sexta-feira, 12 de maio de 2023

Falemos sobre o Racismo

 
Então pare, pense um pouco no que disseram
O racismo não afundou com os navios negreiros
Quebraram os grilhões, mas as algemas permaneceram
Quem tem cruz na casa grande
Não entra na casa de um carpinteiro.

(Cabelo bom – Luz)


Fonte: Encyclopedia Britannica

Uma das coisas que mais me impactou quando andei, pela primeira vez, pelas prateleiras dos supermercados em Senegal foi ver a quantidade de clareadores de pele à venda. Até então, tinha me deparado apenas com os produtos nas prateleiras, mas haviam outdoors espalhados pela cidade, recomendando os clareadores de pele como meio de se tornar belo. Quanto mais clara sua pele, mais bonito você será.

Já havia percebido no comentário de muitas mulheres guineenses, ao elogiarem a minha pele, esse equívoco a respeito da beleza. Achava que a herética teologia da “maldição de Cã” havia sido superada até me deparar com uma questão feita por um dos meus alunos de Princípios de hermenêutica bíblica, em meu primeiro ano de campo transcultural: “Mayara, porque a África foi amaldiçoada? Estamos pagando por alguma coisa?”. Na hora meu sangue ferveu de raiva[1]! Mas, eu simplesmente respondi que aquilo era um equívoco, e que ele não deveria pensar daquela forma.

É doloroso entender que essa maneira de pensar é resquício da colonização, e mais doloroso ainda é saber que a igreja teve participação nisso, com seus muitos equívocos teológicos. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude a não cometer os mesmos erros de nossos avós.

O tema do racismo é pauta importante entre nossos pecados a serem confessados e abandonados diante de Deus. A Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo é relevante quando não ignora o sofrimento dos nossos irmãos negros, que sofreram e ainda sofrem por conta da cor de suas peles. Assim como você se compadece pelo povo judeu que sofreu e continua sofrendo por serem quem são, precisamos nos compadecer daqueles que sofrem diferentes tipos de racismos.

Para essa reflexão, gostaria de usar aqui algumas partes do livro de Jacira Monteiro, uma escritora guineense que cresceu no Brasil, e também recomendar a você a leitura desse  mesmo livro. Uma obra robusta tanto em teologia quanto contexto histórico-social.

 

O estigma da Cor

No livro “O estigma da Cor” Jacira Monteiro mostra como o racismo fere os dois grande mandamentos deixados por Cristo[2]. Nos primeiros capítulos, a autora traz reflexões a respeito da escravidão, colonização e a chancela da igreja dada por meio de teologias equivocadas. Da mesma forma que tivemos linhas teológicas nos séculos XV e XVI, que afirmavam que a população negra não era “ser humano” (não possuíam alma), também tivemos linhas teológicas no século XX que apoiavam a eugenia e o nazismo[3]. Nosso pecado como igreja perpassa gerações, e como citei na introdução desse pequeno artigo, as consequências desses pecados está diante de nossos olhos hoje!

No capítulo quatro, da obra, Jacira traz a importante temática sobre a mulher negra. Ela começa abordando a respeito dos estereótipos de feminilidade[4], criados a partir de outra teologia equivocada, em como ele não se encaixa nas mulheres negras que fazem dupla ou tripla jornada de trabalho. Mulheres que não são delicadas ou frágeis, mulheres que cresceram e crescem sobrevivendo.

No capítulo cinco temos um apelo importante para os irmãos brancos não serem como Caim’s, para não ignorarmos a dor dos nossos irmãos que sofrem. Esse capítulo tem a maioria das citações que grifei, muito profundo e confrontador. A autora traz o tema da indiferença da igreja ante as estatísticas de morte, violência e restrições de direitos impostas à população negra. Jacira expõe a ferida e nos convida a pedirmos perdão por nossa falta de amor.

Há pelo menos duas formas de perceber a perversidade de Caim ainda nos tempos atuais. A primeira forma é observar o ciclo de violência que perdura ao observar as guerras e conflitos individuais e sistemáticos. A segunda é observando a atitude dissimulada do Caim de fugir da responsabilidade de cuidado para com seu irmão, quando diz para Deus que não é o guarda ou protetor de seu irmão. [...] Vidas negras importam! O grito que assusta os Caim’s, que acreditam no justo oposto dessa máxima. [...] Vidas negras importam porque Cristo disse e não porque um movimento social disse, e com franqueza, preciso dizer mais uma coisa, é irracional falar que TODAS AS VIDAS IMPORTAM, em contra partida a VIDAS NEGRAS IMPORTAM. O grito “Vidas negras importam” é para o despertamento de uma sociedade surda e que invisibiliza pessoas negras para que entendam, valorizem e deem dignidade às vidas negras quanto já dão às vidas brancas. (GRIFO MEU)

O capítulo seis da obra tem como temática o perdão e incentivo ao pacifismo. A autora faz menção ao príncipe T’Challa, interpretado por Chadwick Bossema, em Pantera Negra (meu herói preferido da Marvel)[5] e Martin Luther King Jr., como exemplo de caminhos a seguir na luta contra o racismo. No último capítulo Jacira faz uma importante consideração a respeito das missões transculturais, dentro do campo da missiologia. E por fim, ela traz estratégias práticas para a igreja trabalhar a questão do racismo dentro e fora de suas mediações.

 

A beleza

Comecei falando sobre beleza e seus equívocos. Não vou desenvolver esse conceito aqui, mas apenas fazer uma pequena consideração. Quando olhamos para o texto bíblico e suas descrições a respeito da beleza, a primeira coisa que podemos observar é a beleza do Criador. Os salmos descrevem a beleza de Sua santidade e caráter. Em Apocalipse podemos ver os seres que habitam a presença de Deus contemplando a beleza daquele que está assentado no trono.

Em sua criação, Deus fez questão de deixar Sua marca registrada, tanto em relação à beleza quando à diversidade. E com os seres humanos não foi diferente, ele colocou dentro de cada HD genético a capacidade de multiplicar seres diversos, belos para a Sua própria glória. Portanto, quem somos nós para chamar de feio ou inferior aquilo que Deus criou conforme Sua própria beleza e essência?

Eu não preciso ser branca para ter valor, ninguém que é não branco precisa. Se Deus quisesse tudo igual, Ele não teria feito tudo diferente. Há beleza em tudo que o Senhor fez, ao fim de sua criação Ele disse que tudo era muito bom. Então, não ouse chamar de ruim o que o criador chama de muito bom! O negro é lindo! A cor das pessoas negras é linda! As expressões culturais das pessoas negras são profundamente ricas e belas. O nosso black é lindo, assim como nossas tranças também. O nosso nariz largo é lindo, nossos lábios grossos são lindos. As nossas individualidades, o que nos faz ser negros é lindo! Pois foi Deus mesmo quem, a partir de sua graça criativa, fez dessa forma.

(O estigma da Cor – Jacira Ribeiro)

 

Conclusão

O caminho para vencermos o racismo como igreja é confessarmos esse pecado, assumindo nossos pensamentos e atitudes erradas para como nossos irmãos. Confessemos também nossa indiferença, o tempo em que ignoramos a dor do outro e fingimos que nada estava acontecendo. O caminho do livramento é assumirmos, em todos os nossos relacionamentos, a atitude de Jesus, considerando os outros superiores a nós (Filipenses 2:3[6]); trazendo sempre à memória que somos parte de um mesmo corpo, e quando uma parte do corpo sofre, todo o corpo sofre também (I Coríntios 12:26[7]).

 



[1] De quem tinha produzido aquela teologia, e daqueles que a fizeram proliferar. Dos anos de escravidão e colonização. Da injustiça! Tantos anos em que esse continente foi roubado em suas riquezas e oportunidades de desenvolvimento, tantos anos de roubo justificados por um teoria tão simplista e absurda! Completa barbárie!

[2] Mateus 22:34-40

[3] Leia o texto: “Hegel, a teologia liberal alemã e os regimes totalitários”. Você pode encontra-lo aqui nesse Blog, acessando a página principal.

[4] Esse é um tema importante dentro da temática “Mulher”, independentemente da cor da pele.

[5] Olha que a autora que vos fala nem é fã de filmes assim.

[6] Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.

[7] De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.


sábado, 8 de abril de 2023

Celebrando o Messias na Páscoa


Lembre-se de quem bebeu do fel amargo de uma taça [...]
Lembre-se de quem nos deu o próprio sangue como um selo
Que homens vem e vão, mas Ele permanece eternamente
Que Aquele que desceu, é o mesmo que
subiu e que nos levará para sempre.

(Eu vou me lembrar – Banda Resgate)

 

Rogier Van Der Weyden

A Páscoa é uma das festas judaicas que rememora de modo completo todo o Plano de Redenção do Senhor para a humanidade. O livro de Êxodo, em forma simbólica e nacional, contém todo o desenrolar desse plano de Deus, de salvar e restaurar todas as coisas. Podemos ver (a partir da leitura do livro) tudo acontecendo de modo micro, por meio do povo de Israel e o cordeiro pascal sendo imolado para salvação dos primogênitos. E “logo em seguida”, nos dias de Jesus, vemos o cumprimento em proporção macro, a humanidade sendo redimida por meio do sacrifício do Cordeiro perfeito. Além do ponto da redenção, também observamos o viés escatológico presente na Páscoa e no Êxodo. Todas as etapas de juízo, redenção, livramento do povo de Deus, tabernaculação e ressurreição estão presentes na celebração da páscoa.

É claro que essa visão completa só nos é permitida por meio de Jesus. Não podemos cair no anacronismo de afirmar que os primeiros israelitas, que celebraram a Páscoa, enxergaram o quadro completo da história da redenção. Mas, podemos perceber a tipologia presente em todos os elementos dessa celebração, como também no enredo da peregrinação pelo deserto até a chegada na Terra prometida.

O contexto em que a celebração da Páscoa foi instituído por Deus, através de Moisés, era de transição. O período em que Deus derramaria a última das dez pragas sobre o Egito, a morte dos primogênitos. O coração de Faraó estava endurecido, mesmo após todos os juízos já derramados. Uma nação às portas da liberdade, mas aprisionados pela mentalidade de 400 anos de cativeiro. A semente de Abraão, o povo da promessa, presenciando todas as maravilhas do braço forte e soberano do Senhor movendo em favor de Seu nome. O pacto da graça estava se desenrolando.

O Cordeiro pascal – Deus protege seu povo

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

João 1:29

Há um aspecto interessante em Êxodo 6:6-7[1], o verbo traduzido com “adquirir” ou “resgatar” aponta para uma transação comercial, o comprador paga o preço para se tornar dono daquilo que foi adquirido. É isso que acontece na Páscoa, Deus paga o preço (o Cordeiro) para adquirir Israel, seu primogênito. Isso coloca Deus em uma posição mais ativa da história. Ele poupa os primogênitos daqueles lares israelitas, por meio do cordeiro. E mais tarde ele derrama seu próprio juízo em si mesmo, pagando o preço por sua Igreja, composta por judeus e gentios (o verdadeiro Israel de Deus).

É claro que vamos ver a exortação e o juízo de Deus começando por sua casa (Israel e Igreja), mas são situações diferentes. Podemos observar isso por meio do profetismo no antigo Israel, em tempos de idolatria e corrupção os profetas relembravam o povo a respeito da Aliança no Sinai e os chamava ao arrependimento. Caso não houvesse uma resposta positiva, as consequências eram inevitáveis (cerco, morte e exílio). O mesmo observamos no livro de Apocalipse, os capítulos 2 e 3 apresentam exortações severas à Igreja do Senhor. É uma oportunidade de lembrarmos onde caímos e voltarmos a amar ao Senhor.

No Dia do Senhor, e os anos que precederão seu retorno, Deus fará separação entre a Igreja e aqueles que rejeitaram o Cordeiro. O juízo virá sobre a terra, mas como no Egito, Deus fará separação entre os justos e injustos.

 

O Juízo sobre os incrédulos

Um dos aspectos que muitas vezes nos passa despercebido, quando lemos o livro de Êxodo e a narrativa da primeira Páscoa, é seu viés escatológico. Dan Juster, em seu livro “Páscoa”[2] mostra o paralelo presente entre o livro de Apocalipse e o livro de Êxodo. As pragas, quando são colocadas de modo paralelo às Trombetas, mostram-se muito semelhantes. Como também, a separação feita entre os que creem no Cordeiro e os que não creem (Êxodo 8:22-23 / Apocalipse 7:3).

Deus derramou juízo sobre aqueles que se recusaram a crer no sangue do cordeiro pascal. Jesus veio e recebeu a ira de Deus na cruz, em favor de todos aqueles que creem. A ira de Deus foi derramada sobre o Servo sofredor, para que por meio dele tivéssemos vida. Ele abriu um novo e vivo caminho para o Pai, e assim podemos ter paz com Deus. Todavia, em sua segunda vinda, o juízo será derramado sobre aqueles que se recusaram a crer.

 

A ressurreição dos Mortos

“Somente onde há sepulturas, há ressurreição.” (Karl Barth parafraseando Nietzsche)

Um ponto novo que a Páscoa apresenta, por meio de Jesus, é a vitória sobre a morte. A salvação em Jesus é apresentada de modo completo. A ressurreição de Jesus mostra à seus discípulos que mesmo que seus corpos sejam queimados, torturados, crucificados e enterrados, um corpo de glória, completamente incorruptível, os espera. Jesus foi o primogênito na ressurreição, e todos aqueles que creem terão o mesmo fim. Essa é a esperança da nossa salvação.

Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?

 (1 Coríntios 15:55)

Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele.

(1 Tessalonicenses 4:14)

 

Esse aspecto escatológico da ressurreição é maravilhoso e fundamental para o fortalecimento de nossa fé e espera. Todavia, viver uma vida ressurreta é tão importante quanto. Eugene Peterson em seu livro “Vivendo a ressurreição[3]” nos apresenta esse importante detalhe a respeito da ressurreição dos mortos. Participar da mesa, saboreando a comida, viver o shabbat, trabalhando e descansando, são realidades de quem experimentou Jesus e sua ressurreição.  

Estamos aqui para dar testemunho sobre a fonte da vida, para falar como ela se desenvolve e como fazemos para ingressar nela. E protestaremos quando observarmos que nossa linguagem e forma de perceber a vida estão se desligando do Deus vivo, entrando num processo de degeneração ou desintegração que as transforma em conversa sobre Deus, em conversa sem vida. [...] Participamos da vida e é dela que testemunhamos, mas estamos cercados pela morte, que nos ameaça.

(Eugene Peterson)

Conclusão

A páscoa revela o coração de Deus ao mundo. A ordem do Senhor ao povo de Israel de observar a Páscoa como memorial perpétuo demonstra seu desejo de garantir que seu povo continue a contar sua história de redenção às gerações futuras. Atualmente, Deus está usando a igreja composta de seguidores judeus e gentios de Jesus, “um novo homem” (Ef 2:15), para contar essa mesma história. (Cathy Wilson[4])

Sou cristã de tradição evangélica, não seguimos um calendário litúrgico, nem temos muitos símbolos físicos para nos fazer lembrar de nossa fé. Todavia, a história da Igreja, com sua diversidade de tradições nos dá meios criativos para cumprirmos Deuteronômio 6:7. Celebrar é fazer memória, é ensinar para si mesmo, para seus filhos e netos. Por mais que o secularismo e o mercado tentem nos fazer perder o foco, é necessário contar histórias, e reconta-las todos os anos. Para que Cristo sempre tenha preeminência.



[1] Capítulo de Robert Walter – O Messias na Páscoa. / Portanto dize aos filhos de Israel: Eu sou o Senhor, e vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios, e vos livrarei da servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos. E eu vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas dos egípcios; (Êxodo 6:6,7)

[2] Disponível pela editora Impacto publicações.

[3] Disponível pela editora Mundo Cristão.

[4] O Messias na Páscoa – Darrell L. Bock e Mitch Glaser


quinta-feira, 9 de março de 2023

Até que Tenhamos Rosto

 



A maior de todas as ciências é
Conhecer-se a si mesmo. Porque quem conhece
A si mesmo conhecerá também a Deus.
(Clemente de Alexandria)

 

Disponível no Museu do Louvre - Paris (Fonte: Instagram do Louvre)

 

Não sei se alguma vez você já leu o mito grego de Eros e Psique, ou ao menos ouviu falar sobre. A primeira vez que tive contato com esse mito, foi no ensino fundamental através de uma literatura infato-juvenil chamada: “Viagem ao reino das sombras”[1]. Trabalho curricular da nossa querida professora de português, Edina. Recordo-me que foi uma leitura que me agradou bastante na época.

O mito consiste na história da filha mais nova de um rei que nasce com uma beleza incomum. A beleza da jovem é tamanha que desperta a inveja de Afrodite[2]. Esta, incube seu filho Eros[3] a lançar uma maldição sobre a jovem, todavia, o plano da deusa sai pela culatra. Quando Eros vê a garota, fica perdidamente apaixonado, e decide trazê-la para seu palácio celestial no topo de uma montanha. Ali a jovem Psique vive um romance com Eros, com a condição de que ela nunca visse seu rosto. O conflito está no momento em que as irmãs de Psique vão até a montanha, veem o palácio e sentem inveja dela, assim a induzem a usar uma lamparina para ter a certeza de que o amante era humano, e não um monstro.

C. S. Lewis, em sua versão desse mesmo mito, traz a perspectiva da irmã mais velha. A irmã "feia" que na verdade criou Psique como sua filha. O enfoque da obra não se encontra no romance da garota com o deus, ou na crueldade de Afrodite, nem mesmo no esperado final feliz que o casal supostamente teve, mas sim, em como somos capazes de viver uma vida sem rosto. Seres incapazes de olhar para o espelho, insatisfeitos com a própria vida por causa do outro. Fazendo do outro nosso adversário ou objeto que atrapalha a felicidade.

Há uma semelhança na atitude de Eros e da irmã de Psique, ambos escondem sua identidade (seus rostos), um por meio da escuridão a outra por meio de um véu. Uma perfeita ilustração da fuga do: “Conhece-te a ti mesmo”, e um incentivo à filosofia do “Hakuna Matata[4]”, esqueça os seus problemas. É mais fácil fugir que encará-los.

 

Cristo e Eros

No mito, o deus Eros esconde seu rosto da amada, pois tinha medo da cólera de sua mãe, Afrodite. Ele havia recebido a ordem de amaldiçoar a mortal, mas seu desejo era transforma-la em imortal, pois se afeiçoou àquele ser. Jesus vem ao mundo e mostra o rosto de Deus à humanidade. Ele não esconde seu rosto, pois estava em parceria com o Pai para juntos abençoarem aos mortais, dando-lhes vida eterna (imortalidade). O Deus da Bíblia é o Deus que se revela, e não o que se esconde. Ele deixa claro em todo o decorrer da narrativa bíblica que Ele quer ser conhecido, em todas as gerações.

Outro ponto interessante no romance entre o deus e a mortal, é que segundo o mito Psique faz sua própria jornada ao reino dos mortos a fim de salvar-se. Não é Eros que resgata ou salva sua amada, mas através de seus próprios esforços a amada ganha seu direito no panteão dos deuses. Na história da redenção, vemos o contrário, Cristo fazendo a jornada ao inferno para resgatar sua amada (Igreja) da condenação eterna.

O ser humano sempre será incapaz de salvar a si mesmo. As escrituras afirmam:

Todos pecaram e não conseguem alcançam o padrão da glória de Deus.” (Romanos 3:23)

Como sou miserável! Quem me libertará deste corpo mortal dominado pelo pecado?” (Romanos 7:24)

É exatamente esse ponto que diferencia o Cristianismo de todas as demais religiões. Os seres humanos estão sempre tentando salvar a si mesmos, por meio de boas ações que são contabilizadas. Os ensinos atuais dentro das ciências sociais e psicológicas é a mesma do mito de Psique: “Salve-se a si mesmo”. Você não precisa esperar por um salvador, pode ser que ninguém venha. Você é o protagonista de sua própria história! Você é a parte mais importante. Você não precisa que um príncipe venha para te salvar, salve-se a si mesma[5]!

Percebe como são discursos parecidos, e que hoje está na boca de muita gente? Tem muita religiosidade onde achamos que “não tem nada a ver”. Não há nenhum tipo de ensino neutro! Precisamos estar conscientes dessa verdade para não nos comprometermos com narrativas que nos distanciam do evangelho.

 

A irmã de Psique

Lewis traz a releitura do mito por meio da narração da irmã mais velha de Psique. Orual, rainha de Glome. A narrativa contempla a infância de Orual e sua outra irmã, e logo depois a chegada de Psique, meia irmã de ambas. O rei de Glome, pai dessas três meninas, é descrito como rude e muito violento. Após a morte deste, Orual passa a governar o país, com a ajuda do chefe do exército, Bardia.

O ponto interessante são as crenças de Orual a respeito dos sentimentos que nutre pelos outros e a respeito de si mesma. Como citei anteriormente, ela faz uso de um véu afim de esconder sua “feiura”. E dentro de todo o desenrolar da vida dessa rainha, seus ressentimentos como mulher – por não ter se casado e nutrir afeição por Bardia – e mãe[6], Lewis nos mostra como é possível viver uma vida enganados a respeito de nós mesmos.

O autoconhecimento é um processo que só é possível por meio do conhecimento do nosso Criador, a partir da perspectiva de que todo nosso ser caiu e necessitamos de salvação. O conhecer a si mesmo precisa de consciência do pecado e suas consequências. Nos sentimentos que chamamos de amor, por exemplo, muitas vezes os confundimos com posse, controle e manipulação.

 

[...] o conhecimento do cristão não se reduz ao entendimento de que Deus existe e é todo-bondoso e todo-poderoso. É preciso ir além, ou seja, é necessário também aprofundar o conhecimento de Deus e suas implicações para o autoconhecimento. A maravilhosa bênção que a revelação divina reserva para aqueles que a conhecem é a grande descoberta de que o Deus das Escrituras revela ao homem não somente o verdadeiro Deus, mas também o verdadeiro homem.

(Inteligência Humilhada – Jonas Madureira)

 

O significado de Psique

No grego clássico a palavra Psique refere-se à alma, ao conjunto de emoções, intelecto e vontade. Os gregos, por meio da escola de Platão, tinham uma perspectiva dual da vida e do seres humanos, a parte material e a parte imaterial. Uma parte menos excelente (corpo) e uma mais excelente (espírito).

É importante nos atentarmos para esse detalhe cultural, posto que, nossa mentalidade e cosmovisão (até mesmo cristã) foi muito afetada pelos gregos. Essa visão dualista das coisas se difere bastante da cosmovisão semítica (judaica), os óculos pelos quais a bíblia foi escrita. Quando temos essas palavras que se referem a alma, espírito e corpo, no grego, tanto na septuaginta (versão da bíblia judaica no grego) quanto no texto neotestamentário, temos uma referência à totalidade do ser ou sua parte mais profunda (que no ocidente chamamos de coração), vejamos alguns exemplos:


Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda tua alma e de toda a tua força. (Deuteronômio 6:4-5)

Louva, ó minha alma, ao Senhor. (Salmo 146:1)

 

O objetivo do escritor bíblico não é tratar dessas partes separadamente, mas do ser humano de modo integral. Não há essa separação entre parte encarnada e parte desencarnada na mente do judeu a respeito do ser humano. Em muitos textos, principalmente os poéticos, a utilização da parte pelo todo (metonímia) é muito comum. São as famosas figuras de linguagem.

 

Conclusão

Se você ainda não leu esse livro, ou nem se quer conhecia o mito de Eros e Psique, perdoe-me pelos “spoilers”, deveria ter avisado no começo do texto, não é mesmo? Mas, o que coloquei aqui foi um resumo do resumo de ambos. Portanto, se quiser conhecer os detalhes, você pode ler o mito e também a obra de C. S. Lewis, “Até que tenhamos rosto”[7].



[1] Obra de Luiz Gaudino, pela editora FTD.

[2] Segundo o panteão grego: deusa da beleza.

[3] Segundo panteão grego: deus do amor.

[4] Pregada por Timão e Pumba na animação “O Rei leão”.

[5] A quebra de paradigma do príncipe encantado, pregado principalmente pela Disney em seus filmes e releituras dos mitos dos irmãos Green.

[6] A mãe de Psique morre durante o parto, assim, Orual cuida de Psique como se fosse sua filha. Faz dela seu objeto de adoração e devoção.

[7] Disponível pela editora Tomas Nelson Brasil.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Vendo Jesus no Antigo Testamento

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;
Porque nele foram criadas todas as coisas que 
há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos,
 sejam dominações, sejam principados, sejam potestades.
 Tudo foi criado por ele e para ele.
E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.
(Colossenses 1:15-17)




Existe uma chave hermenêutica que nós cristãos devemos fazer uso dela, principalmente quando lemos o Antigo Testamento. Essa chave chama-se, Cristo. Um dos diferenciais da nossa interpretação bíblica para a de alguns judeus é a certeza que o Filho estava presente desde a criação do mundo, e Ele aparece de alguma maneira em cada livro da Bíblia. Seja de modo tipológico, seja como teofania. O Messias é a linha pela qual as várias narrativas individuais tornam-se apenas uma, a história da redenção. Jesus é o fio escarlate que perpassa todas as páginas da Bíblia.

As tipologias são representações de algo maior que estava por vir. Os tipos podem ser objetos, pessoas e também animais. Por exemplo: José é um tipo de Jesus quando este é vendido por seus irmãos e por meio de sua vida a família de Israel é salva da fome que estava por vir. Moisés é um tipo de Cristo, o libertador, que tira o povo de Deus do Egito e o leva para a terra prometida. Exemplos de objetos e animais como tipos de Jesus: O cordeiro sacrificado na Páscoa, como memória e expiação. Os sacrifícios feitos no tabernáculo apontavam para o sacrifício feito por Jesus na cruz. O sumo-sacerdote apontava para o sumo-sacerdote perfeito, sem pecado, que viria para ser Ele mesmo o único mediador entre Deus e o homem.

Ainda sobre a tipologia, Davi e Salomão foram um tipo de Cristo no sentido de construir um tabernáculo para o Criador. Jesus fez isso através de sua morte e ressureição, somos a habitação de Deus. Esses primeiros reis apontam para a linhagem de Jesus e sua posição como Rei e senhor. Os diversos reinados em Israel falharam, os reinos e governos do mundo continuarão falhando, todos serão esmiuçados quando o verdadeiro rei chegar para governar as nações. Todos os governos por mais justos e aparentemente sujeitos à Deus foram e serão somente uma sombra do governo do Messias.

Não é em vão que Jesus afirma que “Ele era a lei e os profetas”. Ele está presente como o logos (a palavra) que deu origem ao mundo; Ele é o pão e a água que alimentou o povo no deserto; Ele é o santo de Deus; Ele é o sacrifício e o sumo-sacerdote; Ele é conhecido em gerações; Ele é o parente próximo que veio resgatar sua família; Ele é o rei dos reis, a raiz de Davi; Ele é o redentor; Ele é o Filho que deve ser beijado; Ele é a sabedoria de Deus; Ele é o meio de não “corrermos atrás do vento”; Ele é o mais belo entre milhares; Ele é Emanuel e aquele que vem de Bozra; Ele é o que envia; Ele é o anjo do Senhor; Ele é o Filho do homem. Ele é a expressão exata do Pai!

No Antigo Testamento quando temos a expressão “O Anjo do Senhor” é considerada um tipo de teofania[1]. Quando o próprio Deus se fazia presente naquela situação. Conversando, comendo, recebendo adoração e lutando por seu povo. Veja alguns exemplos:

1)      Quem conversou com Agar?

E o anjo do Senhor a achou junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur. E disse: Agar, serva de Sarai, donde vens, e para onde vais? E ela disse: Venho fugida da face de Sarai minha senhora. Então lhe disse o anjo do SENHOR: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos. Disse-lhe mais o anjo do Senhor: Multiplicarei sobremaneira a tua descendência, que não será contada, por numerosa que será. [...] E ela chamou o nome do Senhor, que com ela falava: Tu és Deus que me vê; porque disse: Não olhei eu também para aquele que me vê?

(Gênesis 16:7-13[2])

Esse texto é muito interessante, Deus fala e mostra seu rosto a uma mulher. E não uma mulher especial, ou com status importante, mas com uma escrava. Deus se revela e permite ser adorado por uma egípcia que servia a família que estava prestes a se tornar o povo de Deus.  

2)      Quem almoçou com Abraão?

Depois apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia e levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra, E disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo. [...] E disse o Senhor a Abraão: Por que se riu Sara, dizendo: Na verdade darei eu à luz ainda, havendo já envelhecido? Haveria coisa alguma difícil ao Senhor? Ao tempo determinado tornarei a ti por este tempo da vida, e Sara terá um filho. E Sara negou, dizendo: Não me ri; porquanto temeu. E ele disse: Não digas isso, porque te riste.

(Gênesis 18:1-3 e 13-15)

Veja que a primeira atitude de Abraão foi se prostrar, ele reconheceu de imediato que era o Senhor. Não houve repreensão pelo gesto de adoração[3]. Quando um ser humano estava prestes a adorar um anjo, dentro das escrituras, estes se recusavam a serem adorados (veja: Ap 19:10, 22:9). O mesmo Deus que o havia chamado da terra dos caldeus, o mesmo Deus que o chamou para fazer uma aliança. E por causa dessa aliança, você vai perceber se continuar lendo o texto, Deus não pode esconder o que estava prestes a fazer.

3)      Quem deu a mensagem à mãe de Sansão e a seu esposo Manoá?

E o anjo do Senhor apareceu a esta mulher, e disse-lhe: Eis que agora és estéril, e nunca tens concebido; porém conceberás, e terás um filho. Agora, pois, guarda-te de beber vinho, ou bebida forte, ou comer coisa imunda. Porque eis que tu conceberás e terás um filho sobre cuja cabeça não passará navalha; porquanto o menino será nazireu de Deus desde o ventre; e ele começará a livrar a Israel da mão dos filisteus. [...] E disse Manoá ao anjo do Senhor: Qual é o teu nome, para que, quando se cumprir a tua palavra, te honremos?[4] [...]

E o anjo do Senhor lhe disse: Por que perguntas assim pelo meu nome, visto que é maravilhoso? Então Manoá tomou um cabrito e uma oferta de alimentos, e os ofereceu sobre uma penha ao Senhor: e houve-se o anjo maravilhosamente, observando-o Manoá e sua mulher. E sucedeu que, subindo a chama do altar para o céu, o anjo do Senhor subiu na chama do altar; o que vendo Manoá e sua mulher, caíram em terra sobre seus rostos. E nunca mais apareceu o anjo do Senhor a Manoá, nem a sua mulher; então compreendeu Manoá que era o anjo do Senhor. E disse Manoá à sua mulher: Certamente morreremos, porquanto temos visto a Deus.

(Juízes 13:3-5 e 17-22)

Esse texto da anunciação do nascimento de Sansão é muito interessante. O próprio Deus aparece para anunciar o próximo juiz de Israel, uma criança que seria completamente dedicada a Ele e a seus interesses. É uma pena ver que Sansão se desviou desse propósito, mas ele foi escolhido por Deus, antes mesmo de ser concebido. No texto, o anjo recebe o sacrifício de adoração e deixa claro para o casal que Ele era Deus.  

 

Conclusão

O anjo do Senhor vai aparecer em vários episódios da história de Israel, para os profetas, em batalhas e acontecimentos significativos. Alguns teólogos afirmam que essas aparições de Deus no Antigo Testamento, era um prelúdio da encarnação. Jesus presente em toda a história de Israel, sendo Ele o personagem principal da narrativa da missão de Deus.



[1] Aparição ou manifestação de Deus.

[2] Todas as referências são ACF – Almeida Corrigida Fiel.

[3] Em alguns casos, se prostrar era um ato de saudação e reverência, mas também estava relacionado à adoração.

[4] Perguntar o nome do deus / anjo era uma maneira de controlar a divindade por meio de rituais mágicos, usando o nome desta. É por isso que Deus nunca responde de maneira específica e “completa” como os seres humanos desejam. O Deus de Israel não pode ser manipulado, controlado ou delimitado.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Igrejas de Cristo no Brasil e o Movimento de Restauração

 



Não sei qual seria a melhor forma de começar esse texto, falando a respeito da igreja na qual cresci e o movimento com o qual ela nasceu, ou de como ela não é conhecida e tão famosa quanto as mais tradicionais ou neopentecostais. Talvez, eu possa começar por minha experiência pessoal com essa comunidade de fé, e como minha opinião mudou com o passar do tempo a respeito dela.

A Igreja de Cristo na cidade de Goiás, cidade da Cora Coralina, nasceu com o Movimento de Restauração. É claro que eu não sabia disso até meu segundo COMIC[1] (Congresso de Mocidades das Igrejas de Cristo). Sempre amei a igreja local na qual cresci. Infância, adolescência, juventude e fase adulta, ela fez e continua fazendo parte de mim. É fato que durante minha juventude, época da faculdade, primeiros contatos com diferentes ramos da teologia (e com outras denominações) comecei a questionar sobre o posicionamento teológico da minha igreja local.

Dizia eu: “Poxa, precisamos de bases teológicas mais consistentes! Não sei dizer se sou calvinista, arminiana ou luterana. O que eu sou? Qual a linha teológica da nossa igreja? O que somos?”. Nesse período copiávamos muitos modelos, víamos igrejas crescendo em número e com uma aparente visão unificada e uniformizada, e ficávamos maravilhados, pensando que esse seria o caminho para uma igreja “perfeita”. Foi graças ao nosso sábio pastor, Raimundo Aires, que não sucumbimos em meio a tantos modelos desproporcionais à nossa realidade local.

Mais que uma denominação, as Igrejas de Cristo nasceram de um movimento, um movimento de discípulos de Jesus. Isso tem muita diferença quando falamos do “ser igreja”. Movimentos estão mais ligados à algo vivo, à um corpo que se multiplica em UNIDADE e DIVERSIDADE.

 

O Movimento de Restauração[2]

O Movimento de Restauração, também conhecido como os discípulos de Jesus, buscava uma vida em comunidade o mais parecida possível com o livro de Atos, o cristianismo da Igreja dos primeiros discípulos. Ele teve início durante o século XIX, com o “Segundo Grande Avivamento”. Seus principais nomes foram: Stones e Campbel (Barton W. Stone, Thomas Campbell, Alexander Campbell, Walter Scott, David S. Burnet, Isaac Errett). No Brasil o nome mais conhecido é: Sanders (David e Rute), todavia, tivemos outras famílias de missionários, como os Shields, que contribuíram para a propagação do movimento aqui – principalmente no centro-oeste brasileiro (Goiânia/Brasília).

Não vou delongar na história desses homens, mas gostaria de enfatizar aqui os objetivos e principais declarações do movimento:

1)      Somos uma Igreja de Cristo – Pertencemos a Jesus! Ante a isso, não temos poder para mudar seus ensinos ou reescrever suas regras. Não podemos ainda, acrescentar novas condições para aceitar pessoas como membros da Igreja de Jesus.

2)      Somos uma Igreja que busca a Unidade – Ser um com todos aqueles que confessam a Jesus como Senhor e Salvador. Aqui tem um fato interessante, muitos irmãos católicos foram recebidos na comunhão do movimento. Na nossa cidade, muitos padres e freiras participavam conosco dos cultos de domingo, por amizade e simpatia ao nosso pastor, Raimundo Aires. Lemas do movimento: “Nos essenciais unidade, nas opiniões liberdade, mas em todas as coisas o amor.” “Não somos os únicos cristãos, mas somos unicamente cristãos.”

3)      Somos uma Igreja que busca a Restauração – Ser o mais parecido possível com o exemplo neotestamentário. Aqui tem uma marca interessante das Igrejas de Cristo, além do batismo por imersão, a celebração da ceia acontece todos os domingos.

4)      Somos uma igreja Apostólica – Estudamos e obedecemos os ensinamentos deixados pelos apóstolos, contidos no Novo Testamento. “Nenhum credo além de Cristo, nenhum livro além da Bíblia.” “Onde a Bíblia fala, nos falamos; ondem a Bíblia cala, nós calamos.”

5)      Somos uma igreja que Pensa – Uma igreja que não ignora o intelecto e o usa para a glória de Deus. Contextualizando a mensagem do evangelho, mostrando que fé, ciência, religião e trabalho devem andar juntas para a glória de Deus.

6)      Somos uma Igreja que Sente – Somos uma igreja viva, que o Espírito Santo tem liberdade para agir e mover como no meio dos primeiros discípulos de Jesus. Não nos envergonhamos do evangelho, nem de mostrar nossas emoções em público.

7)      Somos uma Igreja que Compartilha – Temos o desejo de ganhar o máximo de pessoas para Jesus, portanto nos importamos com o evangelismo, discipulado e engajamento desses novos membros na Igreja de Jesus. Queremos também compartilhar nosso dinheiro e posses, pois eles pertencem ao Senhor.

8)      Somos uma Igreja Livre – Como as igrejas bíblicas, somos Independentes. Não temos papa, cardeais, arcebispos, superintendentes denominacionais ou uma sede central para determinar as políticas a seguir. Como congregação autônoma, elegemos nossos líderes e decidimos para onde irá nosso dinheiro. No entanto, não nos recusamos a cooperar com outras igrejas e nos associamos livremente com outras congregações que compartilham as nossas heranças e convicções, para vivermos a mesma fé, promovermos o reino de Deus, assumirmos o compromisso de fidelidade aos princípios do “Movimento de Restauração” e cooperarmos umas com as outras na execução dos programas missionários. Nossos Concílios e Convenções têm um caráter extremamente de comunhão e não têm nenhum poder deliberativo sobre as igrejas.

9)      Somos uma Igreja que Cresce – Desejamos crescer espiritualmente, pois ainda não alcançamos a estatura perfeita. Queremos crescer em comunhão como corpo, mas também queremos crescer numericamente, pois isso está relacionado à Mateus 28:19-20. Não desejamos perder o foco da Grande Comissão.

 

O sacerdócio universal de todo crente

Outro ponto positivo do Movimento de Restauração foi a liberdade de pregação da palavra e ministração da ceia por membros não ordenados ao ministério. Entre nós, brincamos que é o sistema de “baixo clero”. Cada crente é um ministro, e pode compartilhar as boas novas com seu vizinho, na escola ou trabalho.

O sacerdócio universal de todo crente também inclui as mulheres! Oh aleluia! Parece estranho falar isso, não é mesmo? Mas, o ministério feminino em muitas igrejas, até hoje, é questionado e tido como contrário às escrituras[3]. Contudo, as Igrejas de Cristo ordenam mulheres ao ministério pastoral, missionário e evangelístico. Coisa linda!  Como na Igreja primitiva, e o movimento dos primeiros discípulos de Jesus, as mulheres continuam fazendo parte ativa da propagação do evangelho e edificação da igreja.

 

Conclusão

Não quero desprezar aqui a importância dos estudos teológicos, nem a relevância de conhecer e se posicionar em relação às tradições cristãs teológicas. Mas, isso não é o mais importante quando falamos de ser Igreja. Existem ministérios de estudos teológicos (Bibotalk e o Invisible College) hoje que partilham dos mesmos ideais do movimento de restauração, e isso só confirma o quão bíblica e poderosa é essa verdade, andar em unidade.

Unidade é diferente de uniformidade, é possível caminhar em unidade pensando diferente. É exatamente nisso que está a beleza do ser Igreja. É sendo diferente que expressamos a diversidade de Deus, que é trino. Não precisamos deixar de ser pentecostais, arminianos ou calvinistas, podemos aprender uns com os outros em amor. Cooperando para que Jesus seja glorificado.

O Movimento de Restauração nos lembrou de nossas raízes, a igreja apostólica de Jesus. Seus ideais bíblicos trouxeram paz e comunhão em um tempo de guerra, tempo em que luteranos matavam anabatistas, católicos matava protestantes e a Igreja estava dividida. Nossa identidade como discípulos de Jesus está em sermos um, como Ele é um com o Pai.

Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.

(João 17:21)

Não somos os únicos cristãos, mas somos unicamente cristãos.”

 “Nos essenciais unidade, nas opiniões liberdade, mas em todas as coisas o amor.”



[1] Se você tem interesse em conhecer mais entre no site, em fevereiro de 2023 terá mais uma edição desse congresso na cidade de Morrinhos. https://www.instagram.com/umicbrasil/

[2] Com base em: https://missaocristabr.org/parceiros/igrejas-de-cristo/

[3] Não vou entrar nas discussões teológicas sobre esse tema aqui, mas em breve teremos um texto sobre o assunto. Acompanhe as próximas postagens.