quarta-feira, 21 de agosto de 2024

A jornada do Herói nas produções culturais

 

Eu tenho um super-herói
Que é muito melhor que He-man
Eu tenho um super-herói
Que é muito melhor que Super-homem.

(Alda Célia)




Há alguns meses atrás estava lendo Os irmãos Karamazov de Dostoievski, um clássico russo que tornou-se literatura mundial. E me recordo de o tempo todo, durante a leitura, esperar o herói da história, Aliocha, pisar na bola e mostrar alguma falha em seu caráter. Quando me dei conta do que eu estava fazendo, foi que a ficha caiu do quanto eu estava acostumada com o perfil de heróis que a era pós-moderna trouxe para dentro dos filmes e livros nas últimas décadas.

O clássico virou romântico, que virou realista e que inspirou os precursores modernistas[1]. O modernismo trouxe o anti-herói, no Brasil, conhecido como Macunaíma[2]. O anti-herói é o herói com defeitos, o herói com falhas de caráter e valores, em sua maioria contrários aos que eram enaltecidos pelas gerações anteriores. Quando estudamos as raízes filosóficas dessas escolas e da produção cultural dos últimos dois séculos, vamos entender que “o buraco é bem mais fundo” do que imaginamos.

Nunca antes tivemos tanto conforto, oportunidades para desenvolver nossas habilidades e dons. Nunca antes tivemos o mundo literalmente na palma de nossas mãos, podemos estar conectados à pessoas dos diversos cantos da terra em uma fração de segundos. A distância tornou-se obsoleta. Mas, ao mesmo tempo, nunca presenciamos tanto isolamento, individualismo, doenças relacionadas à mente e emoções. A produção cultural de uma sociedade é só mais um meio pelo qual ela revela seu coração e seus valores.

 

O anti-herói

Talvez o anti-herói mais famoso da modernidade (e continua na pós-modernidade), tanto nos quadrinhos como nos cinemas é o Deadpool. Isso quando falamos de uma das maiores produtoras de heróis de todos os tempos, a Marvel Comic’s. Não sou especialista nessa franquia, pois não assisti a todos os filmes produzidos pela mesma, e muito menos li os quadrinhos, todavia, é impossível ignorar a cultura pop.

Não vejo problema em termos anti-heróis em nossas narrativas e ficções, pois eles mostram muito bem a realidade da humanidade caída, morta em seus delitos e pecados. Contudo, quando o herói perde seu brilho, e passamos admirar e torcer mais por esses “heróis” caídos, é onde realmente mora o problema. É a mesma história de nos pegarmos, ao assistirmos uma novela/série, torcendo para que o casal se divorcie porque os amantes são mais bonitos ou possuem “qualidades” superiores aos cônjuges. O anti-herói é isso mesmo que você está pensando, é uma mistura do vilão com o mocinho da história.

A Bíblia é um exemplo interessante de muitos anti-heróis. Homens e mulheres caídos que suas histórias apontam para a narrativa principal, a necessidade de um Messias, o verdadeiro herói. O papel do anti-herói é apontar para o verdadeiro herói da história, o Deus-homem. O papel do anti-herói é comprovar que a humanidade não pode salvar-se a si mesmo, ela depende da intervenção divina. Pode parecer tema da Escola Bíblica de Férias, mas essa é a mensagem do evangelho, não existe salvação fora de Cristo. Quando nos distanciamos desse modelo de perfeição vamos nos deparar com o que temos encontrado hoje nas narrativas e ficções, heróis à imagem e semelhança da humanidade caída.

 

A pós-modernidade e o enaltecimento do “salve-se a si mesmo”.

Uma cena importante nas Escrituras, durante a crucificação de Jesus, é o momento em que os religiosos passam diante da cruz zombando de Jesus e usam exatamente essa expressão: “Salve-se a si mesmo!”. O único ser humano capaz de salvar a si mesmo, decidiu não salvar a si mesmo, em obediência ao Pai. E hoje quando perguntamos às nossas crianças e adolescentes, quem são seus heróis, a resposta vai ser essa: “Eu sou o meu herói!”[3]. O ceticismo plantado há duas gerações anteriores, cultivado pelo enaltecimento do indivíduo, gerou a geração dos heróis de si mesmo.

É possível ver essa verdade em algumas releituras dos contos de fada nos cinemas, como também as novas histórias sem o famoso “felizes para sempre”. Ficções como As crônicas de gelo e fogo[4] vieram para confirmar as conclusões dos pós-guerras, utopias humanas podem virar distopias. Isso não deixa de ser verdade, entretanto, a intervenção divina é real! Deus entrou na história do cosmo e está restaurando todas as coisas para o louvor de sua glória! Ele continua sendo Senhor de todas as coisas, e sim, o nosso “Felizes para sempre” está por vir.

Ser cristão é ter a certeza de que SE nossos dias melhores [que estão por vir], não chegarem nessa vida, eles estarão chegando com o Messias! Jesus está voltando para governar as nações e restaurar a terra! Quer maior esperança escatológica do que esta?

 

Conclusão

A maior parte de nós quando consumimos cultura pop não ligamos muito para o que aquele artefato cultural (música, filmes, peças de teatro, livros, obras de arte...) está falando, muito menos paramos para pensar sob qual linha filosófica foram produzidos. Afinal de contas, pra que serve filosofia mesmo? A maior parte de nós, quando nos conectamos a algum streaming (Netflix, Amazon, Disney, HBO...) em nossos celulares, laptops ou mesmo televisão, é com o intuito de nos desligarmos da realidade. Procuramos uma ficção que não nos proporcionem reflexões profundas, porque estamos cansados de pensar.

Mas, a parte irônica nisso tudo é que estamos consumindo projetos muito bem pensados, até mesmo aquelas produções que parecem completamente ridículas e sem sentido, elas estão comunicando e moldando formas de pensar. E a tal da filosofia é a forma como esses pensamentos e ideias são sistematizados e explicados. Não existe produção cultural neutra. Os heróis da geração pós-guerra morreram de overdose, os heróis da minha geração querem mudar o mundo. Os heróis da geração atual é o self (si). O papel do herói nas narrativas culturais são muito importantes, pois, como você pode perceber, podem (de)formar a mentalidade de uma geração.

 

 



[1] Aqui resumo de forma cadencial as escolas literárias e artísticas que tiveram início a partir do Iluminismo (Renascimento) – Século XV.

[2] Anti-herói da obra de Mario de Andrade, que em minha opinião é uma produção genial. Todo missionário(a) ou pastor(a) brasileiro(a) deveria ler Macunaíma.

[3] Capital Moral – Roel Kuiper.

[4] Popularmente conhecida por sua saga na HBO “A guerra dos Tronos – Games of thrones” e atualmente a série “Casa do dragão”.



quarta-feira, 17 de julho de 2024

O Poder da Comunhão (Parte II)

 

Era o seu nome Barnabé, natural de Chipre. Também chamado de José das consolações. Homem bom e piedoso.

(Guilherme Kerr)

 

Minha vida é obra de tapeçaria

É tecida de cores alegres e vivas

Que fazem contraste no meio das cores

Nubladas e tristes

Se você olha do avesso

Nem imagina o desfecho

No fim das contas

Tudo se explica

Tudo se encaixa

Tudo coopera pro meu bem

 

(Stenio Marcius)

 

Stained glass window of Saints Peter and Barnabas in the cathedral of Saint Corentin | photo by Thesupermat


Na última reunião presencial da nossa organização, aqui no Oeste da África, nosso palestrante falava sobre a importância de aprender a desenvolver amizades; não amizades no sentido de coleguismo, mas amizades profundas. O desafio que ele nos lançou para os próximos meses foi: “Tenha melhores amigos! Escolha alguém e desenvolva essa amizade”. Desde o dia em que nascemos estamos aprendendo a nos relacionar. Para aqueles que ainda não entenderam que estão aprendendo a ser mães, pais, esposos e esposas, filhos e amigos, a vida é mais difícil.

O ponto interessante desse desafio é que atualmente estou em uma posição de recomeço, no que diz respeito a amizades profundas. Todos os meus amigos e amigas que antes viviam perto de mim, se mudaram. Meus colegas de trabalho foram remanejados para outras funções, outros estão a caminho da aposentadoria. Muitas mudanças e surpresas inesperadas.

Viver em terras distantes nos ensina a desenvolver amizades, recebê-las como uma dádiva de Deus, ou morrer na sequidão e isolamento. É válido manter amizades que você cultivou, mesmo que hoje essas pessoas não morem no mesmo país (cidade) que você, a tecnologia está ai para nos ajuda a encurtar as distâncias. Mas, ao mesmo tempo, não é a mesma coisa do corpo presente, do abraço, das orações e comunhão sem os ruídos e cortes advindos de uma má conexão de internet.

Poderia descrever minha experiência pessoal, vivendo em terras distantes, através da palavra “agraciada”. Deus me deu muitos bons amigos e amigas, por todos os lugares que passei, em cada período específico de minha trajetória. Olhando para trás consigo ver a mão do tapeceiro costurando minha história às histórias de outras pessoas, tão especiais e caras para mim hoje. Cada uma dessas amizades foram Barnabés, chegaram na hora certa, trazendo uma palavra de encorajamento ou exortação, e hoje, fazem parte de mim.

 

Barnabé, o encorajador

Barnabé é um dos santos venerado tanto pela Igreja Católica (igreja ocidental) como pela Ortodoxa (igreja oriental), seu dia no calendário litúrgico é 11 de Junho. Era natural de Chipre, uma ilha paradisíaca próxima ao Líbano. Seus pais eram judeus helênicos da tribo de Levi, sua tia (Maria) era mãe de João Marcos[1], conhecido pela tradição como autor do segundo dos evangelhos[2] e também por participar de algumas viagens missionárias de Paulo.

O nome de Barnabé é citado em Atos dos Apóstolos, as informações que temos a seu respeito estão contidas nos relatos de Lucas e na tradição das igrejas do Oriente. Barnabé foi uma peça fundamental no ministério de Paulo e de muitos outros irmãos da Igreja primitiva. Segundo a história, seu nome de nascimento era José, mas quando este vendeu todos os seus bens e deu o dinheiro aos apóstolos em Jerusalém, recebeu o nome de Barnabé, υἱός παρακλήσεως (hyios paraklēseōs), que significa "filho da exortação/consolação"[3].

Vemos os atos do Espírito Santo de Deus através da vida de Barnabé em diversas ocasiões narradas por Lucas[4], ao introduzir Saulo aos apóstolos[5], ao contribuir e participar do crescimento da igreja em Antioquia, a primeira igreja missionária[6], ao ser enviado e tornar-se um dos companheiros de Paulo nas missões aos gentios.

O primeiro envio formal de missionários que vemos relatado nas escrituras, está em Atos 13, quando a igreja de Antioquia impõe as mãos sobre Paulo e Barnabé e os envia às nações mais distantes da terra (Ásia e Europa). Se você observar os capítulos anteriores vai perceber que o “chamado missionário” de Paulo e Barnabé foram anteriores a essa confirmação da igreja, mas esse é um assunto para um próximo texto. O que gostaria de pontuar aqui é a importância de um Barnabé na vida dos missionários, ou daqueles irmãos e irmãs que vivem temporariamente longe de sua igreja local, de sua casa. Principalmente quando estamos vivendo em uma cultura bem diferente da nossa.

Precisamos de irmãos e irmãs que orem conosco e por nós, ao mesmo tempo que também precisamos ser alimentados pelas palavras de consolo, exortação e encorajamento. É um renovo precioso, vindo diretamente da comunhão com Cristo Jesus através do Espírito Santo. Vivendo em terras distantes, consigo imaginar o que foi Barnabé na vida de Paulo. Consigo imaginar o desejo de Paulo em estar com seus amigos e amigas de fé e missão[7]. Consigo imaginar como será o dia do grande banquete, as Bodas do Cordeiro.

 

Conclusão

A trajetória de Barnabé nos ensina tanto a desejar Barnabés perto de nós, como também ser Barnabé na vida de outras pessoas. E essa é a vida natural da Igreja, o Corpo de Cristo, espalhado por todos os lugares da terra. Deus tem nos convidado a sermos mais parecidos com Ele, em unidade e diversidade. Ele é família e nos ensina a ser família. Uma família composta de diversas línguas e culturas.

A vida de Barnabé nos lembra do propósito para o qual fomos criados, viver em comunhão. Participar da dança da Trindade e levar outros a também dançarem conosco. Fellowship[8] é a respiração do Corpo de Cristo.

 

 



[1] Colossenses 4:10

[2] Considerando a ordem dos evangelhos por questão de data, sou da linha que entende que Marcos foi o primeiro dos Evangelhos a ser escrito.

[3] Atos 4:36

[4] Autor do livro de Atos dos Apóstolos.

[5] Atos 9

[6] Atos 13

[7] É possível ver a importância de pessoas como Priscila e Áquila, Febe, Andrônico, Júnia, Apeles, Amplíato, Rufo e sua mãe, Timóteo, Tito e muitos outros irmãos e irmãs que tornaram-se a família mais próxima do apóstolo Paulo.

[8] Para saber mais, leia a primeira parte dessa sequência de textos. Link: https://mentes-renovadasmay.blogspot.com/2024/06/o-poder-da-comunhao-parte-i.html

terça-feira, 23 de abril de 2024

A Cultura do Lamento

 

O lamento não só é um ato de autoexpressão ou de exorcizar a dor: ele nos forma e cura. Os Salmos expressam cada emoção humana, mas, recitados vez após outra, nunca nos deixam simplesmente como estávamos. Eles são um remédio forte. Eles nos mudam. A transformação efetuada não é converter nossa tristeza em felicidade; eles não pegam pessoas tristes e lhes tornam irritantemente sorridentes e otimistas. […] Pelo contrário, eles firmam nossa visão no amor de Deus por nós e nos ensinam a localizar a nossa dor e anseio no drama eterno de Deus. Eles nos formam para ser um povo que pode manter as profundezas de nossa dor com total sinceridade, ao mesmo tempo em que nos mantemos firmes nas promessas de Deus.

(Tish Warren – Oração da noite)


Geinene Carson

Quando falamos sobre lamento e tristeza é um tópico que muitas vezes evitamos, pois contraria a cultura na qual estamos inseridos. Uma cultura que prega a felicidade em todos os momentos e o prazer a cima de tudo. Quando nos deparamos com as Escrituras e a narrativa bíblica, percebemos que o lamento e a tristeza fazem parte das orações dos santos. O choro e a dor fazem parte do Deus ao qual adoramos e dizemos conhecer. Ele é um Deus que sofre desde que a humanidade caiu e o pecado entrou em nossa história. Há pelo menos duas razões pelas quais o lamento e a tristeza são importantes na vida cristã, a primeira é que por meio deles conhecemos a Deus de forma completa, a segunda é que mais do caráter de Cristo é formado em nós.

Richard Foster escreveu: “Hoje o coração de Deus é uma ferida aberta de amor”. Deus sofre pelos povos e pessoas que não o conhecem, pelos filhos que viraram as costas para a comunhão e a mesa. O Eterno é aquele que entregou parte de si para ser rasgado e moído por nossas transgressões e pecados, mas a cima de tudo glorificar Seu próprio nome cumprindo Seu plano eterno de tabernacular em perfeita união com a humanidade. Ele é o Deus, o qual possui aflições que ainda precisam ser vividas e partilhadas por seus amigos. Ser amigo de Jesus e estar em plena comunhão com Ele, partilhar de suas aflições e dores[1].

 

As diversas formas de Lamento

A nossa vida ordinária[2] é uma constatação do quão real é a narrativa bíblica, podemos enxergar a mesma mistura de emoções e sentimentos experimentados pelos personagens bíblicos nas diversas estações de suas vidas. Temos o exemplo de Davi, no Salmo 51 que lamenta por seu pecado e sua infidelidade ao Senhor. Temos o lamento e desespero de Ana por não ter filhos, em I Samuel 1, transformados em oração e súplica. Jó lamentou e chorou a intensa dor de muitas perdas de uma só vez. Vemos o lamento de Daniel em oração por Israel, que experimentava o amargor do exílio. No livro de Esdras vamos observar a mistura de choro com gritos de alegria, quando o templo é reconstruído.

Em Lucas 15 o pai lamenta pelo filho mais novo que o desprezou e saiu de casa. Jesus chora e lamenta ao olhar Jerusalém, por saber que seu povo não reconheceu que Ele era o Messias. Os judeus e cristãos lamentaram a perseguição e martírio. Vemos Paulo, mesmo em meio a lágrimas e sofrimento, se alegrando em suas prisões e suplícios. Ao abrirmos o livro de Salmos vamos perceber que esse livro tão antigo de orações e louvores, fizeram parte das orações e lamentos do povo de Deus no decorrer dos séculos – Antigo e Novo Testamento, Igreja ao longo dos séculos. Em muitos casos o lamento e a tristeza foram tamanhas que o autor se sente esquecido pelo próprio Deus (Salmo 13).

A igreja Afegã, Sudanesa, Norte Coreana, Chinesa e de diversas nacionalidades sofrem pela perseguição e o martírio. Sofremos pelas crianças e adolescentes explorados de diversas maneiras. Sofremos por causa de governos corruptos e lideranças não servidoras. Sofremos ao ver trabalhadores que tem suas aposentadorias roubadas, pelo agricultor que não conhece bem seus direitos e não sabe como reivindica-los. Sofremos pelos nosso amados que morrem. Sofremos por nossos próprios pecados, e nossa incapacidade de nos livrar deles. Sofremos pelas marcas que a queda deixou na bonita criação de Deus. E como nossos irmãos e irmãs faziam, precisamos aprender a lamentar de forma correta. Precisamos aprender a transformar o lamento em oração e canto.

 

O Lamento como Luto

Tish Warren em seu livro “Orações da noite”[3] expressa bem o porquê temos dificuldade com o Luto e a dor da perda, ela nos lembra dos processos que o luto exige e de como somos resistentes a eles.

O nosso problema é com o sentimento de tristeza. Vamos fazer praticamente qualquer coisa para evitá-lo. E se precisamos nos sentir tristes, ao menos queremos que nossa tristeza acabe quando já estamos fartos dela. Nós queremos que o luto seja apenas mais uma tarefa na nossa lista; o temporizador da alma vai tocar e poderemos ir para a próxima tarefa. Mas não é assim que o luto funciona. Nós o controlamos tanto quanto controlamos o clima. Não é simplesmente uma atividade intelectual, um reconhecimento cognitivo da perda. Sentir tristeza é o custo de ser vivo emocionalmente. Na verdade, é o custo até da santidade. Os cristãos precisam se permitir ser um povo que lamenta. Faz parte do pacote. […], a não ser que concedamos certo espaço para o luto, não poderemos conhecer as profundezas do amor de Deus, o Deus que cura e retorce a dor, a forma que o luto traz sabedoria, conforto, e até alegria. […] Se não dermos espaço para o luto, ele não irá simplesmente desaparecer. O luto é teimoso. Ele dará um jeito de ser ouvido ou morreremos tentando silenciá-lo. Se não o encararmos diretamente, ele nos comerá pelos cantos, de modos que não são sempre fáceis de reconhecer como luto: explosões de raiva, ansiedade fora do controle, vazio compulsivo, amargura regurgitante e vícios sem fim. O luto é um fantasma que não pode descansar até que seu propósito seja cumprido.

É fato que não fomos projetados para a morte e consequentemente nunca estaremos preparados para lidar com ela. Jesus foi o único ser humano que venceu a morte e a exterminará por completo na consumação dos séculos! Todavia, não podemos ignorá-la enquanto estamos aqui; precisamos viver as dores e processos que a morte tem causado em nossas vidas.

 

Os Salmos – as orações e cantos dos santos de todas as Eras

João Calvino chamou os Salmos de “a anatomia de todas as partes da alma”. Ele disse que não há emoção humana que “qualquer um encontre em si cuja imagem não seja refletida neste espelho. Todos os lutos, tristezas, medos, enganos, esperanças, cuidados, ansiedade, em suma, todas as emoções perturbadoras com as quais as mentes dos homens acabam se agitando, o Espírito Santo retratou com exatidão aqui. Os Salmos são dramáticos. E a vida — mesmo a vida ordinária — é dramática, encharcada de significado, cheia de gloriosa beleza e profunda dor. (Tish Warren)

Vejamos um exemplo na prática de como os salmos nos ensinam a lamentar de forma correta:

Até quando te esquecerás de mim, SENHOR? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando consultarei com a minha alma, tendo tristeza no meu coração cada dia? Até quando se exaltará sobre mim o meu inimigo?

(Salmo 13:1-2)

Quem nunca se sentiu assim? A dor e o sofrimento, em alguns dias, parecem não ter fim. Esses momentos tentam nos fazer esquecer de que nossa vida já esteve repleta de alegria e paz. E o ensino do salmista é o clamor ao Senhor por iluminação e graça:

Atende-me, ouve-me, ó Senhor meu Deus; ilumina os meus olhos para que eu não adormeça na morte; Para que o meu inimigo não diga: Prevaleci contra ele; e os meus adversários não se alegrem, vindo eu a vacilar.

(Salmo 13:3-4)

 Ele finaliza o salmo com palavras de adoração e confiança no caráter imutável de Deus. Talvez sejam assustadores os versos finais, mas, sua reação à dor e ao sofrimento é a composição de cânticos, um novo cântico para a estação do lamento. A Mesmo em meio a dor e ao luto, o salmista vê a bondade de Deus.

Mas eu confio na tua benignidade; na tua salvação se alegrará o meu coração. Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem.

(Salmo 13:5-6)

Agostinho via os Salmos como “a forma de Deus remodelar nossos desejos e percepções para que aprendêssemos a lamentar as coisas certas e nos regozijar com as coisas certas.” O que precisamos entender é que nossas emoções são boas, elas foram criadas por Deus para a Sua glória. Todavia, o que acontece em diversos momentos, é que nossas emoções tomam a direção errada – egocentrismo. Temos o habito de fazer tudo girar em torno de nós mesmos, e como podemos ver o problema não são nossas emoções, mas nosso coração. É exatamente nesse ponto que os Salmos remodelam nossos desejos e percepções. Eles nos ensinam a olhar para a pessoa certa, Deus!

O lamento é uma expressão de tristeza. Aprender a lamentar é aprender a chorar. Mas é mais do que isso. Nos salmos de lamento, o salmista cobra as promessas de Deus para o próprio Deus. […] É melhor vir a Deus com palavras duras do que continuar longe dele, nunca verbalizando nossas dúvidas e frustrações. Melhor se irritar com o Criador do que fumegar em devoções polidas. Deus não repreendeu o salmista. Ao longo dos Salmos, ele nos incentiva a falar com ele sem filtros. Contudo, para deixar as coisas mais difíceis, a maior parte de nós não só vive numa cultura que se inoculou contra o lamento, como também vive numa cultura em que é fácil presumir que sabemos mais do que Deus.

(Tish Warren)

 

Conclusão

O lamento é um forma de participarmos do coração de Jesus, como Tomé. Talvez nossa reação ao olharmos para a atitude de Tomé é julgá-lo como incrédulo, mas esquecemos de olhar qual foi a resposta de Jesus deu a esse discípulo: “Toque e creia!”. Talvez teremos passar por situações de dor e lamento, para que como Jó contemplemos: “Antes eu te conhecia de ouvir falar, mas agora os meus olhos de veem”[4]. A glória de todo o sofrimento e dor é ter olhos para ver Aquele que está assentado no trono, é de que o lamento não é para sempre, pois um dia todas as nossas lágrimas serão enxugadas[5]. Nós não teremos lágrimas para lamentar na Nova Jerusalém, por isso, louvado seja o Senhor pelo privilégio de derramarmos nossas lágrimas aqui e ver tudo cooperando para nosso bem.

A pintura “A bird’s simple song” de Geinene Carson[6] – exposta nessa postagem – é a representação de um canário, o pássaro que é capaz de compor novos sons (uma nova canção) em diferentes estações do ano. É uma analogia preciosa de como os Salmos podem nos ensinar a cantar novos cânticos ao nosso Deus, nas diferentes estações da nossa vida. Existe uma canção para ser cantada em meio às prisões[7], dores, lutos e dessabores. A Bíblia nos convida a cultivarmos uma comunidade que aprendeu a lamentar!



[1] Colossenses 1:24: Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja;

[2] Entenda ordinária, como cotidiana, rotineira.

[3] Você pode comprar em: https://www.amazon.com.br/Ora%C3%A7%C3%A3o-noite-Tish-Warren/dp/6556891983

[4] Jó 42:5

[5] Apocalipse 21:4

[6] Contrary to what one might think, a bird’s song is anything but simple; hence, the touch of sarcasm in the title. In the midst of my research on neuro-genesis, I came across a most interesting scientific discovery of the songbird’s brain, specifically the canary, which has been proven to possess the unique ability to regenerate neural pathways when learning new seasonal songs. If even birds were created with this amazing ability, what about us? Can we not also learn new songs for new seasons? / Ao contrário do que se possa pensar, o canto de um pássaro não é nada simples; daí o toque de sarcasmo no título. No meio da minha pesquisa sobre neurogénese, deparei-me com uma descoberta científica muito interessante do cérebro dos pássaros canoros, especificamente do canário, que demonstrou possuir a capacidade única de regenerar vias neurais ao aprender novas canções sazonais. Se até os pássaros foram criados com essa habilidade incrível, e nós? Não podemos também aprender novas músicas para novas temporadas?

[7] Paulo e Silas (Atos 16:16-34)

segunda-feira, 25 de março de 2024

O Totem da Paz

  Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgarás os povos com equidade, e governarás as nações sobre a terra. Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos.

(Salmos 67:3-5)






“O Totem da paz” é um clássico da missiologia[1]escrito por Don Richardson, teve sua primeira edição em 1972. O livro trata-se do testemunho de como o povo Sawi se rendeu ao Senhor. Um povo originário da Papua Nova Guiné, que até mais da metade do século XX nunca haviam tido contato com a civilização ocidental. Don Richardson era de origem canadense foi missionário, escritor e palestrante. Nasceu em 23 de junho de 1935 e faleceu, recentemente, em 23 de dezembro de 2018. Além desta, Richardson é autor de “O fator Melquisedeque” e “Senhores da Terra”. A seguir farei uma pequena resenha crítica do livro, portanto, já deixo um alerta de “spoiler”.

O livro divide-se em três partes, na primeira parte Richardson ambienta o leitor a respeito da cultura sawi e dos povos vizinhos que compartilham das mesmas tradições. Ele dá ênfase no culto à traição, uma tradição que envolvia planos habilidosos para vingar a morte de algum parente ou amigo que determinada tribo havia matado. Fazia parte do ritual o processo de enganar a vítima, fazendo-a acreditar que as desavenças eram coisas do passado e que agora a amizade e paz estavam estabelecidas. Todavia, o que está na mente do vingador é o “Tuwi asonai makaerin”, “engordar com amizade para o abate”. Quando a vítima tinha certeza de que estava segura e feliz, o vingador atacava arrancando sua cabeça. Toda a tribo se reunia para comer as partes da vítima, a cabeça era o troféu, pertencia à pessoa que tinha tido um papel crucial no plano de vingança.

É válido ressaltar que nessa primeira parte o autor lançou mão de sua licença poética para criar uma narrativa com lugares e personagens específicos, estes que provavelmente conheceu a partir dos relatos feitos pelos integrantes das tribos sawi ao redor da fogueira. Posto que, aqueles que participavam ativamente do culto à traição eram os heróis do povo, seus “feitos” eram contados de geração em geração. A narração descritiva de Richardson faz com que o leitor se sinta nas selvas da Papua Nova Guiné, completamente envolvido com o povo sawi.

 

Os seis anos de Richardson e sua família entre os Sawis

A parte dois e três do livro é o testemunho pessoal de Richardson, seu chamado, chegada à Papua Nova Guiné, seu processo de aquisição da língua, desenvolvimento de relacionamentos, desafios na pregação do evangelho e a miraculosa conversão desse povo ao Senhor. O ponto alto do livro e do testemunho do autor é justamente o grande desafio de falar sobre um Deus que foi traído por um dos seus melhores amigos, para um povo que venerava traidores. O herói da história de Jesus, para o povo sawi, em um primeiro momento, era Judas.

O impasse é vencido através de uma chave que Richardson encontrou na própria cultura sawi, “A criança da paz”. Dentro da cultura sawi o único modo de impedir o culto à traição era por meio da troca de crianças entre as duas aldeias (famílias) rivais, uma das famílias devia oferecer um de seus filhos, assim as crianças eram trocadas e recebidas. E enquanto aquela criança vivesse a paz estava estabelecida. Foi a partir dessa tradição que Richardson conseguiu resolver o mal entendido na história de Jesus e explicar melhor o evangelho para aquele povo.

Aqui vão algumas citações que considerei relevantes para o recrutamento e permanência do missionário em campo transcultural. Como também, a respeito dos pontos controversos na mudança cultural que esses povos originários vão sofre em contato com a cultura ocidental:

Ao falar àquele grupo de estudantes, Vine sentiu-se dominado por uma forte impressão de objetividade. As outras escolas que visitara em seu itinerário talvez pudessem se gabar de mais alto nível de escolaridade, e de alunos mais preparados que os daquele instituto cujo lema era: Formar e disciplinar soldados de Cristo. Mas ao fazer o apelo para a obra pioneira de fincar a bandeira do evangelho de Cristo no interior da Nova Guiné Holandesa, entre tribos isoladas e potencialmente hostis, ele estava cônscio de que o fator primordial a ser considerado não seria alta escolaridade e cultura, embora tais coisas não devessem ser absolutamente ignoradas. As qualidades essenciais que deveriam compor o caráter dos futuros pioneiros naquele trabalho seriam: uma fé inabalável, a autonegação e o cultivo de uma íntima comunhão com Deus.

Aqueles que defendem a tese de que os grupos tribais que ainda restam na terra sejam deixados intactos, não compreendem como tal ideia é ingênua. Neste mundo já não há lugar para que quem quer que seja possa ser deixado em paz. Já está mais do que provado que, se os missionários não forem a tais lugares - e eles vão para dar - madeireiros, caçadores de jacarés, mineradores, plantadores, etc., irão la - para tomar.

"Será que não estamos sendo guiados e impulsionados apenas por um sentimento muito humano de presunção?" E enquanto os sawis arrastavam a embarcação mais para a terra, impelindo a para a margem lamacenta do rio, ouvi a resposta, que partia de meu próprio coração. Era a paz, aquela paz que, mesmo que eu estivesse sendo levado apenas pela presunção, tinha um ponto a seu favor em um momento de crise, ela ainda se fazia presente. Então pensei: certamente, se minha motivação não viesse de Deus, aquela paz teria me abandonado agora! Sem se deixar pressionar pelo alarme que vinha de meus sentidos, aquela paz zombava das argumentações do raciocínio, e dava forças à certeza que havia no fundo do meu ser. (p.151)

"Missionário", indagava ela, "por que você veio aqui?" Era uma pergunta que eu ouvira muitas vezes dos lábios de incrédulos, e rebatera. Mas agora era o meu Senhor que a colocava diante de mim, e não havia meios de escapar a ela. […] Depois, então, respondi. "Senhor Jesus, é por ti que nos encontramos nesta sendo batizados não em água, mas na realidade dos sais. Isto é um novo batismo nesta obra que tu preparaste para nós, antes da criação do mundo. Conserva-nos fieis a ela e a ti. Capacita-nos com teu Espírito. (p.153-154)

 

Críticas e cuidado

O testemunho de Don Richardson é uma injeção de ânimo e fé para todos os seus leitores. Mas, quando nos deparamos com a realidade do campo transcultural, o processo parece ser mais lento e desanimador. Segundo os relatos de Richardson em seis anos de trabalho já haviam convertidos, batizados e parte do Novo Testamendo já traduzido. É fato que Deus é poderoso para operar milagres e mover da forma como Ele deseja, todavia, o que temos como maioria nos relatos missionários são anos e anos sem fruto. Muitos se dedicam ao trabalho com a certeza de que em algum momento o milagre de conversão e arrependimento irá alcançar seu povo.

Conheço missionários que passaram mais de vinte e cinco anos trabalhando na tradução e discipulado de povos sem bíblia, com uma cultura e ambientação similares aos sawis, que só tiveram seus primeiros batizados após trinta anos de trabalho e pregação. A palavra que podemos definir o testemunho de Richardson é MILAGRE, AVIVAMENTO. Deus já havia planejado a conversão do povo sawi para aquele tempo, e Richardson foi o instrumento usado pelo Senhor.

Outro ponto da obra que é necessário cuidado e cautela é o que Richardson, em uma obra a parte, vai chamar de “Fator Melquisedeque”. Entre os Sawis o “Fator Melquisedeque” foi a “Criança da paz” (Totem da Paz). A tese de Richardson é que cada cultura guarda elementos chaves que podem estar conectadas à grande narrativa bíblica, elementos que estão na cultura do povo, deixadas pelo próprio Deus para que o evangelho seja pregado e compreendido ali. O cuidado que o missionário deve ter aqui é com os sincretismos. O símbolo precisa de encaixar perfeitamente para que não haja nenhum mal entendido no processo.

 

 



[1] Área da teologia que estuda as missões transculturais.


 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O que são os nossos Essenciais?

 “Nos essenciais unidade, nas opiniões liberdade, mas em todas as coisas o amor.”[1]
“Não somos os únicos cristãos, mas somos unicamente cristãos.”
                       

                         (Lemas do Movimento de Restauração)

 



Em toda a história da cristandade, seus erros e acertos, vemos a igreja do Senhor Jesus nascer, crescer e se desenvolver ao longo dos séculos. Por mais que tenhamos tido divisões e a formação de diferentes tradições cristãs, há essenciais que nos unem. Essenciais que foram conservados por meio de documentos oriundos dos concílios da Igreja, como também os escritos dos pais apostólicos, afim de combater as diversas heresias que surgiam no meio do Corpo de Cristo.

De forma geral, o ponto que une as diversas tradições cristãs é a pessoa de Jesus, sua soberania e divindade. Acreditamos que Jesus é Deus, Deus que também é ser humano. Cremos que ele veio e um dia voltará. Acreditamos na Trindade, que Deus é comunidade, três pessoas diversas, que não estão subordinadas uma a outra, mas que são um só Deus. Cremos também que o batismo e a ceia são elementos importantes em nossos cultos e confissões de fé. Outro ponto que nos une é o entendimento de que a Bíblia é a Palavra de Deus.

É a partir desses essenciais que teremos uma diversidade de tradições cristãs – católicos, luteranos, presbiterianos, batistas, congregacionais, independentes, pentecostais, e os evangélicos, termo que engloba várias tradições. Tradições essas que terão ênfases, produções teológicas e opiniões diversas.

 

O Credo Apostólico

O Credo Apostólico foi um dos resultados do primeiro Concílio em Niceia, convocado em 325 pelo imperador Constantino. A convocação foi feita por causa de uma doutrina que começou a ser disseminada por um dos diáconos de Alexandria, Ário[2]. Este, questionava a divindade de Jesus. Ário afirmava que Jesus não possuía a mesma substância do Pai e do Espírito, logo se Jesus não era Deus, não existia Trindade.

É válido ressaltar que o arianismo não nasceu do nada e foi combatido de imediato, os ensinos pré-nicenos (antes do Concílio) já continham pontas soltas sobre a doutrina da Trindade, estas foram terra fértil para a heresia de Ário. Não havia uma definição clara a respeito da Trindade, alguns presbíteros e líderes da Igreja chegavam a afirmar que havia subordinação entre as pessoas da Trindade, o Filho era subordinado ao Pai. Assim, no século III, aparece Ário questionando a divindade de Jesus e leva muitos a se desviarem da verdade do Evangelho.

O Credo Niceno, portanto, é um excelente exemplo a respeito do que são nossos essenciais. O primeiro Concílio oficial da Igreja (Após o Concílio de Jerusalém – Atos 15) que contou com a maior parte de seus líderes e bispos da época, decidiu e documentou a seguinte decisão a respeito do que cremos:

 

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra;

E em Jesus Cristo, um só seu Filho (seu único Filho), Nosso Senhor,

Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem;

Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;

Desceu ao reino dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia;

Subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,

De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo,

Na Santa Igreja Católica[3], na comunhão dos Santos,

Na remissão dos pecados,

Na ressurreição da carne,

Na vida eterna.

Amém.

 

Heresia e Ortodoxia

A Heresia sempre esteve presente na história da Igreja desde seu surgimento com os Apóstolos e primeiros crentes. Paulo e João[4] combateram em muitas de suas cartas os ensinos dos gnósticos e falsos mestres que se levantaram desde o primeiro século. Portanto, podemos definir Ortodoxia como o ensino e regras de fé que foram estabelecidos pelos Apóstolos e a tradição da Igreja; e Heterodoxia (heresia) como ensinos que contrariam esses ensinos.

Portanto, entendemos como essenciais em nossa confissão de fé, doutrinas que reconhece a divindade e pessoalidade de cada membro da Trindade, doutrinas que reconhecem a encarnação de Cristo, sua morte, ressureição e sua eminente volta à Terra para julgá-la e restaurá-la. Doutrinas que versam a respeito do perdão dos pecados, ressurreição dos mortes e vida eterna. Todo ensino que contraria ou relativiza qualquer desses fundamentos básicos devem ser considerados hereges.

Segundo nossos pais, pioneiros no Movimento de Restauração, devemos chamar de irmãos e integra-los em nossa mesa, todos aqueles que compartilham desses essenciais da fé cristã. Todos aqueles que reconhecem que Jesus é completamente homem e completamente Deus.

 

As opiniões e o Amor

Os desdobramentos a respeito das doutrinas basilares podem ser consideradas opiniões. Por exemplo, a doutrina que trata a respeito da remissão de pecados, soberania divina e liberdade humana; o campo da escatologia é um dos mais diversos e com opiniões de diversos tipos, englobando até mesmo muitas teorias da conspiração. O lema do movimento é liberdade nas opiniões e acima de tudo o amor.

O amor, como bem explanou o apóstolo Paulo em I Coríntios 13, é o maior de todos os dons. O amor é o testemunho público de que somos discípulos de Jesus[5]. É o amor que faz com que eu considere meu irmão superior a mim[6], e pense mais nos interesses dele do que nos meus[7]. É o amor que nos mantém unidos apesar de nós e nossas opiniões. O amor a Jesus e ao próximo me ensinam a abrir mão do meu ego (negar a mim mesmo) e a não descer da cruz.

É o amor que nos ensina a andar em humildade e quebrantamento, reconhecendo que a história da Igreja não começou comigo, reconhecendo que há riqueza nas diversas tradições cristãs. É o amor que me ensina esse caminho de unidade e perfeição, lembrando sempre que a honra e a glória são de Deus!

 

Conclusão

Que Deus nos livre de nós e de nosso ego. Que Deus nos dê coração ensinável e olhos para apreciar a beleza da diversidade. Que Deus nos ensine que diversidade e unidade são parte de Sua própria essência, Pai, Filho e Espírito Santo. A beleza da Trindade é revelada na criação, no Corpo de Cristo, a Igreja.

 



[1] O irmão J. H. Garrison escreveu que Rupertus Maldenius sussurrou esse provérbio às gerações futuras por volta de 1627 ou 1628, durante a Guerra dos Trinta Anos, e cinqüenta anos mais tarde Richard Baxter fez uma referência a ele.2 Esse conflito armado teve início em 1618 por causa de diferenças religiosas entre católicos e protestantes e é uma conseqüência da Reforma Protestante. Essa “guerra religiosa” promoveu grandes matanças, verdadeiros banhos de sangue, e a paz só veio com o “Tratado de Westphalia” em 1648.

[2] Ário nasceu entre 256-260 na Líbia, há pouco material sobre sua vida e escritos, mas, tudo indica que a polémica em Alexandria se deu quando Ário já era idoso.

[3] O termo “Católica” significa “uma só”. Portanto, como cristãos, somos católicos, pois cremos na existência de apenas uma Igreja, a comunidade de santos de todas as eras que creem no Cristo. Jesus voltará para uma noiva, uma só igreja.

[4] Colossenses e I João.

[5] João 13:35

[6] Filipenses 2:3

[7] Filipenses 2:4-5