domingo, 25 de setembro de 2022

A Bíblia

 

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para nos ensinar o que é verdadeiro e para nos fazer perceber o que não está em ordem em nossa vida. Ela nos corrige quando erramos e nos ensina a fazer o que é certo. Deus a usa para preparar e capacitar seu povo para toda boa obra.

(2 Timóteo 3:16,17)





O livro mais traduzido e difundido em toda a história da humanidade, desde os dias da Reforma Protestante até os dias de hoje a história não mudou. Mesmo em meio a períodos de humanismo e secularismo em nossas escolas filosóficas, a Bíblia continua a fazer parte da língua e cultura de muitos povos. Para nós evangélicos, é considerada nosso livro sagrado, a forma como Deus decidiu se revelar aos seres humanos. Não é em vão que somos conhecidos como “o povo do livro”. É exatamente o entendimento de que a Bíblia é a palavra de Deus (somente ela) que nos diferencia de muitas outras religiões.

A Bíblia da reforma, a forma como ela chegou para a maioria dos evangélicos de hoje, possui 66 livros, com diferentes tipos de gêneros literários. Narrativa, poesia, música, provérbios / ditos populares de sabedoria, carta, profecia, evangelho e apocalipse. Foi assim que Deus escolheu falar a língua dos homens[1], de modo criativo, cultural e ao mesmo tempo universal.

O Antigo Testamento é também o que chamamos de “Bíblia hebraica”, a compilação de três partes dos livros sagrados do povo judeu: A Torá, Os Escritos e Os Profetas. A língua que Deus escolheu para que parte de sua mensagem fosse revelada à nós foi o hebraico, a língua do povo de Israel. É válido ressaltar que alguns escritos, principalmente pós exílicos, foram feitos no aramaico. Já no Novo Testamento, os dias da encarnação de Jesus, Deus escolheu falar em grego, a língua comum após a helenização dos povos orientais, realizada por Alexandre o grande.

 

Uma colcha de retalhos?

Por mais que os vários livros que compõem a Bíblia pareçam independentes e possuam seu próprio contexto (histórico, literário e social[2]), a mensagem que carregam é a mesma. Desde Gênesis é possível perceber que as narrativas, as poesias, profecias e músicas apontavam para uma única pessoa, Cristo, o Messias. É claro que essa interpretação só vai ficar mais clara por meio do Novo Testamento e a encarnação de Jesus.

Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz; O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor; Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.

(Colossenses 1:12-20)

Portanto, é um erro interpretarmos a Bíblia como uma colcha de retalhos, um compilado de livros com histórias diferentes. A Bíblia teve como inspirador um mesmo Espírito, por mais que seus escritores foram diversos, inseridos em contextos diferentes, que lançaram mão de estilos literários diferentes, todos esperavam pelo descendente da mulher que pisaria a cabeça da serpente (Gn 3:15). Todos esperavam pelo parente próximo que os trariam de volta para a família de Deus. Todos tinham expectativa de um reino restaurado e redimido, de justiça e paz.

Quando estudamos hermenêutica, podemos entender um pouquinho dessa unidade textual das escrituras por meio do Princípio da Revelação Progressiva. Deus vai revelando sua mensagem, e as facetas de seu próprio caráter, conforme o passar das eras, de modo contextualizado e gradativo, até que chegasse a plenitude dos tempos, na chegada do Messias. E essa revelação (Bíblia), também conhecida como revelação Especial, é completamente compreensível para todos os seres humanos de todas as eras. O reverendo Ronaldo Lidório define o Evangelho (a mensagem bíblica) da seguinte forma:

O Evangelho é supracultural, pois define e explica a cultura, não o contrário; cultural, por ter sido revelado à humanidade em seu próprio contexto e história; intercultural, por juntar ao redor de Jesus pessoas de todos os povos; multicultural, ao ser destinado a todos os povos e línguas; transcultural, quando transmitido de uma cultura a outra; e contracultural, pois sempre confronta o homem em sua própria cultura.

Isso não é mesmo impressionante? Só podemos nomear esse feito como obra divina. É um milagre realizado pelo Espírito de Deus. Assim como todas as vezes que essas mesmas palavras são traduzidas[3] para os mais diversos idiomas do mundo, é um grande milagre da parte de Deus. Ele está completamente envolvido nisso, em se revelar e se fazer conhecido para todas as etnias da terra.

 

O protagonista na narrativa bíblica

Outro erro que cometemos ao lermos as narrativas a respeito de Abraão, Moisés, Josué, Débora, Rute e Davi é sempre colocarmos esses homens e mulheres como os personagens principais da história. Prova disso são as aplicações, em nossos sermões, focados em “sermos” ou “não sermos” como esses personagens. Quando lemos a Bíblia sob a perspectiva de que estamos lendo uma única história, e de que o foco está na pessoa de Deus e não em seres humanos, vamos perceber com maior profundidade a mensagem bíblica.

Cada história relatada mostra as fraquezas, incredulidades e pecados da humanidade caída. Em contrapartida, temos um Deus misericordioso, presente, suficiente e incrivelmente longânimo. O verdadeiro Herói da narrativa bíblica, perfeito em caráter e totalmente desejável em beleza e glória. O relato bíblico só confirma o que experimentamos em nosso dia a dia, mesmo em meio às nossas incapacidades e limitações, Ele é soberano! Ele está em missão, trabalhando através da imaturidade de seus filhos, fazendo com que o mal se converta em bem, para que Sua vontade se cumpra e nenhum de seus planos sejam frustrados.

Quando aprendemos a perceber Deus como protagonista na narrativa bíblica também conseguimos visualizar a pessoa de Jesus no centro, cada personagem coadjuvante apontando para o Messias, como uma sombra da perfeição de caráter que estava por vir. A palavra de Deus que se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e verdade, é também aquele que estava presente em cada período da história da humanidade.

 

Conclusão

Em Adão estava a expectativa do povo de Deus, dos filhos semelhantes ao Criador. Em Adão estava a expectativa da Igreja, a companheira que estaria em perfeita parceria com seu Senhor. Essa expectativa, com a queda, foi transferida e concretizada em Jesus, o segundo Adão. Fomos, pela graça, colocados em Jesus e por meio dele cumprimos o propósito para o qual fomos criados, glorificar o Criador.

Ao fazermos a leitura da Bíblia, considerando essas perspectivas, teremos ainda mais certeza de que não houve plano B no projeto de Deus. Pedro diz que o cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo, ou seja a queda não pegou nosso Deus de surpresa! Jesus se ofereceu como sacrifício perfeito antes de tudo ser criado e toda a história ser contada. Tudo isso apenas confirma a soberania e presciência, facetas do caráter da Trindade. Beleza e perfeição! 



[1] Se você deseja estudar mais sobre o assunto leia o livro do reverendo Paulo Won: E Deus falou na língua dos homens.

[2] Se você deseja estudar mais sobre o assunto leia o livro: Os outros da Bíblia (André Daniel Reinke).

[3] Segundo dados de 2020 da Sociedade Bíblica do Brasil, das mais de 7.300 línguas faladas no mundo hoje, somente 700 dessas línguas possuem a Bíblica completa. Temos 1.549 Novos Testamentos, 1.162 línguas com porções das Escrituras e 3.948 não possuem nada.



quinta-feira, 25 de agosto de 2022

O poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (Parte II - Um testemunho pessoal)


Todo medo é medo de morrer
Até o medo de não ser amado
Todo medo é medo de não ter
Um alguém por quem vai ser cuidado
O pé para fora da cama
O Judas que a noite trama
O abismo silente me chama
Mãe, ninguém me ama
Teu amor me assombra e quem não vê
Que o herói não passa de um bebê
Vou morrer de amor e vou viver
Com medo e sem temer

(Estevão Queiroga)

Ilustração: Francisco Veiga


Em 27 Dezembro de 2021 sofri um acidente de carro. Estava eu e três amigas missionárias em um carro pilotado por uma delas. Foi durante uma viagem ao sul da Guiné Bissau, entre os feriados e celebrações de fim de ano. Havia uma curva no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma curva. Nossa amiga perdeu o controle do carro, mas graças a Deus tinha uma árvore próxima à curva. O carro rodou, bateu na árvore e tombou para o lado oposto.

Quando o carro parou minhas emoções estavam desarranjadas, foi o momento em que paralisei. Havia uma janela aberta, pois o vidro havia sido quebrado pelos galhos da árvore, mas não consegui raciocinar e perceber que poderia sair por conta própria. Minha reação foi apenas gritar (quase que sem voz): "Socorro! Nos ajude!" E foi então que a comunidade chegou, e dois braços fortes me arrancaram de dentro do carro.

Quando o susto passou, e voltei à racionalidade, pensei: “Você poderia ter pulado e saído do carro. Você tinha recursos que poderia ter usado. Que fraca!”. Compartilhando com uma de minhas amigas que também passara pela situação, ela me disse: “Deus conhece nossas limitações, Ele sempre vai preparar outros braços quando os nossos forem insuficientes”. Foi um momento de muita vulnerabilidade.

 

O poder que se aperfeiçoa na fraqueza

E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.

(II Coríntios 12:9)

Nesse texto, o apóstolo Paulo fala sobre seu “espinho na carne”, e mostra a oração que ele faz ao Senhor, em relação a essa dolorosa parte de si. As especulações a respeito do que seria esse espinho na carne é diversa no meio dos teólogos. Mas, o ponto que gostaria de ressaltar aqui, e o que Paulo também faz questão de enfatizar, é a graça de Deus em meio à sua fraqueza. O poder de Deus se sobressaindo às incapacidades e insuficiências do ser humano.

Paulo não faz questão de detalhar sobre o espinho, nem mesmo como seria “o mensageiro de satanás” que vinha para esbofeteá-lo. A ênfase de Paulo está no que Deus disse: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. É a graça de Deus que lida com nossas insuficiências e nos instrui no caminho do quebrantamento e da pobreza de espírito (humildade). É a graça de Deus que nos capacita para percorrer o caminho do discipulado e viver o propósito que Ele escreveu para nossas vidas, e assim glorificá-Lo.

É Jesus quem nos ajuda com a nossa incredulidade, Ele nos fortalece quando a confiança nos falta, Ele tem colírio quando nossos olhos falham. E a impressão que temos de estar em um lugar além da nossa capacidade, é mesmo uma oportunidade para nos humilharmos na presença de Deus e permitir que Seu poder opere em nós. A disposição em permanecer onde estamos ou nos mover em outra direção é resultado dessa dependência, da certeza de que Ele é suficiente em todas as situações e decisões.

 

Braços que não falham  

Estar convicto de que sempre teremos amparo e sustento nas mais difíceis e dolorosas situações não significa que sempre teremos um braço humano (de carne) nessas situações, mas é saber que mesmo quando nenhum braço estiver presente, Deus estará. Ele é socorro, Ele é braço forte e refúgio seguro. O amparo e presença de Deus serve tanto para o milagre de livramento, quanto para situações de dor e sacrifício. O Deus forte estava presente tanto na cova dos leões com Daniel, como na fogueira quando Policarpo foi duramente martirizado. O braço forte do Senhor é certeza, tanto para a era presente quando para o porvir.


Tu tens um braço poderoso; forte é a tua mão, e alta está a tua destra.
Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto.
(Salmos 89:13,14)

E tirou a Israel do meio deles; porque a sua benignidade dura para sempre;
Com mão forte, e com braço estendido; porque a sua benignidade dura para sempre;
(Salmos 136:11,12)

A expressão: “Mão forte e braço e estendido”, repetida diversas vezes na bíblia hebraica (Antigo Testamento), mostra o poder de Deus em favor de Israel. O significado dessa expressão é de que a vontade de Deus é irresistivelmente poderosa, nada pode contra Seus planos e desígnios. É irrelevante o homem tentar se levantar contra o que Deus já estabeleceu.

É o braço forte do Senhor que nos livra da morte e supre cada uma das nossas necessidades. É o braço forte do Senhor que nos leva para a morte e nos ensina a viver uma vida de crucificação e renúncia. É o braço forte do Senhor que faz cumprir seus planos, e como disse Jó: Bem sei que tudo podes e nenhum dos seus planos podem ser frustrados. (Jó 42:2)

terça-feira, 21 de junho de 2022

Arrependei-vos, pois é chegado o reino

 



Permita-me aprender pelo paradoxo

que o caminho para baixo

é o caminho para cima,

que ser humilde é ser elevado,

que o coração quebrado

é o coração sarado,

que o espírito contrito

é o espírito alegre,

que a alma arrependida

é a alma vitoriosa,

que não ter nada é possuir tudo,

que suportar a cruz é usar a coroa,

que dar é receber,

que o vale é o lugar da visão.

 

(Orações puritanas – Vale da Visão)

 

A cosmovisão cristã é fundamentada por uma narrativa, poderíamos resumi-la em: criação, queda, redenção e consumação. Esses são os óculos pelos quais podemos vislumbrar relacionamentos, artefatos culturais do mundo ao nosso redor, e também nosso relacionamento com Deus e vida cristã. Essa perspectiva cíclica deve fazer parte do nosso culto e da nossa casa, é exatamente isso que chamamos de liturgia, a forma como organizamos o culto.  Pois a final de contas precisamos de rotina, precisamos do ordinário, precisamos de repetições. É por meio da repetição que somos aperfeiçoados.

O mundo atual quer nos levar a acreditar que rotina é coisa chata, e que a novidade precisa estar presente a todo o momento para nos livrar do tédio. Contudo, Deus se faz presente no ordinário de nosso dia a dia. Ele nos ensinou a participarmos de uma liturgia repetitiva com um propósito. Talvez você já tenha lido o livro de Êxodo (do capítulo 20 em diante) ou o livro de levíticos, e pensou: “Porque esses livros estão na Bíblia? Que coisa repetitiva e chata! Jesus veio, porque preciso ler esses livros também?”.

A natureza cíclica e repetitiva dos rituais em Levíticos causa exatamente essa impressão em nós, não é mesmo!? Mas, há beleza e propósito nisso. Nos fazer entender que nosso relacionamento com o Senhor exige de nós esse constante reconhecimento de nossas fraquezas (queda), e em seguida, pela graça, receber perdão com confiança na obra perfeita da cruz (redenção). Todos os dias o sacerdote deveria repetir o mesmo ritual, e quando havia um pecado específico, a pessoa oferecia uma sacrifício específico por aquele pecado. Isso nos mostra a importância do arrependimento. Caminhar com Cristo é andar em arrependimento e novidade de vida.

 

O que é arrependimento?

“E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judéia, E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.”

(Mateus 3:1,2)

 

O arrependimento é uma disposição de coração. Arrependimento foi a mensagem pregada por João Batista e Jesus. No Sermão do Monte, aqueles que choram são chamados de bem-aventurados. Quando fazemos um estudo desse texto – As bem aventuranças – no sermão de Jesus (Mateus 5), percebemos que todas as “bem aventuranças” estão interligadas, pois elas se referem àqueles que buscam amar a Deus e obedecê-lo. Portanto, “os que choram”, são aqueles que repetidamente se arrependem dos seus pecados. Choram, pois tem fome e sede de fazer a vontade de Deus. O consolo para os que choram é que um dia, o Messias vai retornar e seus corpos não estarão mais subjugados ao pecado e a morte.

Arrependimento é sinal de novo nascimento. Jesus em sua conversa com Nicodemos, em João 3, fala a respeito desse detalhe tão importante na vida religiosa. A diferença do cristianismo com as demais religiões é esse fenômeno interior, realizado inteiramente pela graça de Deus. Uma das evidências do novo nascimento é o arrependimento. E o que isso significa na prática? Abandono de antigas práticas, que são contrárias ao reino e à vontade de Deus. É uma obra inteiramente do Espírito, pois recebemos olhos para ver a condição deplorável à qual nos encontramos. Nas palavras de Dane C. Ortlund:

O novo nascimento não nos transforma simplesmente dando-nos um novo poder para fazer as mesmas coisas que sempre desejamos fazer. Ele nos muda por descer profundamente, até mesmo no nível de nossos desejos, e mudar o que nós queremos. [...]Um cristão nascido de novo traz consigo "uma mudança realizada nos conceitos de sua mente e nos gostos de seu coração" (Jonathan Edwards)

É válido ressaltar ainda que o arrependimento é diferente do remorso. Ambos envolve as emoções, todavia o primeiro está diretamente relacionado à uma consciência moral a respeito da lei do Senhor; o segundo tem o próprio ser humano como centro, ele “se arrepende” de estar recebendo as consequências de seus atos (pecados) e não necessariamente do que fez.

 

Arrependimento é sinal de avivamento!

Quando estudamos história da Igreja, ou a história dos avivamentos, podemos perceber algo em comum em todos eles, vida de oração e retorno às escrituras, como consequência temos arrependimento e conversões genuínas. Savanarola foi um dos precursores na Reforma Protestante, sua mensagem pelas ruas de Florença era um constante apelo para seus compatriotas abandonassem o pecado e se voltassem para Deus em arrependimento.

O mesmo percebemos nos dias de Jonathan Edwards e Jhon Wesley, durante o avivamento de santidade. Uma vida de consagração e entrega completa ao Senhor. O arrependimento nos faz entender que não é possível nos relacionar com Deus à nossa maneira, e que para andar com Ele é preciso reverência e santidade. Andar como Ele andou.

Arrependimento é sinônimo de humilhação e quebrantamento

Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração. Entristeçam-se, lamentem e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza. Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará.

(Tiago 4:8-10)

O arrependimento está relacionado com esse “aproximar-se de Deus”. Tristeza e lamento é fruto desse convencimento, vindo da parte do Espírito de Deus. Um inestimável presente concedido àqueles que foram encontrados pela graça. Quando olhamos o contexto bíblico, podemos perceber o que a palavra “humilhar” significa na prática. Humilhar está sempre relacionada ao jejum. Perceba que é um caminho cíclico: Arrependimento nos leva ao jejum, mortificação da carne e redirecionamento de nossas vontades e desejos, que leva ao quebrantamento, que é sinônimo de humilhação. Pode ser que a ordem não seja exatamente essa, mas esses são eventos repetitivos na vida daqueles que decidiram andar com Deus.

 

Oração

Arrependei-vos! Arrependamo-nos, pois o reino já veio e está chegando. Que não faltem lágrimas em nossos olhos pelos nossos pecados e pela nossa falta de amor ao Senhor! Que o choro seja nosso companheiro quando nos depararmos com nossos ídolos e coração duro. Amém!


sábado, 30 de abril de 2022

Muito da realidade na ficção

 

"Por que você está tão furioso?", o Senhor perguntou a Caim. "Por que está tão transtornado? Se você fizer o que é certo, será aceito. Mas, se não o fizer, tome cuidado! O pecado está à porta, à sua espera, e deseja controlá-lo, mas é você quem deve dominá-lo."

(Gênesis 4:6,7)

 

Imagem do primeiro filme de ficção científica (1902

Não sei se você tem o hábito de ler ficção, mas elas costumam nos dizer muito sobre a realidade e são ferramentas eficazes na transmissão de princípios e valores. Um cristão deve adquirir o hábito de ler ficções, pois ao termos contato com os mais diversos gêneros literários da nossa época podemos entender melhor os escritos bíblicos. Como assim? Deus escolheu gêneros literários específicos de épocas específicas[1] para transmitir sua mensagem. Quando Deus escolheu falar a língua dos homens ele também incluiu recursos artísticos e estéticos dessa linguagem. Coisa linda, não é mesmo!?

No mês de dezembro estava lendo uma ficção fantástica, o primeiro volume da trilogia do professor Wurlitzer[2]: “As crônicas de Olam”. E no mês de Abril comecei esse romance policial da famosa escritora britânica, Agatha Christie. Confesso que minha curiosidade pela obra veio com o lançamento do filme – Morte no Nilo – que ainda não tive oportunidade de assistir. A leitura é bem tranquila e o leitor vai entendendo os fatos a partir das falas dos personagens.

A trama envolve diferentes pessoas da alta sociedade inglesa e norte americana, uma melhor amiga que “rouba” o noivo da outra, ressentimentos, e é claro um assassinato. O ambiente da trama é o Nilo, e o consagrado personagem de Agatha Christie, Hercule Poirot[3] está de férias no cruzeiro e é convidado a investigar o caso. É interessante como a escritora coloca Poirot, com sua experiência criminal, como uma espécie de psicólogo e conselheiro daqueles que estão envolvidos na trama. Nos dizeres do personagem: “A psicologia é o fator mais importante num caso.”

 O Pecado está à porta

Uma das falas de Poirot que mais me chamou atenção foi em sua conversa com Jackeline Bellefort, a amiga traída. Após ouvir o que estava em seu coração e perceber que a amargura havia tomado conta do coração da moça, Poirot dá um conselho muito semelhante ao que Deus dá a Caim, logo após o culto que ele e Abel prestaram ao Senhor.

– Mademoiselle, eu lhe imploro, não faça isso.

– O senhor quer que eu deixe Linnet em paz.

– É algo mais profundo do que isso. Não abra seu coração ao mal.

Boquiaberta, uma expressão de perplexidade surgiu em seu olhar.

Poirot continuou, em tom grave:

 – Porque se abrir, o mal entrará... Sim, o mal certamente entrará... Entrará e fará morada dentro da senhorita. Depois de um tempo, já não será possível expulsá-lo.

(Conselho de Poirot à senhorita de Bellefort)

 

Essa é uma lição preciosa! Não podemos achar que o pecado é inofensivo, suas consequências são devastadoras e a tendência é nos levar para níveis maiores de queda espiritual e moral. Quando Poirot fala sobre “não ser possível expulsá-lo”, ele se refere às sérias consequências que os sentimentos de amargura e vingança podem causar. Um sentimento errado, cultivado em nossos corações podem ter consequências irreversíveis. Como assim, a graça de Deus não pode alcançar esses corações que se entregaram completamente ao mal? Pode, mas nem sempre isso acontece. Muitos se perdem para sempre!

São exemplos disso, Caim e Judas. Ambos não encontraram o caminho para o arrependimento de seus sentimentos desalinhados e suas ações de morte. A graça de Deus é poderosa para superabundar onde o pecado um dia reinou, mas isso não nos permite brincarmos com o mal.  A advertência dos apóstolos é sempre para fugirmos da aparência do mal, praticarmos o perdão – para que a amargura não crie raízes em nossos corações –, fugirmos das paixões desse mundo e buscarmos sempre estar em paz com todos. Essas advertências são maneiras de Deus nos dizer: “Para que suas emoções funcionem bem, você precisa de mim. Seus afetos e paixões precisam estar voltados para mim! Eu preciso ser o centro dos seus afetos!”

É interessante que Caim mata seu irmão, logo após participar de um culto ao Senhor. Parece completamente estranho e pouco provável de acontecer, mas é algo completamente real onde há corações que brincam com o pecado. Em um de seus discursos públicos, Jesus mostrou a todos a raiz do pecado: “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”. (Mateus 15:18,19)

 

Os vilões da ficção

Não sei se você já percebeu, mas normalmente um vilão, com raras exceções, em algum momento da narrativa, praticava o bem. Usando a linguagem de “Star Wars”[1], antes de passar para o “Dark side of force” (lado escuro da força) o vilão estava entre os “heróis”. Os autores das ficções, em sua maioria, mostram que essa mudança de “lado” se dá devido a pensamentos e desejos errados – anseio por poder, fama ou dinheiro. O progresso desses personagens é se afundar cada vez mais no abismo. A maior parte deles tem um fim sem redenção, mas há exceções como na própria franquia “Star Wars”, com seu personagem Darth Vader.

Outro ponto interessante para se observar nessas mesmas obras são as ligas de vilões. Normalmente elas se formam a partir do ressentimento, ou raiz de amargura, que boa parte nutre contra algum dos “mocinhos”. Ou mesmo, porque os anseios por reino, poder e glória já dominam o coração dos mesmos. Há também aqueles que estão, de outra maneira, emocionalmente desequilibrados, ou se encontram em situação de vulnerabilidade emocional[2], sendo assim, presas fáceis para “o chefe dos vilões”. Estes, por sua vez, possuem uma personalidade forte com bastante habilidade argumentativa, perspicácia e controle emocional.

O que poderíamos dizer diante de tantas realidades que as ficções nos mostram? O coração do homem é um dispositivo de adoração! Fomos projetados para esse fim, e nossa natureza caída terá uma tendência a escolher o que é mal. Mas, a graça de Deus nos capacita a escolhermos o que é bom!

 

Conclusão

Aquilo que cultivamos em nossos corações, floresce e frutifica, seja coisa boa ou coisa ruim. Não pense que conseguimos por nossas próprias forças cultivar alguma coisa boa, o caminho para esse tipo de plantio passa pelas disciplinas espirituais. É justamente por esse motivo que precisamos tanto da oração. E em nossas orações, precisamos sempre clamar ao Pai, graça, para vencer o pecado. Graça, para amá-Lo mais do que todas as outras coisas. Graça, para ser semelhante a Cristo.

É somente uma vida de crucificação – negando nossa vontade caída – que nos levará a ser quem nós nascemos para ser. Somente a cruz pode esconder quem não somos[3]. Esse é motivo pelo qual temos tantas versões terríveis de seres humanos; temos nos deparado com as piores versões nos últimos tempos, não é mesmo? Nunca duvide disso, podemos fazer (ser) coisas horripilantes quando andamos independentes de Deus. Só Jesus pode nos ensinar a ser a versão de humanidade que nascemos para ser. Somente em Jesus podemos ser a melhor versão de nós mesmos.

Por fim, irmãos, quero lhes dizer só mais uma coisa. Concentrem-se em tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é correto, tudo que é puro, tudo que é amável e tudo que é admirável. Pensem no que é excelente e digno de louvor.

(Filipenses 4:8)



[1] Guerra nas estrelas – é uma franquia do tipo space opera estadunidense criada pelo cineasta George Lucas, que conta com uma série de nove filmes de fantasia científica e dois spin-offs. O primeiro filme foi lançado apenas com o título Star Wars, em 25 de maio de 1977, e tornou-se um fenômeno mundial inesperado de cultura popular.

[2] Um exemplo de personagens assim é Queenie Goldstein (interpretada pela atriz norte-americana, Alison Loren) da franquia Harry Potter. Filmes: “Animais fantásticos”.

[3] Parte da música dos Arrais, 17 de Janeiro. 



[1] A Bíblia (livros) é um compilado de diversos gêneros literários: Narrativas, cartas, profecias, evangelhos (biografias teológicas), poesias, apocalipses, etc.

[2] L. L. Wurlitzer.

[3] Hercule Poirot é um detetive belga fictício criado pela romancista inglesa Agatha Christie. Junto com Miss Marple, é uma das personagens mais famosas da romancista, aparecendo em 33 romances e 51 contos, publicados entre 1920 e 1975.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Sobrenatural - Anjos e Demônios

 

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse,

(Colossenses 1:15-19)



Um dos pontos dentro do imaginário cristão que mais geraram mitos e diferentes teologias diz respeito ao surgimento e aparência dos anjos e demônios. Normalmente esses mitos recebem modificações nas diferentes gerações e localidades que o abarcam. Ao mesmo tempo que observamos os espantalhos criados em cima dessas duas categorias de seres celestiais, não podemos ignorar a menção dos mesmos nos relatos bíblicos. E dentro dessa perspectiva precisamos nos questionar, como faz Michael Heiser no prefácio de seu livro “Sobrenatural”: “Você realmente acredita no que a Bíblia diz?”.  

O que são os anjos? Suas características físicas se assemelham às obras de arte renascentistas, semelhantes a bebês alados, brancos de olhos azuis? E os demônios, o que são e como surgiram? Estão na mesma categoria dos anjos? O que a Bíblia tem a nos dizer a esse respeito?

O que aconteceu no Éden?

O Éden era a casa de Deus. Era o local de intercessão entre céu e terra. E sendo a casa de Deus, esse jardim era habitado por toda sua família – seres celestiais e humanidade (quando foi criada). Dentre os seres celestiais temos os Querubins / Serafins – serpentes aladas flamejantes – que vivem diante do trono de Deus. Esses seres são responsáveis pela guarda da presença de Deus, temos a descrição deles em Ezequiel 1 e Apocalipse 4 (Seres viventes).

Éden também era o lar de Deus. Ezequiel se refere ao Éden como “o jardim de Deus” (Ezequiel 28:13; 31:8-9). Isso não me surpreende, de jeito nenhum. O que talvez seja surpreendente é saber que, logo após chamar o Éden de “jardim de Deus,” Ezequiel o chama de “montanha santa de Deus” (28:14). (Michael Heiser)

Essa linguagem era perfeitamente entendida pelo imaginário do Antigo Oriente Próximo, a maior parte dos povos tanto daquela região como os da região da América vão construir “montanhas” para se relacionarem com o divino. Essas montanhas eram chamadas de “Zigurates”, uma espécie de pirâmides. Uma tentativa de trazer o céu para a terra, novamente[1].

Quando Deus cria o homem e a mulher, ele compartilha essa notícia com o restante de sua família, todavia, parte dela não concorda com os planos do Criador, então acontece uma quebra na unidade celestial. Um dos Querubins da guarda de Deus age de modo independente e seduz a humanidade a viver também dessa forma.

O Conselho Divino

Desde o princípio, Deus escolheu compartilhar sua natureza e governo. Ele escolheu viver em família. É fato que constatamos isso ao afirmarmos que Deus é Pai, Filho e Espírito; todavia, a família de Deus, além do próprio Deus, é também composta por Seres Celestiais. Quando a humanidade foi criada, diversos Seres Celestiais já existiam e governavam a criação juntamente com o Senhor.

Há diversas passagens bíblicas que se referem a esse Conselho Divino. Normalmente são referidos como “Filhos de Deus” ou “deuses”. Na Bíblia hebraica a palavra para deuses é “elohim”, muitos cristãos acham que esse é um nome de Deus, mas essa é a forma plural para se referir a qualquer espírito ou corpo celeste – sejam demônios, alma de seres humanos após a morte e até mesmo o próprio Deus. Eles também podem ser identificados como “Exército dos céus”, que recebiam a adoração das nações que não conheciam ao Senhor, e em alguns momentos da história receberam a adoração também do povo de Israel (Deuteronômio 29:26 e 32:17).

Deus preside a assembleia dos céus; no meio dos seres celestiais, anuncia seu julgamento: [...]Eu digo: ‘Vocês são deuses, são todos filhos do Altíssimo. Morrerão, porém, como simples mortais e cairão como qualquer governante’". Levanta-te, ó Deus, e julga a terra, pois todas as nações te pertencem.

(Salmos 82:1, 6-8)

Os deuses do Salmo 82:1 são chamados de “filhos do Altíssimo [Deus]” no versículo posterior (v.6). Os “filhos de Deus” aparecem várias vezes na Bíblia, geralmente na presença de Deus (como em Jó 1:6, 2:1). […] Os filhos de Deus também são responsáveis por decisões. Aprendemos em 1 Reis 22 (como em muitas outras passagens) que o negócio de Deus incluía interação com a história humana. (Michael Heiser)

Esses seres celestiais que compõem o Conselho Divino se rebelaram contra o Senhor, e conforme vemos no relato bíblico vão direcionar a humanidade também nesse caminho de rebelião. É o que acontece em Babel (Gn 11). O episódio de Babel é o momento em que Deus deixa que as nações vivam de modo independente, longe de seus preceitos e de Sua presença. Deus abre mão temporariamente de seu plano original – expansão do Éden por toda terra e governo sobre todas as nações. Parece estranho ler isso, mas é exatamente isso que o texto bíblico diz (Deuteronômio 32:8[2]).

O Salmo 82 mostra que os Seres Celestiais designados para governar as nações praticaram injustiças e não observaram os preceitos de Deus, portanto estão condenados a perderem sua imortalidade. Judas relata, no versículo 8 de sua carta, que alguns Anjos “não se limitaram à autoridade recebida” e estão acorrentados até o dia do julgamento.

 

Anjos e Demônios

O significado da palavra Anjo, na Bíblia, é mensageiro. O que vemos nos relatos do Antigo e Novo Testamento (Gn 18 e 19 / Lucas 1) é que eles tem uma aparência humana, mas algo de celestial, pois os que tiveram experiência com esses seres os identificavam como mensageiros de Deus. Não há nenhuma descrição de asas e afins. Há também uma expressão muito interessante no Antigo Testamento, o “Anjo do Senhor”, é possível afirmar – pelas características e descrições de cada texto – que trata-se do próprio Deus em forma humana, os teólogos chamam isso de “Teofania”.

Os demônios são seres diferentes, G. H Pember os define como “seres desencarnados”, ou seja, não possuem corpo. A tradição hebraica entende que os demônios são espíritos dos Nefilim (Gn 6)[3], a alma dos filhos que alguns Anjos (Filhos de Deus) tiveram com as “filhas dos homens”. Michael Heiser afirma:

Demônios são espíritos defuntos dos nefilim que morreram antes e durante o Dilúvio. Eles perambulam pela terra atordoando os homens, em busca de reincorporação. [...] A Bíblia não diz, em Gênesis, muito mais a respeito do que aconteceu, mas fragmentos desta história se revelam em outras partes da Bíblia, bem como em tradições judaicas não incluídas na Bíblia que os autores do Novo Testamento conheciam bem e, inclusive, citaram em seus escritos. Por exemplo, Pedro e Judas descrevem os anjos que pecaram antes do Dilúvio (2 Pedro 2:4-6 ARC95; leia também Judas 5-6). Algumas das suas citações provêm da literatura judaica que não foi incluída na Bíblia. Pedro e Judas dizem que os filhos de Deus que cometeram esta transgressão foram presos debaixo da terra—ou seja, estão pagando sentença no inferno—até os últimos dias.

 

Conclusão

É importante sabermos essas diferenças, em relação aos Seres Celestiais, tanto para melhor entender e explicar o texto bíblico, como também para crer corretamente e não desejar experiências que misturem essas categorias. Portanto, Anjo é diferente de Serafim, os que vão ultrapassar a esfera celeste para a humana são os primeiros. Ezequiel, Daniel e João viram o Trono de Deus, por isso viram também os Seres que habitam na presença de Deus.

Normalmente nos aproximamos desses estudos com o intuito curioso de saber mais. Desejar ver anjos mais do que conhecer a Cristo, por meio de sua palavra, é um erro. No meio cristão as experiências sobrenaturais mais visadas ou consideradas “fortes” é ver anjos e demônios, todavia, a experiência que fortalece e edifica nossa fé é conhecer a Jesus. Ter mais revelação – luz e olhos para ver – da pessoa de Jesus. Conhecê-Lo é ter mais de Seu caráter em nosso próprio caráter. Refletir mais a glória de Deus.

 



[1] Se você deseja saber um pouco mais sobre o assunto leia: Os outros da Bíblia – André Reinke.

[2] “Quando o Altíssimo distribuiu a terra entre as nações, quando dividiu a humanidade, fixou o limite dos povos, de acordo com o número dos filhos de Deus (o número dos anjos)”. (Versão dos Manuscritos do Mar Morto e Septuaginta, respectivamente)

[3] Há teólogos e exegetas que interpretam esses “Filhos de Deus” como a linhagem de Sete, e “As filhas dos homens” sendo a linhagem de Caim, e os filhos gerados a partir dessa mistura, teriam sido grandes heróis da antiguidade – homens de grande fama e poderosos socialmente. 











quarta-feira, 2 de março de 2022

Tempo de silêncio


No silêncio, na calmaria que antecede a dor
No escuro, na pausa entre a chuva e o primeiro trovão
Seja minha canção
Estrofe, ponte e refrão

(Os Arrais)


Esse mês de fevereiro comecei a aprender o francês por meio de um método pouco convencional, não muito popular entre as escolas de idiomas, método Greg Thompson. A primeira vez que tive contato com esse estilo de aprendizado de língua foi durante meu treinamento na missão ALEM, em linguística e missiologia – 2018. Nesse programa o aluno passa por um processo de imersão controlada, na língua e cultura alvo. É necessário um auxiliar linguístico, falante nativo e um facilitador que faz a mediação no aprendizado. O processo é o mais natural possível, como um bebê que acabou de nascer – ouve para depois falar, e só depois adquire as outras habilidades da língua (ler e escrever).

Nas duas primeiras semanas de curso os alunos apenas ouvem e apontam. Parece estranho, por estarmos acostumados a ouvir e a repetir, mas o processo aqui é justamente te fazer calar para escutar bem a pronúncia. Ficar em silêncio para ouvir com clareza o que o falante está pronunciando. É agoniante para quem já acha que sabe. É agoniante para quem está acostumado com falar, repetir e falar. Mas, é um excelente método para treinar os ouvidos e a atenção de quem aprende.

Tenho estudado francês há pouco mais de um ano, aprendendo com professores Online e outros métodos tradicionais. Com um pouquinho do básico achei que poderia seguir para outro nível, mas ao chegar aqui no Senegal meu chefe falou: “Temos turma começando apenas do zero. Aproveite a oportunidade para revisar e aperfeiçoar sua pronúncia!”.  E logo no primeiro dia de aula, Deus falou claramente: “É tempo de ficar em silêncio e ouvir!”. É tempo de afinar os ouvidos.

O habito de ouvir a voz de Deus é difícil de se adquirir, e fácil de se perder. O ativismo e as demandas que temos com aquilo que consideremos prioridade em nossa rotina, costuma engolir por completo o tempo que gastaríamos praticando a presença de Deus. Isso é tão visível em nossas orações e devocional diário, mais falamos que ouvimos; mais pedimos que contemplamos (o Cristo das escrituras). E meu aprendizado desse mês foi sobre retornar ao silêncio.

 

O poder da voz de Deus



A voz do Senhor ecoa sobre o mar, o Deus da glória troveja; sobre o imenso mar, o Senhor fala.
A voz do Senhor é poderosa, a voz do Senhor é majestosa.
A voz do Senhor quebra os grandes cedros, o Senhor despedaça os cedros do Líbano.
Faz os montes do Líbano saltarem como bezerros, faz o monte Hermom pular como novilhos selvagens.
A voz do Senhor risca o céu com relâmpagos.
A voz do Senhor sacode o deserto, o Senhor faz tremer o deserto de Cades.
A voz do Senhor torce os fortes carvalhos e arranca as folhas dos bosques; em seu templo todos proclamam: "Glória!".

                                                                                                                                            (Salmos 29:3-9)

 

O salmista ilustra o poder da voz de Deus por meio da natureza. Os cedros, os montes, o céu, o deserto e os carvalhos. Esses tipo de árvores, como também os montes e o deserto, citados pelo autor são típicos da região do Oriente Médio. Essa vegetação está até hoje localizada nas regiões da Líbia, Síria e Iraque. Nações poderosas e imponentes no período bíblico. Em muitas ocasiões essas nações dominaram sobre Israel, tanto econômica como socialmente. Portanto, podemos perceber que o salmista usa uma espécie de metonímia[1] para dizer que todas essas nações poderosas, imponentes e orgulhosas como a floresta de Cedros (no Líbano)[2], carvalhos e montes (Hermon), se curvarão ao ouvirem a voz de Deus.

O deserto de Cades, local estratégico para o comércio internacional, muito disputado pelos povos da região do Antigo Oriente Próximo, aqui é mencionado como sendo sacodido pela voz do Senhor! Havia uma cidade designada aos levitas nessa região, dentro do território de Issacar, Cades-Barnéia (Kadesh Barnea). No hebraico a palavra Qedesh significa santificar ou dedicar. A voz de Deus mexe com as estruturas do Seu povo. A voz do Senhor “bagunça” a nossa ordem.

O salmista nos mostra que a voz do Senhor vai trazer quebrantamento para todo coração orgulhoso, a voz do Senhor vai mover e trabalhar no meio daqueles que são santos, que pertencem à Ele. A voz de Deus quebra os opressores, mas trabalha também no coração daqueles que estão sendo oprimidos.

Precisamos de tempo para ficar em silêncio. Precisamos aprender a apreciar o silêncio, não como solidão, mas como solitude; para que a voz de Deus possa quebrar as estruturas de orgulho, autossuficiência e independência que estão enraizadas em nosso ser. A voz do Senhor precisa ecoar para que a cada dia possamos nos tornar mansos e humildes de espírito, como Jesus.

Se observarmos os primeiros versículos desse salmo, e os últimos, vamos perceber que essas nações recebem uma ordem (imperativo) para adorarem ao Senhor, a reconhecerem que Ele é Deus. Ou seja, há uma alerta para que os ouvintes se quebrantem voluntariamente. Para que os povos se submetam à essa voz que é poderosa, que vai ecoar e governar perpetuamente, independente da vontade humana; e assim o salmo é finalizado.

 

Conclusão

Que possamos nos submeter voluntariamente ao silêncio, afim de ouvirmos a voz de Deus e sermos sacudidos por ela. Que a voz do Senhor possa ecoar em nossos corações e quebrar todo orgulho, toda autossuficiência e justiça própria.

 



[1] Figura de linguagem que usa uma parte para se referir ao todo. Nesse caso a vegetação de um país (região) para se referir ao próprio país.

[2] Os Cedros dessa região podem atingir até 30 metros, e são conhecidos por sua longevidade.