir é lutar contra o pecado. Muitos pensam que não serão mártires por que pensam que são escolhidos para serem protegidos, por causa disso terão dificuldades.

Deus tem nos chamado para derramar nossas vidas a seus pés, como anunciou Maria ali em Betânia. Termino aqui com as palavras do Dalton a respeito de Maria de Betânia[3]:

 

Amigos, eu pergunto a vocês: a herança de vocês em Cristo é maior do que tudo o que vocês têm na terra? Oh, pela graça de amá-Lo com tamanho abandono! Você derramará aos pés dEle o que você tem de mais precioso? Você dará a si mesmo por completo a Ele e não se importar quando o mundo lhe escarnecer: “Vejam como ele está jogando fora a sua vida”, ou “Que desperdício de tempo e energia.” Que persistamos em meio à vergonha terrena e deixemos tudo por uma maior herança celestial.

Embora ela nunca tenha dado um testemunho de mártir em sua morte (pelo menos é o que sabemos), Maria de Betânia exemplifica o espírito de martírio de forma mais clara do que qualquer um no Novo Testamento (é por isso que Jesus mandou que os seus discípulos contassem a história dela a todos os povos e nações a onde eles fossem enviados). A fragrância da devoção dela profetizou o sacrifício daqueles futuros mártires presentes na sala naquela noite. Por meio daqueles jovens rapazes, “o aroma de Cristo” seria difundido entre as nações nas quais mais tarde eles sangrariam.

Os discípulos nunca se esqueceriam do aroma daquele perfume. A memória de sua fragrância e a devoção que ela representava permaneceu com eles até o dia em que eles derramaram as suas próprias veias na mesma paixão santa que tomou conta dessa preciosa mulher de Betânia.

Maria derramou o seu óleo. Os discípulos derramaram o seu sangue. Aos olhos do Senhor, ambas as ofertas eram belas, não simplesmente porque elas eram custosas, mas porque elas eram motivadas pelo amor. Esse é o verdadeiro espírito de martírio.

 

MARANATA!



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[2] O significado da palavra Maranata tem o sentindo de que “Ele veio e também virá”. Pode ser entendido tanto no passado como futuro. Portanto, a mensagem Maranata é completa.

[3] Extraído do livro: Até a morte

Site da FAI: https://www.faimission.org/

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Cântico dos cânticos - uma jornada de amor


 

PREFÁCIO

Esse texto foi escrito no final do ano passado, em parceria com meu amigo Pr. Lucas Emanuel. Tínhamos em vista o aperfeiçoamento da espiritualidade cristã e do relacionamento pessoal de cada cristão com a trindade. Espero que o leitor aprecie. 


INTRODUÇÃO

O livro de Cantares / Cântico dos Cânticos é um livro romântico, que expressa intimidade e desejo profundo entre seus amantes. É curioso como um livro com seu teor e estrutura poética se encontra bem no meio da Bíblia[1].

Esse livro pode (e deve) ser estudado pela perspectiva exegética natural, o relacionamento de Salomão com sua amada Sulamita, essa perspectiva é bastante usada nos encontros de casais, como também em aconselhamentos do mesmo segmento. Todavia, há uma perspectiva exegética de estudo e meditação que muitos de nós ignoramos; alguns a rejeitam de forma completa, outros de forma parcial, todavia é um dos prismas mais profundos da espiritualidade cristã e de nosso relacionamento com a pessoa de Jesus Cristo.

Nesse artigo iremos nos ater a essa segunda perspectiva do livro[2]. O relacionamento de Jesus com sua Igreja.

1.      Panorama Geral do livro

Cantares relata o processo de maturidade espiritual da noiva, os momentos de intimidade e plena felicidade, as respostas positivas e negativas ao noivo, os elogios trocados e o triunfo da noiva quando esta entra em parceria com seu amado e recostada sobre seu peito sobe do deserto.

Há dois temas principais abordados dentro desse livro: 1) As emoções de Deus pela noiva e 2) O primeiro mandamento. Há uma guerra pela nossa identidade por isso precisamos estudar e nos aprofundar dessas verdades.

Segundo Mike Bickle[3]: “Deus nos criou com o desejo de ser fascinado e assombrado, cheio de maravilha e maravilha. Nós não podemos remover nosso anseio por fascinação ou nos arrependermos dela. É uma parte significativa do nosso design criativo. Nós iremos satisfazê-lo em Deus ou nas trevas.”.

Essa verdade é expressa em várias partes das escrituras. Isaías profetizou que o Espírito enfatiza a beleza de Jesus na geração de Seu retorno (Is 33:17); Davi descobriu que somente UMA coisa é necessária, viver todos os dias para contemplar  a BELEZA do Senhor (Sl 27:4); Paulo abriu mão de todas as coisas quando contemplou a beleza de Jesus! Jane Guyon não se importou em viver encarcerada por alguns anos por ser uma contempladora da beleza de Cristo, através das escrituras. Hudson Taylor, pai das missões para interior da China, despejou sua vida como oferta aos pés do noivo ao contemplar a beleza do Senhor!

Nós também, podemos viver como esses homens e mulheres viveram se vermos o que eles viram! Ouso afirmar, juntamente com Bickle que o livro de Cântico dos Cânticos foi deixado com esse propósito, desfrutarmos e sermos fascinados pela beleza de Deus!

Sempre que a visão celestial vem, ela sempre destrói a visão terrena. Você nunca mais poderá ser o mesmo, nunca poderá fazer o que planejou fazer. Ela tanto muda sua direção completamente como muda o próprio caráter daquilo com que você está envolvido. É tão drástico, tão revolucionário. (Stephen Kaugn)

O Espírito Santo nos acompanha nessa caçada pela beleza de Jesus. Os sentimentos e pensamentos do Senhor são revelados a nós por meio dessa conexão com a trindade. E durante esse processo acontece conforme afirmou Hudson Taylor: A beleza do noivo será vista na noiva!

2.      A busca de Deus pelo nosso coração[4]

Antes mesmo da criação do homem, fomos projetados para estarmos em comunhão e plena harmonia com a trindade. O desejo furioso de Deus em nos ter para si é a razão de toda a redenção e eternidade.

Deus tem uma herança em nós e queremos entrar em parceria com Ele nessa herança. E por causa disso a conquista de nosso coração é fundamental.

A jornada na noiva se inicia em ser fascinada por Ele – o fascínio é fundamental, como já afirmamos – é por causa disso que a vemos iniciar o diálogo de amor: Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. (Cânticos 1:2)[5].

Ariadna Oliveira afirma que os beijos de Jesus são como tatuagens feitas em nosso espírito. Quando a noiva pede para ser beijada com os beijos da boca do amado ela está apontando para o que está na boca do amado, a palavra. Em Apocalipse 19:15 que da boca de Jesus saia uma espada afiada; João 1 fala que ele é a palavra, Hebreus 4:12 mostra que essa espada é capaz de revelar os desejos mais íntimos do nosso coração e transformá-los (Rm 12:2).

O mundo já não pode mais ser para ela o que já foi; a noiva aprendeu a amar ao seu Senhor, e nenhum outro relacionamento que não seja Ele pode satisfazê-la. Suas visitações podem ser ocasionais e breves, mas são preciosos momentos de deleite. Esses momentos são lembrados com prazer nos intervalos, e a repetição deles é muito desejada. [...] O noivo está esperando por ti todo o tempo. [...] Tome a correta posição diante Dele, e Ele estará mais do que pronto, mais do que contente em satisfazer teus mais profundos anelos e todas as tuas necessidades. [...] (Hudson Taylor)[6]

É nesse processo de contemplação e lapidação que nos encontramos fascinados, apaixonados pelo noivo.

3.      Como enxergamos nossa identidade

No primeiro capítulo do livro mostra claramente o efeito dos beijos do amado, em como a noiva se via (Ct 1:5): Eu sou a flor que nasce na planície de Sarom, o lírio que cresce no vale. (Cânticos 2:1)[7].

Nós somos belos e sinceros, é assim que Deus nos vê! O inimigo sempre traz acusações de que somos fracassados e desqualificados, mas essa não é a verdade a respeito do que Deus pensa sobre nós! Ele enxerga o nosso fraco ser, e Ele nos diz: O seu pecado não te define! Eu te defino! Olha para mim!

Quando a noiva começa a ter revelação de quem ela é, ela começa a declarar isso! E essa revelação vem a medida que a noiva contempla. Ela vê a beleza Dele, e se vê bonita!

4.      Ele nos convida descansar na obra finalizada da cruz (Ct 2:3-5)

Quando descubro que sou amado não pelas minhas medidas (padrões) consigo me posicionar com confiança. A confiança no amor que Ele sente por mim me leva a sentar, alimentar Dele, e ser fortalecido! Esse é o perfeito amor que lança fora todo medo de nossos corações, não o amor que sentimos por Ele, mas o amor que Ele sente por nós!

É firmado nisso que posso entender e declarar: EU SOU O DELEITE DO AMADO! Quando encontramos esse lugar em Deus não queremos sair dele, pois é delicioso. Enquanto descansamos debaixo da macieira, Ele está pulando sobre os montes (problemas) sem nenhum esforço.

5.      Jesus convida a noiva a avançar com Ele.

Depois que nossa identidade está firmada e temos a certeza do Seu amor o noivo nos convida a fazer parceria com Ele (Ct 2:10-13). Ele desafia a noiva a sair da zona de conforto para leva-la a lugares mais altos com Ele.

Essa é uma postura de coração, onde dependeremos mais dele e nossa fé crescerá, onde alcançaremos um padrão mais elevado de maturidade espiritual.

Mas, a noiva dá uma resposta negativa ao Senhor (Ct 2:17) – ela diz: vá você, enquanto te espero aqui nesse lugar confortável. Volte para perto de mim amado!

Enquanto ela mantém sua própria vontade e o controle de suas possessões, tem de se contentar em viver de seus próprios recursos; ela não pode reivindicar os Dele. [...] O REAL SEGREDO DE UMA VIDA INSATISFEITA ESTÁ, MUITO FREQUENTEMENTE, EM UMA VONTADE NÃO RENDIDA. (Hudson Taylor – GRIFO NOSSO)

Então, ela experimenta a disciplina em amor de Jesus. Porque ele tem compromisso com a maturidade da noiva! A disciplina não é uma forma de rejeição do noivo pela noiva, mas é uma forma de mostrar o quanto Ele a ama para deixa-la naquele nível de relacionamento (Ct 3:1-4).

Percebe que a disciplina é a ausência Dele? Como Ele sabe que a noiva não suportará viver sem sua presença – porque nesse nível ela já experimentou tanto Dele que realmente não terá forças de viver sem Ele – então Ele se ausenta, para que ela obedeça e vá encontra-lo.

Fr. Pedro de Paulo di Bernardino traz uma importante ressalva sobre os efeitos das disciplinas espirituais sobre nosso eu interior: A ascese da mortificação e da penitência é importante para libertar a alma e o coração das dependências que os ligam às realidades terrenas como se não se pudesse passar sem elas. Muitas vezes são coisas pequenas, mas que impedem voar livremente para Deus.[8]

Ela encontra quem ela ama quando sai do lugar de conforto. O noivo a havia chamado para as montanhas, e no texto mostra que ela vai até a cidade (Ct 3:1-4) e tem um contato novamente com o noivo. Ela está respondendo, mas ainda está em sua zona de conforto. Ela ainda tem reservas, e não entregou tudo por imaturidade.

Que nossa oração e disposição de coração sejam semelhantes aos de Elizabete da Trindade: ...que o mundo não me impeça de ir a Ele, que as futilidades dessa terra não me ocupem, que eu não me apegue a elas!

6.      Os elogios do noivo (Ct 4:1-5)

Nessa sequência de versículos o noivo começa a descrever a beleza dela em oito atributos de caráter. E todas essas comparações (coerentes com o padrão de beleza daquele contexto) para dizer: você já me agrada! Mesmo que os passos foram pequenos e avanço não foi total, já estou orgulhoso de você!

E mais uma vez baseado nesse perfeito amor que nos constrange, a noiva responde de forma completa e se dispõe sem reservas (Ct 4:6).

A noiva temerosa não pode se desfazer não pode se desfazer totalmente de seus receios; mas a falta de paz e o anelo tornam-se insuportáveis, e ela resolve render-se totalmente, e ai poderá segui-lo integralmente. Ela submeterá todo o seu ser a Ele, coração e força, influência e possessões. Nada pode ser tão insuportável quanto a Sua ausência! Se Ele a guiar para outro Moriá, ou até mesmo a um calvário, ela o seguirá. [...] Quando o coração se submete, então Jesus reina. E quando Jesus reina, HÁ DESCANSO!! (Hudson Taylor)

7.      A resposta da Noiva

Na continuação do texto percebemos que o convite de parceria permanece e a exaltação dos frutos produzidos por sua amada dissipa todo medo do porvir, então a noiva declara: Levante-se, vento sul! Soprem em meu jardim e espalhem sua fragrância por toda parte. Entre em seu jardim, meu amor, e saboreie os melhores frutos. (Ct 4:16)

Após essa declaração Ele se apropria dela (Ct 5:1) e logo em seguida vem o momento de provação (Ct 5:2), o noivo a convida para participar de seus sofrimentos. Ele está perguntando: “Você vai passar comigo por isso? Quando as coisas não estiverem dando certo, você vai continuar sendo meu jardim particular?”.

Essa é a beleza do nosso rei, Ele deseja que adentremos nesse lugar de sofrimento, porque ele sabe o que isso vai produzir em nós! Como disse Peterson[9] a oração no Espírito Santo é quando Cristo ora em nós! O lugar do sofrimento, onde participaremos das aflições de Cristo começa no lugar de oração, é ali, como diz Peterson que seremos afetados.

John Hyde[10] foi um intercessor, que participou das aflições de Cristo. O apelo dele para sua geração foi por agonia, lágrimas e fervor. Esse é o caminho que a noiva do Senhor precisa trilhar.

Michael Duque Estrada em seu livro Cultura de Oração[11] traz uma visão do coração de Deus, como uma chaga aberta. Uma ferida não curada, exposta nas mazelas desse mundo – é a mulher violentada, a criança abusada e a infância vendida. Esses são os lugares onde o amado de nossas almas está, e Ele nos convida a estarmos em parceria com Ele.

Sobre os frutos sofrimento e martírio, Ariadna Oliveira[12] ressalta:

O silêncio de um cristão obediente não significa o seu fim, nem mesmo o último ato nutrido por uma frustração ou desesperança, mas uma porta escancarada que põe termino a uma espera! [...] Enquanto nossa visão opaca e limitada afirma ser isso insano, o silêncio oferecido a Deus em obediência, a morte interior e a renúncia do eu formam a mais legítima oração que com poder rasgam o temporal e gera, lá na eternidade, um silêncio ainda maior (Ap. 8:1-4).

O caminho de maturidade da noiva, a resposta, mesmo que tardia em participar dos sofrimentos de Cristo (Ct 5:7), o testemunho dela ante ao restante do corpo (Mulheres de Jerusalém) a respeito de quem é esse amado e o que ele tem de tão especial, a fazem se tornar irresistível ao noivo e Ele já não pode negar-lhe mais nada (Ct 56:5).

Estar em parceria fala de comunicar ao restante do corpo aquilo que está no coração do noivo (e no coração de Deus). Bob Sorge usa a expressão manifestar a voz para essa definição.

Manifestar a voz exige a solidão e abandono do deserto. Deus levará alguns de seus servos para o deserto a fim de prepara-los com uma mensagem [...] Para receber essa mensagem, porém, é preciso um grau incomum de consagração aos propósitos de Deus enquanto ele os guia ao deserto. [...] Deserto é, por definição, um lugar habitado por pouca gente, sobretudo porque as condições não são propícias para o modo de vida diário da maioria das pessoas. Trata-se, portanto, de um lugar de solidão, de confinamento imposto, sem NENHUMA COMODIDADE, um lugar de ostracismo, onde o ambiente é inóspito. É o lugar em que Deus se encontra com seu servo ou sua serva. É a reunião de apenas duas pessoas para se realizar uma profunda formação espiritual. É ONDE DEUS DÁ À PESSOA UMA MENSAGEM FORMADA COM BASE NA VIDA DELA, e não em sua biblioteca.

Por fim ela sobe vencida do deserto, recostada sobre seu amado. Ela está em parceria com Ele! O noivo responde ao pedido dela por exclusividade: “Eu vou colocar meu amor como um selo de fogo! Ela é minha! Exclusivamente minha!” (Ct 8:6).

E assim, a beleza do noivo será vista na noiva. (Hudson Taylor)

 

P.S.: Um coração apaixonado e totalmente envolvido produz poesias como a de George Matheson:

Torna-me um cativo, Senhor,

E, então, livre serei,

Força-me a render minha espada,

E conquistador serei. [...]

Minha vontade não é minha própria,

Até que a tornes Tua;

Se ela subisse ao trono de um monarca,

Ela teria de resignar a sua coroa.

Minha vontade só fica firme, em meio à estrondosa luta, quanto em Teu peito se apóia e descobre sua vida em Ti.

 

Só um coração rendido e saudado, consegue admitir como Agostinho, que tarde amou o Senhor. Todos os dias, horas, minutos são insuficientes e reconhecemos que poderíamos amá-lo mais e por mais tempo! Todavia, Ele vê o nosso fraco ser e nos espera todos os dias com a mesma intensidade de se revelar e nos amar!

 



[1] A estilística literária dos hebreus tem uma característica peculiar de colocar no centro do texto (narrativa / poema..) aquilo que é o principal. É sabido que o cânon bíblico foi organizado bem depois e em um contexto cultural diferente da cosmovisão judaica, mas acredito em uma divina providencia de preservação também da estilística. Todo o texto quanto contexto e estilo literário foram inspirados por Deus.

[2] Te convido, leitor, a estar com sua bíblia aberta no livro de Cantares, durante toda a leitura.

[3] Fundador e pastor da International House of prayer – conhecida mundialmente como IHOP / no Brasil FHOP.

[4] Baseado em uma das aulas ministrada pela Blaire Fraim, na Escola de Verão da FHOP – Floripa-Brasil.

[5] Versão: ACF – Almeida Corrigida e Fiel.

[6] Cântico dos Cânticos – Editora dos Clássicos.

[7] Versão: NVT – Nova Versão Transformadora.

[8] Ressalto a penitencia com conotação de abster-se de coisas que nos dão prazer. A palavra penitência no contexto monástico está relacionada não somente com castigos físicos, mas principalmente ao jejum.

[9] Peterson sobre a vida de oração de John Hyde – livreto da editora Impacto.

[10] Seus biógrafos afirmam que Hyde morreu com o coração deslocado (do lugar normal) de tanto orar e agonizar pelos perdidos.

[11] Editora Impacto

[12] De volta para casa – editora Impacto


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Cosmovisão II - Sagrado x Secular


Tu és soberano sobre a terra sobre o céus tu és Senhor, absoluto. 
Tudo que existe acontece tu o sabes muito bem, tu és tremendo. 
(Asaph Borba)








Esse dualismo acompanha a vida cristã por séculos, normalmente nós o conhecemos a partir das costumeiras perguntas: Com o que você trabalha durante a semana? Qual é seu ministério aos domingos / sábados? O que você faz no secular? Você é tempo integral na obra? Com o que você trabalha, com o sagrado ou o secular? Essas e outras perguntas são fruto de uma visão partida da realidade, fruto de uma cosmovisão fragmentada e misturada. A maioria dos cristãos brasileiros, pertencentes a comunidades neopentecostais ou de pouca tradição histórica / teológica usam esse discurso – fruto de uma forma de pensar e ver o mundo – corriqueiramente. Todavia, esse dualismo tem um contexto interessante, que devemos considerar para, a partir dele, reformular aquilo que diverge das escrituras e de uma cosmovisão genuinamente cristã. 

Esse dualismo que desassocia o sagrado do cotidiano, teoria da prática, realidade espiritual da natural, entrou na cristandade a partir da mistura entre a cosmovisão judaico-cristã com os ensinos filosóficos gregos. O divisor de águas na tradição cristã, para que essa teoria se consolidasse, foi Tomás de Aquino. Dulci[1], explicando sobre o assunto afirma: 

Estabelecendo essa distinção entre dois modos de conhecer a verdade, Aquino reforçou uma forma de enxergar a realidade que já era defendida por Aristóteles. Tratava-se de compreender a realidade divida em dois andares: no andar superior estavam os assuntos e objetos divinos, isto é, Deus, sua revelação, a fé e a salvação. No andar de baixo, estavam os objetos e assuntos naturais, ou seja, a própria natureza, os objetos do mundo, a ética, a estética e tudo aquilo que poderíamos conhecer com nossa razão. [...] 
Foi em razão dessa distinção que Aquino não conseguiu sustentar o título de ciência para a teologia – os conteúdos bíblicos não são princípios evidentes por si mesmos, por isso, no máximo, a teologia poderia ser uma ciência subordinada às evidências de uma ciência superior. A teologia seria uma ciência subalterna. 

Esse dualismo entre os gregos era chamado de Matéria x Forma, a partir do segundo século da era cristã, temos o dualismo Natureza x Graça. A raiz dessa dicotomia, entre natureza e graça, se deu por conta da forma como os teólogos medievais entendiam a queda. Para os mesmos esta havia afetado apenas o relacionamento do homem com Deus, não a imagem de Deus no homem e suas capacidades de raciocínio e relação com as demais coisas criadas. Ou seja, não havia um entendimento da depravação total do homem. 

Esse dualismo estabelecido na teologia dos primeiros séculos da era cristã trouxe sérias consequências para a prática cristã dos dias atuais, os cristãos brasileiros, como os muitos que conheci de outras nacionalidades tem grande dificuldade de enxergar o mundo de modo total. Além dessa herança teológica temos as expressões culturais ocidentais – extremos reducionistas – que também beberam na mesma fonte grega (Ex.: hedonismo, capitalismo, socialismo, historicismo, feminismo...) e contribuem para a formação de como nós, ocidentais, vemos o mundo. Em resumo toda a cosmovisão do ocidente está enraizada no pensamento grego. 

Esse dualismo trouxe sérias consequências, as quais fazem parte do cotidiano da era pós-moderna: secularização da ciência, polarização política, sentimentalismo moral, irracionalismo estético e indiferença sexual. E como a Igreja tem agido ante a isso? Creio que o leitor saiba a resposta: engolidos pela cultura pop[2]

Tendo consciência disso, e entendendo que o evangelho e a Bíblia nos ensinam a ver o mundo de modo integral, precisamos combater essas fortalezas que foram construídas em nossa mente, por meio de uma cosmovisão genuinamente cristã e fundamentada na palavra de Deus. 

Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo. 
(II Coríntios 10:3-5) 

A cosmovisão cristã é constituída por uma narrativa, baseada em criação-queda-redenção (esta inclui tanto a primeira quanto a segunda vinda do Messias). E nossa perspectiva de perfeição e completude é a trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Portanto, tudo que temos diante de nós deve ser visto sobre a perspectiva de que há uma graça comum sobre tudo aquilo que Deus criou, como também há níveis de queda dentro da criação, todavia, em Cristo é possível redimir aquilo que o pecado degradou. Quando falo em ver o mundo nessa perspectiva, falo de todas as esferas que compõem a integralidade do homem: família, educação, política, igreja, ciência, sociedade...e toda a produção cultural fruto dessa estrutura. Segundo Guilherme de Carvalho[3]

O motivo bíblico nasceu da revelação redentora de Deus ao homem, consumada na pessoa de Jesus Cristo e aplicada pelo Espírito Santo. Essa revelação nos fornece as estruturas fundamentais de uma cosmovisão cristã. Em primeiro lugar, ela reconhece todo o cosmo como criação de Deus. Deus é a única origem absoluta... A queda do homem alienou toda a criação de Deus. Não destruiu a própria estrutura da criação, nem tornou nenhum de seus aspectos essencialmente maligno, mas a colocou numa direção de apostasia... A redenção, consumada por Jesus Cristo, envolve a recriação do homem, como “novo homem” em si mesmo, e, com isso, o redirecionamento da criação para Deus. 

Como é muito popular no contexto reformado, não é possível falar em esferas da vida humana sem falar a respeito de Abraham Kuyper. Talvez para você seja novidade, mas a tradição cristã é rica em produção a respeito de política e atuação na esfera pública. Abraham Kuyper foi um político, jornalista, estadista e teólogo holandês. Ele fundou o partido Anti-revolucionário e foi primeiro ministro dos países baixos entre 1901 a 1905. Kuyper foi um dos precursores do neocalvinismo e deixou discípulos que contribuem até os dias de hoje com a teologia pública[4]

Segundo Kuyper a vida humana é dividida em esferas específicas que possuem seus limites de governo e atuação, e todas elas estão submissas às leis de Deus. Kuyper fez um diagrama bem interessante para ilustrar sua teoria[5]. Uma de suas mais famosas exclamações é a seguinte: 

Ó, não existe nenhuma parte sequer do nosso mundo do pensamento que possa ser hermeticamente separado das outras partes; não há um único centímetro quadrado, em todo o domínio de nossa vida humana, sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: Meu! 

Ela expressa tanto a soberania de Deus sobre toda sua criação, como a vontade de Deus em ser glorificado por meio de seus filhos a partir dos mandatos criacionais. Conforme a teologia reformada entende-se que o pacto estabelecido entre Deus e o homem no jardim incluía três mandatos: a) Mandato social – está expresso na parte que diz “frutificai e multiplicai” – formação da família e civilizações; b) Mandato cultural – está expresso da frase “enchei a terra, sujeita-a e dominai” – é importante ressaltar que a palavra domínio tem significado de governo / supervisão e c) Mandato Espiritual – “e abençoou Deus o da sétimo e o santificou” – aqui está estabelecido o relacionamento dos seres humanos com o criador de todas as coisas. 

A igreja do Senhor Jesus é muito eficaz no mandato espiritual e até mesmo social, mas temos negligenciado por séculos o mandato cultural. Deixamos espaços vagos no meio artístico, no meio literário, científico, acadêmico e político por que, na nossa mente são dois ambientes completamente diferentes, são duas caixas separadas (sagrado x secular). Influenciamos pouco por não entender com clareza que Deus deseja ser glorificado em cada esfera da vida humana. 

Por décadas no Brasil temos uma produção massiva do “Gospel”, para um mercado específico, infelizmente uma parte significativa dessas produções, em sua maioria musicais, tem pouca cosmovisão cristã. Parece contraditório, mas é verdade. O objetivo de Deus era que toda a criação fosse influenciada e governada por seus filhos, culturalmente falando. Não estou dizendo que é errado ter produção específica para um público específico, mas pensemos como Deus é mais glorificado quando o mostramos em produções artísticas, literárias e científicas que atingem não apenas cristãos, mas pessoas de diversos credos, filosofias e pensamentos? 

Um exemplo clássico dessa influência é C.S Lewis com “As crônicas de Nárnia” e suas outras produções de ficção científica que até hoje são lidos por diversos públicos e tem influencia gerações. 
Outro ponto interessante a ser analisado é a pergunta que não quer calar: Porque a igreja brasileira cresce, mas o país não muda? A resposta está na nossa cosmovisão. Nessa perspectiva afirma Rodolfo Amorim: 

Ao observarmos a igreja evangélica brasileira hoje, constatamos um fato irrefutável: ela não tem refletido, em influência concreta na realidade sociocultural que nos cerca, a amplitude de seu crescimento numérico... A civilização ocidental tem relegado o cristianismo brasileiro a uma dimensão estreita da vida, sem capacidade de se apresentar como verdade total... Temos aprendido a nos relacionar com Deus salvador e adorá-lo, mas não temos aprendido a servi-lo e honrá-lo como o Deus Criador. 

Situações controversas de cristãos na política que tem entrado em esquemas de corrupção, homens e mulheres que se dizem cristãos, mas continuam vivendo em promiscuidade ou trabalhando no ramo da prostituição. Nós cristãos precisamos entender que a igreja, o trabalho, a escola / faculdade, política, ciência e as demais esferas da vida humana fazem parte da mesma realidade. Tudo isso é uma caixa só! Não podemos dividir essas categorias e achar que podemos viver alguma delas de modo independente de Deus e seu governo. Precisamos rejeitar esse dualismo de nossos corações e mente. Não é uma tarefa fácil, mas com o auxílio do Espírito Santo isso é possível. 

É tão precioso termos consciência dessa verdade que até mesmo nossa escatologia e percepção da morte irá mudar. Viver e morrer fazem parte de uma mesma realidade. Viver e morrer é Cristo! Viver e morrer para a glória do Eterno! Que os olhos do nosso coração venham ser abertos para essa verdade, que nossas atitudes venham refletir essa expansão de mente (metanoia) que o Espírito Santo está fazendo em nós. 







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[1] Pedro Lucas Dulci – Ortodoxia Integral (2015) 

[2] As relações publicas são uma grande indústria. Hoje em dia gasta-se com relações públicas qualquer coisa como um milhar de milhão de dólares por ano. O seu objetivo é sempre “controlar o estado de espírito público”...A pergunta “apoia a nossa política” não pretende que as pessoas pensem sobre essa pergunta. É esse o objetivo da boa propaganda. Pretende-se criar uma palavra de ordem com que não só ninguém possa estar em desacordo, como até com que toda a gente concorde. Ninguém sabe o que significa precisamente porque não significa nada. A sua importância provém da sua capacidade de afastar a atenção das pessoas de qualquer pergunta que signifique alguma coisa. (Noam Chomsky – A manipulação das mídias (1991).

[3] Cosmovisão cristã e transformação – 2006

[4] Herman Dooyewerd, Hans R. Rookmaaker, Kevin J. Vanhoozer, Michael Goheen. Há também faculdades e instituições como o Ladri Brasil que carregam o legado deixado por Kuyper.

[5] A soberania das esferas – 1880 . Veja o diagrama em: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcS46iUGRKImdG6ezAAEBRgbNvxOvbtKDgd0IA&usqp=CAU

domingo, 23 de agosto de 2020

Escatologia XI – Os Seres que vivem diante do Trono de Deus



Enquanto a terra vive sem perceber quem tu és. 
No céu agora mesmo, todos conhecem tua beleza. [...] 
Eu vejo um trono no mais alto céu e tu estás assentado em glória. 
Eu vejo um trono no mais alto céu e tu estás cheio de majestade. [...] 
Quem dera tivesse mil olhos. 

(Ministério Convergência – Apocalipse 4)





Uma das partes mais fascinantes do livro de Apocalipse são as cenas do céu que precedem momentos importantes. Se você observar, antes de cada sequência de juízos, João descreve como está o céu, qual solenidade está acontecendo antes dos juízos serem derramados sobre a terra. Como falei na primeira postagem dessa sequência de estudos, Apocalipse é a revelação de uma pessoa, Jesus Cristo. É a revelação da beleza dos três: Pai, Filho e Espírito.

E logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono. E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra jaspe e sardônica; e o arco celeste estava ao redor do trono, e parecia semelhante à esmeralda. 
E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro. 
E do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de Deus. 
E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás. 
[...] e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir. 
E, quando os animais davam glória, e honra, e ações de graças ao que estava assentado sobre o trono, ao que vive para todo o sempre, 
Os vinte e quatro anciãos prostravam-se diante do que estava assentado sobre o trono, e adoravam o que vive para todo o sempre; e lançavam as suas coroas diante do trono, dizendo: 
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas. 
(Apocalipse 4:2-11) 


O Trono de Deus é o centro do universo. É óbvio que Deus não se cansa e nem precisa ficar sentado. O Trono é um símbolo da soberania, autoridade e governo do Eterno, e é a partir do Trono que o Senhor age e governa. Todos aqueles que viram o Trono nunca mais foram os mesmos: Daniel ficou fraco e alarmado (Dn 7:15-16), Isaías exclamou: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6:1-5), Ezequiel caiu estatelado (Ez 1:26-28), João caiu como morto no primeiro capítulo quando vê Jesus. O Trono abala nossas estruturas, muda completamente nossos conceitos de força e se curva reconhecendo que só o Altíssimo é poderoso e soberano. 

A qualidade da nossa vida cristã está intimamente ligada à revelação que temos do Trono de Deus. Quando um discípulo de Jesus contempla o trono de Deus não conseguirá ter uma vida espiritual medíocre, ele ansiará por profundidade. Ninguém se torna naturalmente profundo, isso requer levar as disciplinas espirituais a sério. A profundidade é fruto de duas experiências: amor e temor ao Senhor. O temor está relacionado a saber quem Deus é. O temor traz reverencia e nos impede de brincar com Deus, com sua Palavra e as demais coisas espirituais. Intimidade sem reverência é superficialidade emocional. 

Em Mateus 10:28 Jesus diz que devemos temer aquele que tem poder sobre a vida e sobre a morte. Alguns acreditam que Deus é amor e não disciplina ninguém, todavia a Bíblia diz o contrário. Temível é aquele que está assentado no trono. João não ousa descrevê-lo. Deus não pode ser descrito e classificado em categorias humanas. Ele é único, inexprimível, extraordinário, inefável. 


A Descrição do Trono 

a) Um arco-íris ao redor do trono: Em Gênesis 9:13 esse foi o símbolo estabelecido por Deus como memorial da aliança feita com Noé. O arco ao redor do Trono de Deus aponta para graça e fidelidade. Aqueles que possuem revelação do Trono estão comprometidos com a salvação da humanidade. Aqueles que compreendem o senhorio, governo e soberania de Deus estão comprometidos com a salvação das nações. 

b) Do Trono saem relâmpagos, vozes e trovões: Se você observar as outras cenas do livro de Apocalipse, que precedem os juízos de Deus sobre a terra, como Apocalipse 8:5, os relâmpagos, vozes e trovões são respostas às orações dos santos. Hoje quando oramos em linha com o trono de Deus, o Senhor responde com poder e impacto na terra. Durante a grande tribulação, tempo em que Deus derramará seus juízos sobre a terra, a Igreja estará orando em linha com a vontade de Deus e os juízos virão. Como afirma Mike Biclke, Joel Richardson e Victor Vieira o livro de Apocalipse será um manual de orações para o fim dos tempos. 

c) Diante do Trono arde o fogo do Espirito: O texto fala dos sete espíritos de Deus. Há opiniões diversas sobre isso, Deus tem sete espíritos? Alguns afirmam que sim, todavia creio que temos um pouco de simbolismo aqui. Quando se estuda sobre a simbologia dos números da Bíblia, você vai perceber que o sete é um número de perfeição e plenitude. Então o Espírito de Santo aqui (a terceira pessoa da Trindade) está em toda sua plenitude, poder e glória como o Pai e Filho. Perceba também que o fogo, uma figura muito usada para descrever o Espírito Santo na bíblia como também o próprio Deus, deve fazer parte da vida do cristão. Desejar o fogo de Deus significa desejar uma vida de santificação e pureza. Só há fogo se Cristo for Senhor de nossas vidas, só há fogo para quem vive diante do Trono. 

d) Um mar de vidro como Cristal: Esse vidro como cristal aponta para justiça e verdade. Diante do trono não há espaço para dissimulação e fingimento. Transparência é a base do trono de Deus. Esse mar de vidro também é mesclado com fogo (Dn 7:10). É nesse mar que o inferno será lançado. Deus é fogo consumidor e faz dos seus ministros labaredas de fogo, semelhantes e Ele (Hb 1:7). 

e) Do Trono sai o Rio da Vida: (Apocalipse 22:1) Jesus afirma que os que creem Nele, do seu interior fluirão rios de águas vivas. O rio flui do trono, se o governo e o senhorio de Jesus Cristo estão estabelecidos em nossos corações o fluir do Espírito Santo será uma realidade em nós. 

Segundo o texto há pelo menos três categorias de seres que vivem diante do Trono de Deus. Suas características e estilo de vida nos ensinam muito: 


1) OS ANJOS – Apocalipse mostra que a medida dos anjos é igual à medida de homem (Ap. 21:17). No Antigo Testamento, percebemos isso de modo claro, posto que, a aparição deles para as pessoas não era algo que gerava estranhamento ou pânico, mesmo sendo identificados como anjos, se passavam tranquilamente por seres humanos. Hebreus 1:14 afirma que eles foram enviados para servir e proteger aqueles que hão de herdar a salvação. Eles são operários celestiais, e por serem criaturas do trono, eles nos servem de ilustração como aqueles que fazem do Trono o centro de suas vidas. Eles são mensageiros às Igrejas e às nações. Também são responsáveis por anunciar os juízos de Deus, seus oráculos e mistérios. A nós também foi dada essas funções, por meio do Corpo de Cristo, a Igreja. Uma parte dos anjos também tem a função de guerreiros (Ap 12:7 e Dn 7:9). Aqueles que estão diante do trono de Deus também são guerreiros! Tudo aquilo que os anjos fazem, nós também podemos fazer. 

2) OS SERES VIVENTES – É válido ressaltar aqui que esses seres viventes são os mesmos serafins, vistos por Ezequiel (Ez 1:13-14). Uma das características mais marcantes desses seres são os olhos e a contínua adoração. Os olhos falam de visão e revelação (ter desvendado diante de si aquilo que você não via ou entendia Ef 1). Os Viventes possuem uma visão em quatro dimensões: a) Olhos que contemplam o Eterno, b) Olhos que estão sensíveis ao que está ao seu redor, c) Olhos nas costas que conseguem visualizar o passado e estar atento ao inimigo, d) Olhos que visualizam sua alma e aquilo que está dentro do seu coração. 

É interessante a realidade desses seres que vivem diante do Trono de Deus: são cheios de vida, eles contemplam o Eterno e são cheios de vida; segundo a descrição de Ezequiel, são seres flamejantes – a palavra serafim significa aqueles que queimam – ou seja, semelhantes ao que está sentado no Trono. A vida deles é contemplar os vários aspectos da beleza trinitária de Deus. 

Meu suspirar é semelhante aos que cantam: “Quem dera eu tivesse mil olhos, para poder te contemplar!”. Quem me dera ter mil olhos, como os seres viventes, para ver essa beleza que ilumina todos os lugares mais escuros e confusos da minha alma! 
Essa função de adoração diante do trono é a função sacerdotal. Deus criou o homem para esse fim, governo e sacerdócio (Ap 1:6). 

3) OS VINTE E QUATRO ANCIÃOS – Há muitas interpretações a respeito dessa outra categoria de seres que vivem diante do Trono de Deus. A que mais achei equilibrada e lógica de acordo com a interpretação literal, é de que seriam uma categoria mais elevada de anjos. Provavelmente foram os primeiros seres da criação divina, criados para governar o universo sob a autoridade e soberania do Trono do Eterno. Prova disso são seus tronos e suas coroas – símbolos de governo e autoridade – que estão diante do Trono de Deus. Sabemos que o universo e toda a criação serão governados por Deus em parceria com a humanidade. Em Cristo esse propósito glorioso foi restaurado, portanto, esses tronos ocupados pelos 24 anciãos serão dados a seres humanos que governarão o universo com Cristo. 

Nós que por tantas vezes perguntamos por meio de canções, juntamente com Laura e Gabriel Guedes: "O que é que os anjos vêem que os fazem se prostrar, o que é o que os anjos vêem que os fazem cantar santo.." temos a resposta na descrição feita por João do impacto do Trono e da beleza do Eterno revelada nas sua multiforme sabedoria, glória, poder e soberania. São muitos ângulos que os seres que vivem diante do Trono de Deus podem olhar. E ao contemplar tamanha beleza não há como não ficar fascinado!
Que nesses dias a revelação do Trono de Deus seja uma realidade diária no lugar secreto, que os vários ângulos da beleza do Eterno possa nos fascinar! Que nossas vidas seja uma oração, um constante cântico que adore Àquele que está sentado no Trono. Que nosso coração possa enxergar quão belo é Jesus. 



Maranata!

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Cosmovisão I - Fragmentado

 

Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.

Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido.

(I Pedro 2:5,6)


A cultura pop apresenta de forma artística os frutos de reflexões pautadas em filosofias e crenças que se quer passam por nossa cabeça quando sentamos no sofá para assistir um filme, ou quando ligamos o Spotify para ouvir uma música. A era pós-moderna trouxe consigo a fragmentariedade, a liquidez das relações e as profundas crises de identidade, surtos psicóticos, doenças desconhecidas e raras.

Frases como: “Vou te ensinar algo que aprendi, acho que não descobrimos quem somos de uma vez, acho que acontece durante a vida, JUNTAMOS AS PARTES...” / “Prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laço com os que estão presentes?” / “Qual é o centro do mundo pra você? É o amor, eu acho.” não te fazem visualizar Frankenstein[1]?

Juntar fragmentos e formar um novo ser é a história do jovem médico Frankenstein e sua criação, o monstro. E talvez seja esse o resultado da costura identitária ensinada pela filosofia pós-moderna, o monstro de Frankenstein.  

Lembro de um programa que passava na Tv Cultura, direcionado para o público infantil-juvenil: “Tudo que é sólido pode derreter”. Bem baumeniano[2] e filosófico, mas simples o suficiente para pré-adolescentes absorverem a mensagem central da pós-modernidade: “Nada dura para sempre!” / “Tudo que é sólido se desmancha no ar.” / “Não se apegue, por que essa relação pode acabar amanhã.”.

O reverendo Pedro Lucas Dulci em seu curso “Questões de gênero – sexo, ciência e sociedade” afirma que a sociedade pós-moderna oferece fragmentos a seus integrantes, estes, por sua vez, pegam as partes que lhe são oferecidas e se montam afirmando: “Este sou eu”, mas a própria costura das partes permite mudanças e fluidez em arrancar uma parte e costurar uma nova.

 

As pessoas são atormentadas pelo problema da identidade. No topo, o problema é escolher o melhor padrão entre os muito atualmente em oferta, montar as partes do kit vendidas separadamente e apertá-las de uma forma que não seja nem muito frouxa (para que os pedaços feios, defasados e envelhecidos que deveria ser escondidos embaixo não apareçam nas costuras), nem muito apertada (para que a colcha de retalhos não se desfaça de uma vez quando chegar a hora do desmantelamento, o que certamente ocorrerá).

(Zigmunt Bauman)

 

Essa mesma flexibilidade tornou-se uma faca de dois gumes para o indivíduo, veja o que afirma Michael Goheen e Craig Bartholomew:

Nossa cultura é uma cultura em busca de sentido. A fragmentação que a pós-modernidade infringiu à nossa cultura e o seu solapamento da modernidade deixaram a cultura ocidental cada vez mais sem uma base sólida em que possa encontrar sentido para fundamentar suas práticas. A pós-modernidade reduziu a grande narrativa da modernidade a “um montão de imagens quebradas”.

 

Dulci afirma que essa fragmentação se deu a partir do contexto histórico da aceleração da vida, como também pelos reducionismos advindos das relações comerciais – lucro e déficit – que passaram a explicar o ser humano, e suas relações afetivas. O ser humano foi reduzido ao mercado e a seus afetos, ao que sente. O mercado tornou-se afetivo, e as relações viraram produtos que podem “facilmente” ser substituídos ou descartados, caso não satisfaça o cliente. Essa falta de solidez colocou o “Eros” em agonia e as demais relações interpessoais em mera reprodução de si mesmo, posto que o objetivo das relações tornou-se engolir o outro, reduzindo-o à si mesmo, como o agente Smith[3] .

 

Nos últimos tempos tem-se propalado o fim do amor. Hoje, o amor estaria desaparecendo por causa da infinita liberdade de escolha, da multiplicidade de opções e da coerção da otimização. Num mundo de possibilidades infinitas, o amor não tem vez. [...] Mas essas teorias sociológicas do amor não percebem que... não é apenas a oferta de outros outros que contribui para a crise do amor, mas a erosão do Outro, que por ora ocorre em todos os âmbitos da vida e caminha cada vez mais de mãos dadas com a narcisificação do si-mesmo. O eros aplica-se em sentido enfático ao outro que não pode ser abarcado pelo regime do eu. No inferno do igual, que vai igualando cada vez mais a sociedade atual, já não mais nos encontramos, portanto, com a experiência erótica.

(Byung-Chul Han)

 

Como bem afirma Dulci, todo reducionismo é empobrecedor, e impede o diálogo com as demais esferas da vida social. O ser humano, como é de saber comum, é integral e bem mais complexo que o mercado e suas afeições. A afetividade faz parte do ser humano, mas não é todo ele. As relações econômicas fazem parte da humanidade, mas, não é em essência toda ela.

O resultado da costura pós-moderna, de indivíduos que estão afastados de seu criador, é o monstro de Frankenstein. Mas, não é esse o melhor caminho para se viver.

Como cristãos, o que fazer para não sermos engolidos pela cultura pop? Que paradigma usar? Como viver relacionamentos sólidos em tempos de liquidez? A resposta está na Trindade. C S Lewis em sua obra “Os quatro amores” traz duas definições de amor bem interessante, que pode nos auxiliar nesse caminho para fora da liquidez: a) Amor-dádiva e b) Amor-necessidade. O primeiro é voltado para o sacrifício e do serviço, enquanto que o segundo está pautando em suprir nossas carências e desejos.

O paradigma de amor apresentado por Lewis é a trindade. O relacionamento de interpretação e amor-dádiva entre Pai, Filho e Espírito Santo devem ser nossos parâmetros para amar, ser e viver. Ter nossa identidade atrelada à Cristo nos livra da fragmentariedade. O objetivo é discipular nossas afeições por meio da pericorese[4]. O Pai se doando ao Filho, o Espírito revelando o Filho, e o Filho exaltando o Pai, e de mãos dadas dançam eternamente essa perfeição de amor e doação à humanidade, convidando-nos de volta a entrar na dança dos três.

Cristo não é apenas o mediador entre Deus e os homens, mas entre mim e os meus semelhantes. Cristo nos impede de engolir o outro em nossos relacionamentos. Cristo nos livra da violência contra o outro, de modo a impedir que façamos de nossos irmãos alguém pessoas idênticas a nós. Cristo é a rocha que nos livra da liquidez e das confusões deste século. Cristo, há solidez no Cristo! Olhando para Ele não seremos abalados ou confundidos!





[1] Frankenstein ou o Prometeu Moderno, romance escrito no século XIX (1823) por Mary Shelley.

[2] Zigmunt Bauman foi um sociólogo e filósofo polonês. Ficou mundialmente conhecido por sua teoria da liquidez nas relações sociais. Suas principais obras são: Modernidade líquida e Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos.

[3] Personagem da trilogia Matrix, interpretado por Hugo Weaving. Era o principal inimigo do personagem principal, Neo (Keanu Reeves).

[4] Termo da teologia cristã encontrado na literatura patrística e em outras obras posteriores. Ele se refere à mútua interpenetração e coabitação das três pessoas da Trindade.