quinta-feira, 25 de agosto de 2022

O poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (Parte II - Um testemunho pessoal)


Todo medo é medo de morrer
Até o medo de não ser amado
Todo medo é medo de não ter
Um alguém por quem vai ser cuidado
O pé para fora da cama
O Judas que a noite trama
O abismo silente me chama
Mãe, ninguém me ama
Teu amor me assombra e quem não vê
Que o herói não passa de um bebê
Vou morrer de amor e vou viver
Com medo e sem temer

(Estevão Queiroga)

Ilustração: Francisco Veiga


Em 27 Dezembro de 2021 sofri um acidente de carro. Estava eu e três amigas missionárias em um carro pilotado por uma delas. Foi durante uma viagem ao sul da Guiné Bissau, entre os feriados e celebrações de fim de ano. Havia uma curva no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma curva. Nossa amiga perdeu o controle do carro, mas graças a Deus tinha uma árvore próxima à curva. O carro rodou, bateu na árvore e tombou para o lado oposto.

Quando o carro parou minhas emoções estavam desarranjadas, foi o momento em que paralisei. Havia uma janela aberta, pois o vidro havia sido quebrado pelos galhos da árvore, mas não consegui raciocinar e perceber que poderia sair por conta própria. Minha reação foi apenas gritar (quase que sem voz): "Socorro! Nos ajude!" E foi então que a comunidade chegou, e dois braços fortes me arrancaram de dentro do carro.

Quando o susto passou, e voltei à racionalidade, pensei: “Você poderia ter pulado e saído do carro. Você tinha recursos que poderia ter usado. Que fraca!”. Compartilhando com uma de minhas amigas que também passara pela situação, ela me disse: “Deus conhece nossas limitações, Ele sempre vai preparar outros braços quando os nossos forem insuficientes”. Foi um momento de muita vulnerabilidade.

 

O poder que se aperfeiçoa na fraqueza

E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.

(II Coríntios 12:9)

Nesse texto, o apóstolo Paulo fala sobre seu “espinho na carne”, e mostra a oração que ele faz ao Senhor, em relação a essa dolorosa parte de si. As especulações a respeito do que seria esse espinho na carne é diversa no meio dos teólogos. Mas, o ponto que gostaria de ressaltar aqui, e o que Paulo também faz questão de enfatizar, é a graça de Deus em meio à sua fraqueza. O poder de Deus se sobressaindo às incapacidades e insuficiências do ser humano.

Paulo não faz questão de detalhar sobre o espinho, nem mesmo como seria “o mensageiro de satanás” que vinha para esbofeteá-lo. A ênfase de Paulo está no que Deus disse: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. É a graça de Deus que lida com nossas insuficiências e nos instrui no caminho do quebrantamento e da pobreza de espírito (humildade). É a graça de Deus que nos capacita para percorrer o caminho do discipulado e viver o propósito que Ele escreveu para nossas vidas, e assim glorificá-Lo.

É Jesus quem nos ajuda com a nossa incredulidade, Ele nos fortalece quando a confiança nos falta, Ele tem colírio quando nossos olhos falham. E a impressão que temos de estar em um lugar além da nossa capacidade, é mesmo uma oportunidade para nos humilharmos na presença de Deus e permitir que Seu poder opere em nós. A disposição em permanecer onde estamos ou nos mover em outra direção é resultado dessa dependência, da certeza de que Ele é suficiente em todas as situações e decisões.

 

Braços que não falham  

Estar convicto de que sempre teremos amparo e sustento nas mais difíceis e dolorosas situações não significa que sempre teremos um braço humano (de carne) nessas situações, mas é saber que mesmo quando nenhum braço estiver presente, Deus estará. Ele é socorro, Ele é braço forte e refúgio seguro. O amparo e presença de Deus serve tanto para o milagre de livramento, quanto para situações de dor e sacrifício. O Deus forte estava presente tanto na cova dos leões com Daniel, como na fogueira quando Policarpo foi duramente martirizado. O braço forte do Senhor é certeza, tanto para a era presente quando para o porvir.


Tu tens um braço poderoso; forte é a tua mão, e alta está a tua destra.
Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto.
(Salmos 89:13,14)

E tirou a Israel do meio deles; porque a sua benignidade dura para sempre;
Com mão forte, e com braço estendido; porque a sua benignidade dura para sempre;
(Salmos 136:11,12)

A expressão: “Mão forte e braço e estendido”, repetida diversas vezes na bíblia hebraica (Antigo Testamento), mostra o poder de Deus em favor de Israel. O significado dessa expressão é de que a vontade de Deus é irresistivelmente poderosa, nada pode contra Seus planos e desígnios. É irrelevante o homem tentar se levantar contra o que Deus já estabeleceu.

É o braço forte do Senhor que nos livra da morte e supre cada uma das nossas necessidades. É o braço forte do Senhor que nos leva para a morte e nos ensina a viver uma vida de crucificação e renúncia. É o braço forte do Senhor que faz cumprir seus planos, e como disse Jó: Bem sei que tudo podes e nenhum dos seus planos podem ser frustrados. (Jó 42:2)

terça-feira, 21 de junho de 2022

Arrependei-vos, pois é chegado o reino

 



Permita-me aprender pelo paradoxo

que o caminho para baixo

é o caminho para cima,

que ser humilde é ser elevado,

que o coração quebrado

é o coração sarado,

que o espírito contrito

é o espírito alegre,

que a alma arrependida

é a alma vitoriosa,

que não ter nada é possuir tudo,

que suportar a cruz é usar a coroa,

que dar é receber,

que o vale é o lugar da visão.

 

(Orações puritanas – Vale da Visão)

 

A cosmovisão cristã é fundamentada por uma narrativa, poderíamos resumi-la em: criação, queda, redenção e consumação. Esses são os óculos pelos quais podemos vislumbrar relacionamentos, artefatos culturais do mundo ao nosso redor, e também nosso relacionamento com Deus e vida cristã. Essa perspectiva cíclica deve fazer parte do nosso culto e da nossa casa, é exatamente isso que chamamos de liturgia, a forma como organizamos o culto.  Pois a final de contas precisamos de rotina, precisamos do ordinário, precisamos de repetições. É por meio da repetição que somos aperfeiçoados.

O mundo atual quer nos levar a acreditar que rotina é coisa chata, e que a novidade precisa estar presente a todo o momento para nos livrar do tédio. Contudo, Deus se faz presente no ordinário de nosso dia a dia. Ele nos ensinou a participarmos de uma liturgia repetitiva com um propósito. Talvez você já tenha lido o livro de Êxodo (do capítulo 20 em diante) ou o livro de levíticos, e pensou: “Porque esses livros estão na Bíblia? Que coisa repetitiva e chata! Jesus veio, porque preciso ler esses livros também?”.

A natureza cíclica e repetitiva dos rituais em Levíticos causa exatamente essa impressão em nós, não é mesmo!? Mas, há beleza e propósito nisso. Nos fazer entender que nosso relacionamento com o Senhor exige de nós esse constante reconhecimento de nossas fraquezas (queda), e em seguida, pela graça, receber perdão com confiança na obra perfeita da cruz (redenção). Todos os dias o sacerdote deveria repetir o mesmo ritual, e quando havia um pecado específico, a pessoa oferecia uma sacrifício específico por aquele pecado. Isso nos mostra a importância do arrependimento. Caminhar com Cristo é andar em arrependimento e novidade de vida.

 

O que é arrependimento?

“E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judéia, E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.”

(Mateus 3:1,2)

 

O arrependimento é uma disposição de coração. Arrependimento foi a mensagem pregada por João Batista e Jesus. No Sermão do Monte, aqueles que choram são chamados de bem-aventurados. Quando fazemos um estudo desse texto – As bem aventuranças – no sermão de Jesus (Mateus 5), percebemos que todas as “bem aventuranças” estão interligadas, pois elas se referem àqueles que buscam amar a Deus e obedecê-lo. Portanto, “os que choram”, são aqueles que repetidamente se arrependem dos seus pecados. Choram, pois tem fome e sede de fazer a vontade de Deus. O consolo para os que choram é que um dia, o Messias vai retornar e seus corpos não estarão mais subjugados ao pecado e a morte.

Arrependimento é sinal de novo nascimento. Jesus em sua conversa com Nicodemos, em João 3, fala a respeito desse detalhe tão importante na vida religiosa. A diferença do cristianismo com as demais religiões é esse fenômeno interior, realizado inteiramente pela graça de Deus. Uma das evidências do novo nascimento é o arrependimento. E o que isso significa na prática? Abandono de antigas práticas, que são contrárias ao reino e à vontade de Deus. É uma obra inteiramente do Espírito, pois recebemos olhos para ver a condição deplorável à qual nos encontramos. Nas palavras de Dane C. Ortlund:

O novo nascimento não nos transforma simplesmente dando-nos um novo poder para fazer as mesmas coisas que sempre desejamos fazer. Ele nos muda por descer profundamente, até mesmo no nível de nossos desejos, e mudar o que nós queremos. [...]Um cristão nascido de novo traz consigo "uma mudança realizada nos conceitos de sua mente e nos gostos de seu coração" (Jonathan Edwards)

É válido ressaltar ainda que o arrependimento é diferente do remorso. Ambos envolve as emoções, todavia o primeiro está diretamente relacionado à uma consciência moral a respeito da lei do Senhor; o segundo tem o próprio ser humano como centro, ele “se arrepende” de estar recebendo as consequências de seus atos (pecados) e não necessariamente do que fez.

 

Arrependimento é sinal de avivamento!

Quando estudamos história da Igreja, ou a história dos avivamentos, podemos perceber algo em comum em todos eles, vida de oração e retorno às escrituras, como consequência temos arrependimento e conversões genuínas. Savanarola foi um dos precursores na Reforma Protestante, sua mensagem pelas ruas de Florença era um constante apelo para seus compatriotas abandonassem o pecado e se voltassem para Deus em arrependimento.

O mesmo percebemos nos dias de Jonathan Edwards e Jhon Wesley, durante o avivamento de santidade. Uma vida de consagração e entrega completa ao Senhor. O arrependimento nos faz entender que não é possível nos relacionar com Deus à nossa maneira, e que para andar com Ele é preciso reverência e santidade. Andar como Ele andou.

Arrependimento é sinônimo de humilhação e quebrantamento

Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração. Entristeçam-se, lamentem e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza. Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará.

(Tiago 4:8-10)

O arrependimento está relacionado com esse “aproximar-se de Deus”. Tristeza e lamento é fruto desse convencimento, vindo da parte do Espírito de Deus. Um inestimável presente concedido àqueles que foram encontrados pela graça. Quando olhamos o contexto bíblico, podemos perceber o que a palavra “humilhar” significa na prática. Humilhar está sempre relacionada ao jejum. Perceba que é um caminho cíclico: Arrependimento nos leva ao jejum, mortificação da carne e redirecionamento de nossas vontades e desejos, que leva ao quebrantamento, que é sinônimo de humilhação. Pode ser que a ordem não seja exatamente essa, mas esses são eventos repetitivos na vida daqueles que decidiram andar com Deus.

 

Oração

Arrependei-vos! Arrependamo-nos, pois o reino já veio e está chegando. Que não faltem lágrimas em nossos olhos pelos nossos pecados e pela nossa falta de amor ao Senhor! Que o choro seja nosso companheiro quando nos depararmos com nossos ídolos e coração duro. Amém!


sábado, 30 de abril de 2022

Muito da realidade na ficção

 

"Por que você está tão furioso?", o Senhor perguntou a Caim. "Por que está tão transtornado? Se você fizer o que é certo, será aceito. Mas, se não o fizer, tome cuidado! O pecado está à porta, à sua espera, e deseja controlá-lo, mas é você quem deve dominá-lo."

(Gênesis 4:6,7)

 

Imagem do primeiro filme de ficção científica (1902

Não sei se você tem o hábito de ler ficção, mas elas costumam nos dizer muito sobre a realidade e são ferramentas eficazes na transmissão de princípios e valores. Um cristão deve adquirir o hábito de ler ficções, pois ao termos contato com os mais diversos gêneros literários da nossa época podemos entender melhor os escritos bíblicos. Como assim? Deus escolheu gêneros literários específicos de épocas específicas[1] para transmitir sua mensagem. Quando Deus escolheu falar a língua dos homens ele também incluiu recursos artísticos e estéticos dessa linguagem. Coisa linda, não é mesmo!?

No mês de dezembro estava lendo uma ficção fantástica, o primeiro volume da trilogia do professor Wurlitzer[2]: “As crônicas de Olam”. E no mês de Abril comecei esse romance policial da famosa escritora britânica, Agatha Christie. Confesso que minha curiosidade pela obra veio com o lançamento do filme – Morte no Nilo – que ainda não tive oportunidade de assistir. A leitura é bem tranquila e o leitor vai entendendo os fatos a partir das falas dos personagens.

A trama envolve diferentes pessoas da alta sociedade inglesa e norte americana, uma melhor amiga que “rouba” o noivo da outra, ressentimentos, e é claro um assassinato. O ambiente da trama é o Nilo, e o consagrado personagem de Agatha Christie, Hercule Poirot[3] está de férias no cruzeiro e é convidado a investigar o caso. É interessante como a escritora coloca Poirot, com sua experiência criminal, como uma espécie de psicólogo e conselheiro daqueles que estão envolvidos na trama. Nos dizeres do personagem: “A psicologia é o fator mais importante num caso.”

 O Pecado está à porta

Uma das falas de Poirot que mais me chamou atenção foi em sua conversa com Jackeline Bellefort, a amiga traída. Após ouvir o que estava em seu coração e perceber que a amargura havia tomado conta do coração da moça, Poirot dá um conselho muito semelhante ao que Deus dá a Caim, logo após o culto que ele e Abel prestaram ao Senhor.

– Mademoiselle, eu lhe imploro, não faça isso.

– O senhor quer que eu deixe Linnet em paz.

– É algo mais profundo do que isso. Não abra seu coração ao mal.

Boquiaberta, uma expressão de perplexidade surgiu em seu olhar.

Poirot continuou, em tom grave:

 – Porque se abrir, o mal entrará... Sim, o mal certamente entrará... Entrará e fará morada dentro da senhorita. Depois de um tempo, já não será possível expulsá-lo.

(Conselho de Poirot à senhorita de Bellefort)

 

Essa é uma lição preciosa! Não podemos achar que o pecado é inofensivo, suas consequências são devastadoras e a tendência é nos levar para níveis maiores de queda espiritual e moral. Quando Poirot fala sobre “não ser possível expulsá-lo”, ele se refere às sérias consequências que os sentimentos de amargura e vingança podem causar. Um sentimento errado, cultivado em nossos corações podem ter consequências irreversíveis. Como assim, a graça de Deus não pode alcançar esses corações que se entregaram completamente ao mal? Pode, mas nem sempre isso acontece. Muitos se perdem para sempre!

São exemplos disso, Caim e Judas. Ambos não encontraram o caminho para o arrependimento de seus sentimentos desalinhados e suas ações de morte. A graça de Deus é poderosa para superabundar onde o pecado um dia reinou, mas isso não nos permite brincarmos com o mal.  A advertência dos apóstolos é sempre para fugirmos da aparência do mal, praticarmos o perdão – para que a amargura não crie raízes em nossos corações –, fugirmos das paixões desse mundo e buscarmos sempre estar em paz com todos. Essas advertências são maneiras de Deus nos dizer: “Para que suas emoções funcionem bem, você precisa de mim. Seus afetos e paixões precisam estar voltados para mim! Eu preciso ser o centro dos seus afetos!”

É interessante que Caim mata seu irmão, logo após participar de um culto ao Senhor. Parece completamente estranho e pouco provável de acontecer, mas é algo completamente real onde há corações que brincam com o pecado. Em um de seus discursos públicos, Jesus mostrou a todos a raiz do pecado: “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”. (Mateus 15:18,19)

 

Os vilões da ficção

Não sei se você já percebeu, mas normalmente um vilão, com raras exceções, em algum momento da narrativa, praticava o bem. Usando a linguagem de “Star Wars”[1], antes de passar para o “Dark side of force” (lado escuro da força) o vilão estava entre os “heróis”. Os autores das ficções, em sua maioria, mostram que essa mudança de “lado” se dá devido a pensamentos e desejos errados – anseio por poder, fama ou dinheiro. O progresso desses personagens é se afundar cada vez mais no abismo. A maior parte deles tem um fim sem redenção, mas há exceções como na própria franquia “Star Wars”, com seu personagem Darth Vader.

Outro ponto interessante para se observar nessas mesmas obras são as ligas de vilões. Normalmente elas se formam a partir do ressentimento, ou raiz de amargura, que boa parte nutre contra algum dos “mocinhos”. Ou mesmo, porque os anseios por reino, poder e glória já dominam o coração dos mesmos. Há também aqueles que estão, de outra maneira, emocionalmente desequilibrados, ou se encontram em situação de vulnerabilidade emocional[2], sendo assim, presas fáceis para “o chefe dos vilões”. Estes, por sua vez, possuem uma personalidade forte com bastante habilidade argumentativa, perspicácia e controle emocional.

O que poderíamos dizer diante de tantas realidades que as ficções nos mostram? O coração do homem é um dispositivo de adoração! Fomos projetados para esse fim, e nossa natureza caída terá uma tendência a escolher o que é mal. Mas, a graça de Deus nos capacita a escolhermos o que é bom!

 

Conclusão

Aquilo que cultivamos em nossos corações, floresce e frutifica, seja coisa boa ou coisa ruim. Não pense que conseguimos por nossas próprias forças cultivar alguma coisa boa, o caminho para esse tipo de plantio passa pelas disciplinas espirituais. É justamente por esse motivo que precisamos tanto da oração. E em nossas orações, precisamos sempre clamar ao Pai, graça, para vencer o pecado. Graça, para amá-Lo mais do que todas as outras coisas. Graça, para ser semelhante a Cristo.

É somente uma vida de crucificação – negando nossa vontade caída – que nos levará a ser quem nós nascemos para ser. Somente a cruz pode esconder quem não somos[3]. Esse é motivo pelo qual temos tantas versões terríveis de seres humanos; temos nos deparado com as piores versões nos últimos tempos, não é mesmo? Nunca duvide disso, podemos fazer (ser) coisas horripilantes quando andamos independentes de Deus. Só Jesus pode nos ensinar a ser a versão de humanidade que nascemos para ser. Somente em Jesus podemos ser a melhor versão de nós mesmos.

Por fim, irmãos, quero lhes dizer só mais uma coisa. Concentrem-se em tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é correto, tudo que é puro, tudo que é amável e tudo que é admirável. Pensem no que é excelente e digno de louvor.

(Filipenses 4:8)



[1] Guerra nas estrelas – é uma franquia do tipo space opera estadunidense criada pelo cineasta George Lucas, que conta com uma série de nove filmes de fantasia científica e dois spin-offs. O primeiro filme foi lançado apenas com o título Star Wars, em 25 de maio de 1977, e tornou-se um fenômeno mundial inesperado de cultura popular.

[2] Um exemplo de personagens assim é Queenie Goldstein (interpretada pela atriz norte-americana, Alison Loren) da franquia Harry Potter. Filmes: “Animais fantásticos”.

[3] Parte da música dos Arrais, 17 de Janeiro. 



[1] A Bíblia (livros) é um compilado de diversos gêneros literários: Narrativas, cartas, profecias, evangelhos (biografias teológicas), poesias, apocalipses, etc.

[2] L. L. Wurlitzer.

[3] Hercule Poirot é um detetive belga fictício criado pela romancista inglesa Agatha Christie. Junto com Miss Marple, é uma das personagens mais famosas da romancista, aparecendo em 33 romances e 51 contos, publicados entre 1920 e 1975.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Sobrenatural - Anjos e Demônios

 

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse,

(Colossenses 1:15-19)



Um dos pontos dentro do imaginário cristão que mais geraram mitos e diferentes teologias diz respeito ao surgimento e aparência dos anjos e demônios. Normalmente esses mitos recebem modificações nas diferentes gerações e localidades que o abarcam. Ao mesmo tempo que observamos os espantalhos criados em cima dessas duas categorias de seres celestiais, não podemos ignorar a menção dos mesmos nos relatos bíblicos. E dentro dessa perspectiva precisamos nos questionar, como faz Michael Heiser no prefácio de seu livro “Sobrenatural”: “Você realmente acredita no que a Bíblia diz?”.  

O que são os anjos? Suas características físicas se assemelham às obras de arte renascentistas, semelhantes a bebês alados, brancos de olhos azuis? E os demônios, o que são e como surgiram? Estão na mesma categoria dos anjos? O que a Bíblia tem a nos dizer a esse respeito?

O que aconteceu no Éden?

O Éden era a casa de Deus. Era o local de intercessão entre céu e terra. E sendo a casa de Deus, esse jardim era habitado por toda sua família – seres celestiais e humanidade (quando foi criada). Dentre os seres celestiais temos os Querubins / Serafins – serpentes aladas flamejantes – que vivem diante do trono de Deus. Esses seres são responsáveis pela guarda da presença de Deus, temos a descrição deles em Ezequiel 1 e Apocalipse 4 (Seres viventes).

Éden também era o lar de Deus. Ezequiel se refere ao Éden como “o jardim de Deus” (Ezequiel 28:13; 31:8-9). Isso não me surpreende, de jeito nenhum. O que talvez seja surpreendente é saber que, logo após chamar o Éden de “jardim de Deus,” Ezequiel o chama de “montanha santa de Deus” (28:14). (Michael Heiser)

Essa linguagem era perfeitamente entendida pelo imaginário do Antigo Oriente Próximo, a maior parte dos povos tanto daquela região como os da região da América vão construir “montanhas” para se relacionarem com o divino. Essas montanhas eram chamadas de “Zigurates”, uma espécie de pirâmides. Uma tentativa de trazer o céu para a terra, novamente[1].

Quando Deus cria o homem e a mulher, ele compartilha essa notícia com o restante de sua família, todavia, parte dela não concorda com os planos do Criador, então acontece uma quebra na unidade celestial. Um dos Querubins da guarda de Deus age de modo independente e seduz a humanidade a viver também dessa forma.

O Conselho Divino

Desde o princípio, Deus escolheu compartilhar sua natureza e governo. Ele escolheu viver em família. É fato que constatamos isso ao afirmarmos que Deus é Pai, Filho e Espírito; todavia, a família de Deus, além do próprio Deus, é também composta por Seres Celestiais. Quando a humanidade foi criada, diversos Seres Celestiais já existiam e governavam a criação juntamente com o Senhor.

Há diversas passagens bíblicas que se referem a esse Conselho Divino. Normalmente são referidos como “Filhos de Deus” ou “deuses”. Na Bíblia hebraica a palavra para deuses é “elohim”, muitos cristãos acham que esse é um nome de Deus, mas essa é a forma plural para se referir a qualquer espírito ou corpo celeste – sejam demônios, alma de seres humanos após a morte e até mesmo o próprio Deus. Eles também podem ser identificados como “Exército dos céus”, que recebiam a adoração das nações que não conheciam ao Senhor, e em alguns momentos da história receberam a adoração também do povo de Israel (Deuteronômio 29:26 e 32:17).

Deus preside a assembleia dos céus; no meio dos seres celestiais, anuncia seu julgamento: [...]Eu digo: ‘Vocês são deuses, são todos filhos do Altíssimo. Morrerão, porém, como simples mortais e cairão como qualquer governante’". Levanta-te, ó Deus, e julga a terra, pois todas as nações te pertencem.

(Salmos 82:1, 6-8)

Os deuses do Salmo 82:1 são chamados de “filhos do Altíssimo [Deus]” no versículo posterior (v.6). Os “filhos de Deus” aparecem várias vezes na Bíblia, geralmente na presença de Deus (como em Jó 1:6, 2:1). […] Os filhos de Deus também são responsáveis por decisões. Aprendemos em 1 Reis 22 (como em muitas outras passagens) que o negócio de Deus incluía interação com a história humana. (Michael Heiser)

Esses seres celestiais que compõem o Conselho Divino se rebelaram contra o Senhor, e conforme vemos no relato bíblico vão direcionar a humanidade também nesse caminho de rebelião. É o que acontece em Babel (Gn 11). O episódio de Babel é o momento em que Deus deixa que as nações vivam de modo independente, longe de seus preceitos e de Sua presença. Deus abre mão temporariamente de seu plano original – expansão do Éden por toda terra e governo sobre todas as nações. Parece estranho ler isso, mas é exatamente isso que o texto bíblico diz (Deuteronômio 32:8[2]).

O Salmo 82 mostra que os Seres Celestiais designados para governar as nações praticaram injustiças e não observaram os preceitos de Deus, portanto estão condenados a perderem sua imortalidade. Judas relata, no versículo 8 de sua carta, que alguns Anjos “não se limitaram à autoridade recebida” e estão acorrentados até o dia do julgamento.

 

Anjos e Demônios

O significado da palavra Anjo, na Bíblia, é mensageiro. O que vemos nos relatos do Antigo e Novo Testamento (Gn 18 e 19 / Lucas 1) é que eles tem uma aparência humana, mas algo de celestial, pois os que tiveram experiência com esses seres os identificavam como mensageiros de Deus. Não há nenhuma descrição de asas e afins. Há também uma expressão muito interessante no Antigo Testamento, o “Anjo do Senhor”, é possível afirmar – pelas características e descrições de cada texto – que trata-se do próprio Deus em forma humana, os teólogos chamam isso de “Teofania”.

Os demônios são seres diferentes, G. H Pember os define como “seres desencarnados”, ou seja, não possuem corpo. A tradição hebraica entende que os demônios são espíritos dos Nefilim (Gn 6)[3], a alma dos filhos que alguns Anjos (Filhos de Deus) tiveram com as “filhas dos homens”. Michael Heiser afirma:

Demônios são espíritos defuntos dos nefilim que morreram antes e durante o Dilúvio. Eles perambulam pela terra atordoando os homens, em busca de reincorporação. [...] A Bíblia não diz, em Gênesis, muito mais a respeito do que aconteceu, mas fragmentos desta história se revelam em outras partes da Bíblia, bem como em tradições judaicas não incluídas na Bíblia que os autores do Novo Testamento conheciam bem e, inclusive, citaram em seus escritos. Por exemplo, Pedro e Judas descrevem os anjos que pecaram antes do Dilúvio (2 Pedro 2:4-6 ARC95; leia também Judas 5-6). Algumas das suas citações provêm da literatura judaica que não foi incluída na Bíblia. Pedro e Judas dizem que os filhos de Deus que cometeram esta transgressão foram presos debaixo da terra—ou seja, estão pagando sentença no inferno—até os últimos dias.

 

Conclusão

É importante sabermos essas diferenças, em relação aos Seres Celestiais, tanto para melhor entender e explicar o texto bíblico, como também para crer corretamente e não desejar experiências que misturem essas categorias. Portanto, Anjo é diferente de Serafim, os que vão ultrapassar a esfera celeste para a humana são os primeiros. Ezequiel, Daniel e João viram o Trono de Deus, por isso viram também os Seres que habitam na presença de Deus.

Normalmente nos aproximamos desses estudos com o intuito curioso de saber mais. Desejar ver anjos mais do que conhecer a Cristo, por meio de sua palavra, é um erro. No meio cristão as experiências sobrenaturais mais visadas ou consideradas “fortes” é ver anjos e demônios, todavia, a experiência que fortalece e edifica nossa fé é conhecer a Jesus. Ter mais revelação – luz e olhos para ver – da pessoa de Jesus. Conhecê-Lo é ter mais de Seu caráter em nosso próprio caráter. Refletir mais a glória de Deus.

 



[1] Se você deseja saber um pouco mais sobre o assunto leia: Os outros da Bíblia – André Reinke.

[2] “Quando o Altíssimo distribuiu a terra entre as nações, quando dividiu a humanidade, fixou o limite dos povos, de acordo com o número dos filhos de Deus (o número dos anjos)”. (Versão dos Manuscritos do Mar Morto e Septuaginta, respectivamente)

[3] Há teólogos e exegetas que interpretam esses “Filhos de Deus” como a linhagem de Sete, e “As filhas dos homens” sendo a linhagem de Caim, e os filhos gerados a partir dessa mistura, teriam sido grandes heróis da antiguidade – homens de grande fama e poderosos socialmente. 











quarta-feira, 2 de março de 2022

Tempo de silêncio


No silêncio, na calmaria que antecede a dor
No escuro, na pausa entre a chuva e o primeiro trovão
Seja minha canção
Estrofe, ponte e refrão

(Os Arrais)


Esse mês de fevereiro comecei a aprender o francês por meio de um método pouco convencional, não muito popular entre as escolas de idiomas, método Greg Thompson. A primeira vez que tive contato com esse estilo de aprendizado de língua foi durante meu treinamento na missão ALEM, em linguística e missiologia – 2018. Nesse programa o aluno passa por um processo de imersão controlada, na língua e cultura alvo. É necessário um auxiliar linguístico, falante nativo e um facilitador que faz a mediação no aprendizado. O processo é o mais natural possível, como um bebê que acabou de nascer – ouve para depois falar, e só depois adquire as outras habilidades da língua (ler e escrever).

Nas duas primeiras semanas de curso os alunos apenas ouvem e apontam. Parece estranho, por estarmos acostumados a ouvir e a repetir, mas o processo aqui é justamente te fazer calar para escutar bem a pronúncia. Ficar em silêncio para ouvir com clareza o que o falante está pronunciando. É agoniante para quem já acha que sabe. É agoniante para quem está acostumado com falar, repetir e falar. Mas, é um excelente método para treinar os ouvidos e a atenção de quem aprende.

Tenho estudado francês há pouco mais de um ano, aprendendo com professores Online e outros métodos tradicionais. Com um pouquinho do básico achei que poderia seguir para outro nível, mas ao chegar aqui no Senegal meu chefe falou: “Temos turma começando apenas do zero. Aproveite a oportunidade para revisar e aperfeiçoar sua pronúncia!”.  E logo no primeiro dia de aula, Deus falou claramente: “É tempo de ficar em silêncio e ouvir!”. É tempo de afinar os ouvidos.

O habito de ouvir a voz de Deus é difícil de se adquirir, e fácil de se perder. O ativismo e as demandas que temos com aquilo que consideremos prioridade em nossa rotina, costuma engolir por completo o tempo que gastaríamos praticando a presença de Deus. Isso é tão visível em nossas orações e devocional diário, mais falamos que ouvimos; mais pedimos que contemplamos (o Cristo das escrituras). E meu aprendizado desse mês foi sobre retornar ao silêncio.

 

O poder da voz de Deus



A voz do Senhor ecoa sobre o mar, o Deus da glória troveja; sobre o imenso mar, o Senhor fala.
A voz do Senhor é poderosa, a voz do Senhor é majestosa.
A voz do Senhor quebra os grandes cedros, o Senhor despedaça os cedros do Líbano.
Faz os montes do Líbano saltarem como bezerros, faz o monte Hermom pular como novilhos selvagens.
A voz do Senhor risca o céu com relâmpagos.
A voz do Senhor sacode o deserto, o Senhor faz tremer o deserto de Cades.
A voz do Senhor torce os fortes carvalhos e arranca as folhas dos bosques; em seu templo todos proclamam: "Glória!".

                                                                                                                                            (Salmos 29:3-9)

 

O salmista ilustra o poder da voz de Deus por meio da natureza. Os cedros, os montes, o céu, o deserto e os carvalhos. Esses tipo de árvores, como também os montes e o deserto, citados pelo autor são típicos da região do Oriente Médio. Essa vegetação está até hoje localizada nas regiões da Líbia, Síria e Iraque. Nações poderosas e imponentes no período bíblico. Em muitas ocasiões essas nações dominaram sobre Israel, tanto econômica como socialmente. Portanto, podemos perceber que o salmista usa uma espécie de metonímia[1] para dizer que todas essas nações poderosas, imponentes e orgulhosas como a floresta de Cedros (no Líbano)[2], carvalhos e montes (Hermon), se curvarão ao ouvirem a voz de Deus.

O deserto de Cades, local estratégico para o comércio internacional, muito disputado pelos povos da região do Antigo Oriente Próximo, aqui é mencionado como sendo sacodido pela voz do Senhor! Havia uma cidade designada aos levitas nessa região, dentro do território de Issacar, Cades-Barnéia (Kadesh Barnea). No hebraico a palavra Qedesh significa santificar ou dedicar. A voz de Deus mexe com as estruturas do Seu povo. A voz do Senhor “bagunça” a nossa ordem.

O salmista nos mostra que a voz do Senhor vai trazer quebrantamento para todo coração orgulhoso, a voz do Senhor vai mover e trabalhar no meio daqueles que são santos, que pertencem à Ele. A voz de Deus quebra os opressores, mas trabalha também no coração daqueles que estão sendo oprimidos.

Precisamos de tempo para ficar em silêncio. Precisamos aprender a apreciar o silêncio, não como solidão, mas como solitude; para que a voz de Deus possa quebrar as estruturas de orgulho, autossuficiência e independência que estão enraizadas em nosso ser. A voz do Senhor precisa ecoar para que a cada dia possamos nos tornar mansos e humildes de espírito, como Jesus.

Se observarmos os primeiros versículos desse salmo, e os últimos, vamos perceber que essas nações recebem uma ordem (imperativo) para adorarem ao Senhor, a reconhecerem que Ele é Deus. Ou seja, há uma alerta para que os ouvintes se quebrantem voluntariamente. Para que os povos se submetam à essa voz que é poderosa, que vai ecoar e governar perpetuamente, independente da vontade humana; e assim o salmo é finalizado.

 

Conclusão

Que possamos nos submeter voluntariamente ao silêncio, afim de ouvirmos a voz de Deus e sermos sacudidos por ela. Que a voz do Senhor possa ecoar em nossos corações e quebrar todo orgulho, toda autossuficiência e justiça própria.

 



[1] Figura de linguagem que usa uma parte para se referir ao todo. Nesse caso a vegetação de um país (região) para se referir ao próprio país.

[2] Os Cedros dessa região podem atingir até 30 metros, e são conhecidos por sua longevidade.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

As mulheres da genealogia de Jesus


Um menino nasceu
Como um filho se nos deu
Ele é o próprio Deus
E vive em mim
Debaixo de suas asas
Eu me escondi

(Rodolfo Abrantes)


Uma das partes que os leitores da Bíblia normalmente pulam – ou leem de maneira rápida – na hora de sua leitura cronológica, são as genealogias. Principalmente aqueles leitores que estão iniciando sua caminhada de estudo e aprofundamento nas escrituras. A maior parte de nós não entende muito bem o porquê de tantas especificações de quem é filho de quem, de que fulano gerou ciclano. Porque essas partes são consideradas inspiradas por Deus como as narrativas e profecias?

Quando vamos interpretar um texto bíblico, o que precisamos considerar como princípio hermenêutico (de interpretação) é que há muitas camadas, como uma cebola, e para uma melhor compreensão cada uma delas pode ser explorada dentro do estudo bíblico. A primeira camada que podemos considerar, dentro dos textos das genealogias, é a histórico-social do povo judeu.  As genealogias estão na Bíblia porque elas possuem uma importância especial para o povo judeu; como para os demais povos de origem semítica e oriental. Saber suas origens era um requisito importante para que a cultura e tradição não morressem, principalmente quando trata-se de um povo que viveu diversos períodos de exílio, dispersão e extermínio.

Outro motivo importante, como cristãos, que podemos observar a respeito das genealogias, é que elas foram de suma importância para traçar a linhagem do Messias. As genealogias são de, certa forma, meios de prova das origens humanas de Jesus, um judeu, descendente de Judá, descendente de Davi. E é exatamente dentro dessa linhagem que toda a narrativa bíblica é desenvolvida.

Outra particularidade interessante nas genealogias é que normalmente elas não citam o nome das mulheres, por se tratar de uma cultura patrilinear (a linhagem e o nome da família eram transmitidos pelo pai de família). Mas, logo na abertura do primeiro evangelho, seu autor, fez questão de citar cinco mulheres que entraram para a história da redenção. Cinco mulheres que tiveram histórias controversas e reputações duvidosas.

 

E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão; [...] E Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé; E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias. [...]E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo.

(Mateus 1:3, 5-6, 16)

 

Tamar

A história de Tamar é bem conturbada, se não entendermos bem o contexto em que as mulheres estavam inseridas naquela época vamos julgar sua atitude de maneira precipitada e mais uma vez condená-la, como fez seu sogro e sua comunidade. Os acontecimentos estão narrados em Gênesis 38.

Segundo os relatos, Judá sai de casa e vai morar na região de Adulão, uma cidade importante dos cananeus, ali ele casa-se com uma mulher cananeia e juntos geram três filhos: Er, Onã e Selá. Quando Er estava na idade de se casar, Judá negocia o casamento do mesmo com Tamar. É importante ressaltar que as mulheres eram criadas para serem esposas, e teriam um futuro garantido por meio dos filhos que gerassem. A outra via que muitas mulheres recorriam, sem ter outras opções, era a prostituição, como profissão – fosse em um bordel ou nos templos.

O texto de Gênesis relata que Er, esposo de Tamar era mau, por isso Deus o matou. Como Er morreu sem gerar filhos, segundo a lei do levirato[1], seu irmão deveria receber a viúva como esposa e gerar um filho que herdaria no lugar do falecido. Onã recebe Tamar como esposa, mas não quer dar um herdeiro para seu irmão. Isso, aos olhos de Deus, é uma atitude má, portanto, Onã também morre sem gerar filhos.

Ante a isso temos Tamar, viúva duas vezes. Provavelmente muitos a olharam como a responsável pela morte dos maridos, uma mulher amaldiçoada. Segundo o costume Tamar deveria casar-se novamente com um dos filhos de Judá, dar continuidade à linhagem de sua família e ser amparada por esse clã. Todavia, Judá decide não dar Selá em casamento a Tamar e a manda de volta para a casa de seu pai. O status social dessa jovem mudaria para pior, uma mulher repudiada.

O que levanta questionamentos e acusações por parte dos leitores é o que vem a seguir, Tamar veste-se como prostituta cultual e se deita com seu sogro. Muitos falam: “Ah! Ela enganou Judá! Ela mentiu! E mais, se vestiu como uma prostituta, que absurdo! Como Deus pôde escolhe-la para entrar na linhagem do Messias?”. Mas, poucos perguntam: “Porque ela se vestiu como prostituta (cultual, diga-se de passagem. Aquelas que deitavam-se com os frequentadores de templos pagãos.)? Será que o sr. Judá tinha o hábito de frequentar bordeis ou templos pagãos?” ou “O que aconteceria com uma jovem viúva repudiada na época de Tamar?”.

Não foi em vão que no momento da condenação da “adúltera / prostituta”, Judá declarou: “Mais justa é ela do que eu!”. Deus transformou os frutos de um incesto nas bases da genealogia do redentor da humanidade. Deus redimiu a história de Tamar, uma cananeia, através de Perez, o fio escarlate que percorre toda a narrativa bíblica.

 

Raabe

A prostituta. Esse é título pelo qual os escritores bíblicos fazem menção de Raabe. Ela é mencionada na Bíblia mais vezes que as outras mulheres aqui descritas. No Novo Testamento, além da genealogia de Jesus, ela é citada por Tiago, em sua carta, e pelo autor de Hebreus[2]. Ambos fazem menção de Raabe como exemplo de fé.

A história de Raabe está em Josué 2, momento em que o povo de Israel está diante da terra prometida (Canaã) para conquista-la. A primeira cidade na lista é Jerico, a cidade de Raabe. Segundo o relato, ela escode os espias israelitas no terraço de sua casa. No momento em que os espias estão para ir embora, Raabe declara sua fé ao Deus de Israel e sela seu destino na eternidade. O fio escarlate pendurado na janela de uma prostituta salvou a humanidade de seus pecados e corrupções. E mais uma cananeia, gentia, entra para a linhagem do Messias.

 

Rute

A moabita. Além das citações em genealogias, Rute teve sua história contada em um livro que carrega seu nome. Esse livro é lido pelos judeus na Festa das Semanas, até os dias de hoje. É sabido que o objetivo imediato do livro de Rute era relatar a respeito da linhagem do rei Davi, todavia, vemos Deus revelando o teor da redenção na história de Rute e Noemi. O parente próximo que resgata uma família sem herdeiros. O parente próximo que se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e verdade.

Moabe era um povo descendente de Ló, ou seja, eram parentes do povo de Israel – descendentes de Abraão. Todavia, conforme a narrativa do Pentateuco, esses dois povos tornaram-se inimigos ferrenhos. Um estar no território do outro era sinônimo de estranheza e muitas vezes desprezo. A narrativa relata a viuvez de três mulheres, Noemi, Rute e Orfa. Noemi era a portadora da promessa, e Rute torna-se participante a partir do momento em que faz aliança com sua sogra.

Mais uma vez temos uma viúva, estrangeira, vindo se refugiar debaixo das asas do Deus de Israel. Muitos romantizam a história de Rute e Boaz, entretanto, o que percebemos no texto bíblico é uma jovem que abre mão de sua vida, para honrar sua sogra. Ela se dispõe a se casar com alguém que não conhece para dar continuidade à família de Noemi, que não poderia mais gerar filhos. Rute entregou sua sorte completamente ao Senhor. Ela não tinha ideia do que estava por vir, sua atitude foi consequência da afeição que sentia por Noemi.

Deus usou uma estrangeira para dar continuidade à história da redenção. Deus trouxe mais uma viúva, uma parcela rejeitada na sociedade, para a linhagem do Messias.

 

Batseba

A história de Batseba (Batsheva) está relatada em II Samuel 11. Essa parte da Bíblia normalmente é lida com constrangimento, posto que, trata-se do adultério cometido pelo maior rei de Israel. O pecado daquele que foi chamado de “Homem segundo o coração de Deus”.

Alguns filmes e novelas produzidos, normalmente, romantizam a relação de Davi e Batseba, como se houve um tempo de flerte e enamorar entre os dois. Todavia, o que o texto nos apresenta é uma situação bem diferente. Essa mulher era casada e provavelmente amava seu marido. O texto fala que ela estava se lavando fora de sua casa, pois tinha acabado de sair do seu período menstrual. Ela não poderia tomar banho dentro de casa porque as leis[3] rituais a consideravam cerimonialmente impura, portanto o banho de purificação deveria ser fora, para não contaminar ninguém.

Foi nesse momento que Davi viu e desejou a mulher de Urias. Com o poder que ele tinha, simplesmente mandou trazer Batseba para deitar-se com ela. Reis não podiam ser questionados ou ter sua vontade contrariada, caso acontecesse por parte de algum súdito, a morte era a sentença. No caso das mulheres a situação era um pouco mais complicada.

O texto nos conta que Batseba ficou grávida e avisa Davi. Segundo a narrativa, percebemos que Davi tenta esconder seu pecado de todas as maneiras, a princípio ele tenta forjar a paternidade daquela criança, não tendo êxito ele manda matar Urias e rapidamente faz de Batseba sua esposa. O verso 26 mostra que ela chorou (lamentou) pela morte de seu senhor (marido).

Deus intervém de modo sobrenatural na história dessa mulher; aquela que foi chamada adúltera entra no fio escarlate da história da redenção. Aquela que foi humilhada e teve seu marido tirado de si foi redimida através dos filhos que gerou.

 

Maria

A jovem de Nazaré. Maria, como as outras mulheres da linhagem messiânica que a precederam, sofreu estigmas que sua época trazia. O primeiro era a respeito da cidade à qual pertencia. Essa era uma região da Galileia pouco prestigiada no período que precedia a chegada de Jesus. Os judeus que viviam na região da Galileia eram vistos como judeus de segunda categoria. A Galileia era chamada de região dos gentios, judeus que não eram “puro sangue”. Consequentemente Jesus, sua família e discípulos foram vistos assim.

O segundo estigma enfrentado por Maria, foi a visita de Gabriel no período em que ela estava noiva de José. Engravidar antes do casamento era situação digna de apedrejamento segundo a lei. Não temos detalhes de tudo que essa serva do Senhor enfrentou durante o período em que ficou grávida do Espírito Santo, até José entender o propósito de Deus em todos esses acontecimentos, mas podemos imaginar sua aflição.

A mais desprezada das mulheres foi chamada Bem-aventurada. A mulher de Nazaré achou graça aos olhos do Senhor deu a luz àquele que pisou a cabeça da serpente!

 

A semente da mulher

E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.

(Gênesis 3:15)

Muitos afirmam que o pecado entrou no mundo por meio da mulher. A afirmação de culpa e responsabilidade da queda foram estigmas enfrentados no passado pelas mulheres, e continua presente na fala de muitos nos dias de hoje. Todavia, quando estamos diante do texto bíblico e o encaramos de maneira honesta, observamos quão fascinante Deus é. Logo após a queda, e toda a situação de acusação e incapacidade de assumir responsabilidades, vemos Deus deixar uma promessa de redenção. Deus, em sua soberania e presciência sabia de todos esses estigmas que as mulheres enfrentariam, e sua declaração foi a seguinte: “Você foi enganada, pecou, e trouxe maldição para a terra; mas através de você, da sua semente, a terra será novamente abençoada e os seres humanos serão redimidos![4]

Por meio de mulheres violentadas, prostituídas e adulteradas, Deus fecundou a salvação; Deus redimiu a humanidade de suas violências, prostituições, adultérios e todas as marcas nefastas que o pecado deixou nos seres humanos e na terra. Deus efetuou seu plano de redenção por meio de mulheres de reputação duvidosa. Ele é o Deus que nos vê! Ele é o Deus que sonda mente e corações. Ele é o Deus que está em missão e está totalmente comprometido com Sua vontade!

 

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.

Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto.

(Isaías 9:6,7)



[1] Deuteronômio 25:5-9

[2] Hebreus 11:31 / Tiago 2:25

[3] Levítico 15:19-30

[4] Parafraseando Gênesis 3:15, 12:3 e I Timóteo 2:14