Como é bom e agradável os irmãos
viverem em união!
É como o óleo precioso sobre a
cabeça, que desce para a barba, a barba de Arão, e desce sobre a gola das suas
vestes;
como o orvalho do Hermom, que desce
sobre os montes de Sião. Ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.
(Salmo 133)
O Salmo 133 faz parte dos
Salmos dos Degraus, também conhecido como Salmos de Peregrinação, Salmos de
romagem e ainda Cânticos de ascensão. Eram salmos cantados pelos peregrinos que
seguiam para Jerusalém durante a Festa da Páscoa (Pesah), Festa das Semanas
(Shavua) e Festa dos Tabernáculos (Sucot). Não há consenso a respeito do porque
esses salmos são assim designados, alguns afirmam que esses salmos
correspondiam aos degraus do Templo do Senhor. Outros afirmavam que eles faziam
referência aos quinze degraus que estavam entre o pátio das mulheres e o Templo
principal.
É provável que alguns
desses salmos foram escritos e cantados durante os dias de Davi e Salomão,
todavia, é possível perceber a influência do exílio em salmos como o 120, 123 e
126. Os quais revelavam o saudoso coração do povo de Israel por sua terra,
local de adoração (Templo) e a benção da comunidade reunida para adoração
coletiva. É válido ressaltar que o exílio além de gerar esse saudosismo, também
consolidou, por meio do imaginário profético, as antigas promessas de um
Messias que viria da linhagem de Davi.
Quando olhamos a
organização desses Salmos [120 ao 134], é possível perceber uma estrutura
gradativa, de cânticos que começavam nos caminhos que saíam das diversas
cidades de Israel, e finalizavam no Templo em Jerusalém. O 133 contempla a
comunidade toda reunida diante do Senhor e o 134, fecha a coleção, mostrando o
trabalho dos sacerdotes dentro do Templo, em um serviço incessante. Outro ponto
interessante para observar, quando pensamos em como esses salmos são chamados,
é a respeito da geografia de Jerusalém, uma cidade edificada sobre montes. O monte do
Templo era um deles. Os peregrinos naturalmente subiam para adorarem e
sacrificarem ao Senhor.
Quão BOM e agradável
A palavra usada por Davi[1] para descrever a unidade
do povo de Deus é BOM, a mesma palavra usada por Deus em Gênesis 1. Ela lembra
ao ouvinte que a vontade de Deus para a humanidade é vivermos em COMUNIDADE, em
família. É por isso que Ele disse em Gênesis 2, que NÃO era BOM que o homem vivesse
só.
Assim como Deus vive em
família (a Trindade Santa), nós fomos criados semelhantes a Ele, seres
gregários, destinados a viver em comunidade. Toda a história da humanidade,
suas correntes filosóficas e sociais chegaram nessa mesma conclusão. Aquilo que
a Bíblia já mostrava de forma tão primorosa e clara, o ser humano vive e
desenvolve-se melhor em sociedade.
Como Azeite e como Orvalho
Como AZEITE precioso
derramado sobre a cabeça de ARÃO. Levíticos 8:10-12 descreve a unção de Arão
como Sumo-sacerdote, o responsável por representar o povo diante de Deus. A unção
de Arão era o símbolo da presença de Deus no meio do Seu povo, posto que, era o
meio pelo qual o perdão dos pecados era concedido com o sacrifício do cordeiro
e a propiciação no Santo dos Santos.
Como o orvalho de HERMOM que desce sobre os
montes de SIÃO. O monte Hermom por possuir altitude considerável, em seu topo toda
a umidade recebida vira gelo (neve). O processo de desgelo, conforme as
temperaturas mudam ao longo do ano, abastece os rios e lagos da região. Assim, o Hermom é um
símbolo de prosperidade para boa parte do território de Israel. Da
mesma forma que acontecia no passado, o Sumo-sacerdote abençoava o povo a
partir de Sião, em cada uma das festividades, o mundo foi abençoado, por meio
do Messias que morreu e ressuscitou em Jerusalém. Assim temos o cumprimento da
promessa que Deus fez a Abraão, a partir de Sião, TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA foram
abençoadas.
O
óleo e o orvalho são símbolos metafóricos da benção que celebram a bondade e a
amabilidade daqueles que vivem juntos em união.
Nancy
deClaissé-Walford[2]
Jesus, o Sumo-sacerdote
que fez expiação pelos nossos pecados de uma só vez, e abriu por meio de si
mesmo, um novo e vivo caminho para o Pai. Como cabeça do corpo, Ele foi Ungido.
A unção foi derramada sobre a cabeça, desceu pela barba, gola e o restante do
corpo. A unção sacerdotal foi derramada sobre nós, Seu povo, para que pudéssemos
voltar ao nosso propósito original, um reino de sacerdotes (I Pedro 2:9-10).
Salmo 133 na tradição
cristã
Na tradição Cristã, o
Salmo 133 tem sido usado na Ceia do Senhor. Onde todos aqueles que fazem parte
do Povo de Deus são bem-vindos a se assentarem à mesa da família de Deus.
Agostinho afirmou com
ousadia que o Salmo 133 inspirou a fundação dos mosteiros, uma vez que as suas
palavras retratam o ideal dos irmãos, companheiros de peregrinação na fé,
vivendo juntos em unidade.
Viemos
de famílias aparentadas de diferentes lugares e épocas, mas o nosso parentesco
definitivo é assegurado através da nossa partilha mútua nas promessas de Deus.
Nancy
deClaissé-Walford
As palavras usadas no Salmo
133 lembravam o povo de que sua relação familiar não era simplesmente baseada
no sangue, mas pela sua participação mútua na comunidade de Deus. Unidos como
irmãos e irmãs. Nisso podemos observar de forma mais clara, a promessa de Deus:
“...porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.”
(Isaías 56:7c), se cumprindo na Igreja. A família de Deus composta por povos de
todas as partes da terra, diferentes línguas e culturas.
Conclusão
Como Paulo bem ilustrou
em I Coríntios 12, somos um único Corpo, fomos batizados em um mesmo batismo e compartilhamos
o mesmo Espírito. A Igreja de Jesus é o ajuntamento de pessoas que abriram mão
de suas próprias vontades, para juntas se submeterem à vontade de Deus. A
unidade do povo de Deus tem como ponto central, a
comunhão. Jesus deixou muito claro como o mundo nos identificaria como Seus discípulos,
por causa da unidade (João 17).
A Igreja vive em comunhão
quando cada membro abre mão das suas próprias vontades, para que a vontade de
Deus tenha supremacia. Quando cada um cresce na revelação de Cristo o
suficiente, a ponto de O identificarem em seus irmãos e irmãs. As bênçãos da
unidade, expressas nesse salmo, são apenas uma sombra daquilo que Deus planejou
para que seu povo pudesse desfrutar, através da Igreja. A imagem perfeita de
Deus na terra.
[1] O possível
autor do Salmo 133.
[2] Nancy deClaissé-Walford, Rolf
A. Jacobson, e Beth LaNeel Tanner, “The Songs of the Ascents: Psalms”, in The
Book of Psalms, org. E. J. Young, R. K. Harrison, e Robert L. Hubbard Jr., The
New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI; Cambridge,
U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 2014).
